terça-feira, junho 19, 2007

Um dia de chuva muito especial - Sydney Taylor

Nova Iorque, Lower East Side, 1912. A área sudeste de Nova Iorque, acolheu milhares de emigrantes durante as grandes ondas de emigração para a América. Esta zona pobre da cidade tornou-se na área com maior densidade populacional do mundo. Aqui viviam pobremente muitas comunidades estrangeiras, entre elas a de Judeus. Era na Lower East Side que se encontrava a maior comunidade Judaica do mundo. Num modesto apartamento, vivem Ella, de doze anos, Henny,de dez, Sarah, oito, Charlotte, seis e Gertie, de quatro anos, com a mãe e o pai, um comerciante de coisas usadas. O dinheiro não abunda, mas a mãe dirige a casa habilmente. Uma casa onde reina a alegria e a harmonia.

A Lower East Side de Nova Iorque era uma zona pouco bonita. Não tinha relva e nos passeios cinzentos e nas sarjetas calcetadas nada crescia. Flores, só as que se viam nas poucas lojas de floristas. Não havia alamedas ladeadas por árvores. Nos passeios só havia candeeiros a gás. Não havia um ribeiro onde as crianças pudessem chapinhar nos dias de Verão. Só o rio East, cujas águas, verdes escuras e sujas, cheiravam a peixe, a madeira alcatroada dos barcos e a lixo putrefacto.
Como muitas outras famílias judias, o pai e a mãe moravam com as cinco filhas no bairro muito povoado de Lower East Side de Nova Iorque. Ao contrário da maior parte das famílias, não moravam numa casa grande, mas num apartamento de quatro assoalhadas e vestíbulo, de um prédio de dois andares.
O pai tinha uma loja não longe do rio, na cave de um antigo armazém. Para lá chegar, tinha de se descer por uma escada de madeira perigosamente estreita, sem corrimão. Mas isso não impedia as meninas de irem visitar o pai. Iam lá muitas vezes, pois, para elas, a loja era como um reino de contos de fadas. Era uma loja de coisas velhas.
As escadas acabavam numa sala ampla, onde estava a escrivaninha e a cadeira que o pai usava para a contabilidade.
Do lado oposto da sala havia algumas cadeiras colocadas em semi-círculo e um fogão de sala. No Inverno, o fogão não conseguia aquecer a grande sala. Em cima dele, uma chaleira cantava ininterruptamente. O pai tinha o cuidado de a ter sempre cheia para que os caixeiros-viajantes e os negociantes das vizinhanças pudessem aquecer o estômago com uma chávena de chá quente enquanto se sentavam à volta do lume a conversar. No Verão não havia chá e o fogão estava apagado, mas a sala era fresca e húmida, e por isso os vendedores também gostavam de se sentar nas cadeiras a conversar. Nas traseiras da sala é que estava a loja propriamente dita; primeiro, a secção do ferro-velho, com montanhas de ferro, zinco, estanho, talheres de cobre. Depois era a secção do papel, com montanhas de jornais e revistas, e por último, a dos trapos. Aqui o pai tinha mais trabalho, porque tinham de ser separados e metidos em caixas.
Uma manhã, as irmãs foram acordadas pelo bater da chuva.
Charlotte encostou o nariz ao vidro da janela e disse:
– Está a chover a cântaros! – disse Charlotte com o nariz encostado ao vidro da janela.
– Que diabo! – exclamou Henny – Hoje o dia vai ser aborrecido.
– Podíamos ir visitar a Fanny – propôs Ella. Fanny era a melhor amiga de Henny.
– Não podemos porque estamos zangadas.
– Outra vez? – disse Sarah. – E não podem fazer as pazes depressa?
– Não, nunca! Nunca mais vou tornar a falar com ela.
– Mas vais ter de te reconciliar quando chegar Jom Kippur (festa do perdão). Bem sabes que nesse dia temos de perdoar tudo – lembrou Ella.
– Oh, ainda falta muito tempo – disse Henny com um encolher de ombros.
– Há muito para fazer! Podem ajudar-me à vontade – disse a mãe que acabara de entrar no quarto. – Não olhem para mim com esse ar de zangadas! – disse a rir. – Ainda vos vai sobrar muito tempo para brincar.
Às dez horas todas as tarefas estavam cumpridas. De seguida, as que tinham aulas de piano, tinham ainda de estudar durante vinte minutos. Depois estavam finalmente livres.
– Podíamos fazer teatro – propôs Henny. – Se a mãe me emprestar o lenço cor-de-rosa com as moedas, eu podia dançar e a Ella tocava piano.
– Oh, fazes sempre a mesma coisa – disse Charlotte. – Por que é que não vamos ter com o pai à loja? Talvez estejam lá muitos vendedores. Como está a chover…
A chegada das crianças foi recebida com alegria pelos caixeiros que lá se tinham reunido.
O pai levantou os olhos do livro, acenou-lhes alegremente e regressou à sua contabilidade.
– Charlie! – disse ele ao empregado. – Leva as meninas à secção do papel e mostra-lhes o carregamento de livros que chegou esta manhã.
– Livros! – gritaram as cinco filhas. – Tu nunca recebeste livros, papá! Há lá livros para crianças? Podemos ficar com eles?
– Devagar! Uma coisa depois da outra – disse o pai. – Foi um vendedor ambulante que os trouxe. Um senhor rico da zona alta da cidade mudou de casa e aproveitou para dar uma volta à biblioteca e escolher os livros que já não queria. Recebi-os esta manhã e ainda não tive tempo de os ver, mas se quiserem podem ficar com alguns. O melhor é irem até lá e escolherem porque acho que vou vendê-los ainda hoje.
As irmãs correram para a secção do papel com Charlie atrás delas.
No chão havia montes de livros. As cinco meninas precipitaram-se sobre eles.
Gertie ainda não sabia ler. Assim que viu que não havia nenhuns livros de imagens, pegou num caderno colorido, sentou-se entre duas pilhas de jornais velhos e começou a virar as folhas devagar. Para ela, a caça aos livros tinha acabado.
Charlotte descobriu com um grito de júbilo, um livro de contos de fadas. Um livro novinho em folha, de capa brilhante e colorida. Estava escrito numa linguagem simples e impresso com grandes letras pretas.
Charlotte começou imediatamente a ler e o mundo à sua volta desapareceu. Para Charlotte, a caça aos livros também ficava por ali.
Quanto a Henny, não se esforçou muito, limitando-se a passear por entre os montes de livros.
– Ei! – chamou Ella. – Não nos ajudas a passá-los em revista?
– Para quê? Vocês fazem-no muito melhor do que eu, tenho a certeza. Procurai também algum para mim. Qualquer coisa me serve.
Ella e Sarah eram as únicas que procuravam a sério. Pegavam nos livros um por um e viam-nos com cuidado.
– Encontraram alguma coisa? – perguntou Charlie.
– Não – respondeu Sarah. – Ainda não!
– Olha aqui! – gritou Ella de repente. – Estes aqui são para nós! Olha, uma série deles de Dickens! – olhava para Charlie com os olhos a brilhar.
– Charlie, achas que o pai nos deixa ficar com eles todos?
– Não sei – respondeu Charlie. – O melhor é tu perguntares.
– Ella! – disse Sarah num tom queixoso. – Parecem livros para adultos! Eu ainda não os consigo ler!
– Não faz mal – respondeu a irmã mais velha. – Vais lê-los quando tiveres a minha idade.
– Mas isso ainda demora muito tempo. Eu quero alguma coisa para agora!
– Talvez encontremos ainda alguma coisa – disse Ella.
Continuaram a busca e encontraram a tal coisa “para agora” mais maravilhosa que se podia imaginar. Precipitaram-se sobre o livro e, mal abriram a primeira página, chamaram Charlotte, Gertie e Henny com gritos de entusiasmo. As irmãs vieram a correr admirar o achado. Era um sonho!
O livro chamava-se “As nossas bonecas preferidas”. Numa página estava impresso o texto e nas seguintes havia uma folha de papel com bonecas e roupas relativas ao texto, para serem destacadas.
– Não são um amor? – gritou Charlotte, apontando para um vestido azul, digno de admiração, com capa a condizer.
– Oh, vejam esta página! Só tem roupas de Inverno e é a história de quando vão patinar no gelo!
– O livro ideal para um dia de chuva, não acham? – observou Charlie, divertido.
As meninas voltaram para junto do pai com os livros de Dickens, o livro de contos, e o “As minhas bonecas preferidas” debaixo do braço, para lhe mostrarem os seus achados.
– Podemos ficar com eles todos? – perguntou Ella.
Não puderam acreditar quando ouviram “sim”. Era bom de mais!
– São mesmo nossos? Não temos de os devolver? – Repetiam a pergunta só para terem o prazer de tornar a ouvir a resposta.
– Sim, são vossos. Mas agora ide a correr para casa e deixai-me trabalhar – disse por fim.
As crianças apressaram-se a subir as escadas.
– Tenho uma ideia maravilhosa! – exclamou Sarah. – Quando chegarmos a casa, vamos brincar às bibliotecas. Eu sou a senhora da biblioteca e vocês têm de vir ter comigo e requisitar os livros.
– E por que é que tens de ser TU a senhora da biblioteca? – perguntou Henny. – Quero ser eu!
– Não, eu! – gritou Charlotte.
– Mas a ideia foi minha! – respondeu Sarah.
– Está bem, concordou Ella. – Vou fazer-te um penteado exactamente igual ao da senhora da biblioteca.
– Eu vou pedir à mãe que me empreste a saia preta velha – disse Sarah. E quando eu andar também vou fazer barulho com ela, como a Miss Allen.
– E eu tenho de perguntar se tens algum livro bom para mim e tu vais ter de sorrir e dizer: “Sim, claro! – acrescentou Charlotte.
– E eu faço barulho e tu tens de dizer “Chiu!” – acrescentou Henny, com os olhos a brilhar.
– Posso ver o livro das bonecas? – perguntou Gertie.
– Podes, sim, mas não podes começar a tirar as bonecas. Fazemos isso todas juntas, logo à noite.
– Eu nunca pensei que um dia de chuva pudesse ser tão divertido! – disse Sarah.





Sydney Taylor
Die Mädchenfamilie
München, DTV Junior, 1988
Excerto traduzido e adaptado


segunda-feira, maio 28, 2007

O tesouro de Clara - Beatrice Alemagna

Clara vive no Brasil.
Não possui quase nada. Tem uma pele de âmbar e cabelos pretos.
Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.
Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato.
A sua função é limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.
À quinta-feira, é o dia de descanso de Clara. É então que sai…
A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão.
São os seus amigos: Lúcia, Ângelo e Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.
Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. Está sempre a rir e a mexer as mãos e os pés.
Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos.
Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço.
Caminha sem dificuldade sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.
Ana é a mais bem-comportada. Não fala muito.
Tem doze anos, tal como Clara, que conheceu há muitos anos naquele sítio, diante do banco.
Por vezes, Lúcia, Ângelo e Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxarem as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.
Ângelo, Lúcia e Ana têm muitos amigos na rua.
Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.
Quando Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. Lúcia, Ângelo e Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.
Eles têm Clara. Clara é a mercadora de sonhos.
Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.
Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas, com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade.
Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte. Um vento que te adormece e te acorda cem anos mais tarde.
Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.
E Clara fala-lhes de um Rio sem adultos.
Onde só há crianças gentis e alegres, que têm os dentes todos. Que saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons.
Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos de comerciantes.
E Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.
Clara conta os seus sonhos durante horas.
Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.
Agora, é tarde. Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, de boca aberta.
Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira.
Para eles, não há cola.
Eles têm Clara.
E muitos sonhos bons para viverem ainda…


Beatrice Alemagna
Le trésor de Clara
Paris, Autrement Jeunesse, 2000
tradução e adaptação

Um dia de chuva muito especial - Sydney Taylor

Nova Iorque, Lower East Side, 1912. A área sudeste de Nova Iorque, acolheu milhares de emigrantes durante as grandes ondas de emigração para a América. Esta zona pobre da cidade tornou-se na área com maior densidade populacional do mundo. Aqui viviam pobremente muitas comunidades estrangeiras, entre elas a de Judeus. Era na Lower East Side que se encontrava a maior comunidade Judaica do mundo. Num modesto apartamento, vivem Ella, de doze anos, Henny,de dez, Sarah, oito, Charlotte, seis e Gertie, de quatro anos, com a mãe e o pai, um comerciante de coisas usadas. O dinheiro não abunda, mas a mãe dirige a casa habilmente. Uma casa onde reina a alegria e a harmonia.
A Lower East Side de Nova Iorque era uma zona pouco bonita. Não tinha relva e nos passeios cinzentos e nas sarjetas calcetadas nada crescia. Flores, só as que se viam nas poucas lojas de floristas. Não havia alamedas ladeadas por árvores. Nos passeios só havia candeeiros a gás. Não havia um ribeiro onde as crianças pudessem chapinhar nos dias de Verão. Só o rio East, cujas águas, verdes escuras e sujas, cheiravam a peixe, a madeira alcatroada dos barcos e a lixo putrefacto.
Como muitas outras famílias judias, o pai e a mãe moravam com as cinco filhas no bairro muito povoado de Lower East Side de Nova Iorque. Ao contrário da maior parte das famílias, não moravam numa casa grande, mas num apartamento de quatro assoalhadas e vestíbulo, de um prédio de dois andares.

O pai tinha uma loja não longe do rio, na cave de um antigo armazém. Para lá chegar, tinha de se descer por uma escada de madeira perigosamente estreita, sem corrimão. Mas isso não impedia as meninas de irem visitar o pai. Iam lá muitas vezes, pois, para elas, a loja era como um reino de contos de fadas. Era uma loja de coisas velhas.

As escadas acabavam numa sala ampla, onde estava a escrivaninha e a cadeira que o pai usava para a contabilidade.

Do lado oposto da sala havia algumas cadeiras colocadas em semi-círculo e um fogão de sala. No Inverno, o fogão não conseguia aquecer a grande sala. Em cima dele, uma chaleira cantava ininterruptamente. O pai tinha o cuidado de a ter sempre cheia para que os caixeiros-viajantes e os negociantes das vizinhanças pudessem aquecer o estômago com uma chávena de chá quente enquanto se sentavam à volta do lume a conversar. No Verão não havia chá e o fogão estava apagado, mas a sala era fresca e húmida, e por isso os vendedores também gostavam de se sentar nas cadeiras a conversar. Nas traseiras da sala é que estava a loja propriamente dita; primeiro, a secção do ferro-velho, com montanhas de ferro, zinco, estanho, talheres de cobre. Depois era a secção do papel, com montanhas de jornais e revistas, e por último, a dos trapos. Aqui o pai tinha mais trabalho, porque tinham de ser separados e metidos em caixas.

Uma manhã, as irmãs foram acordadas pelo bater da chuva.

Charlotte encostou o nariz ao vidro da janela e disse:

— Está a chover a cântaros! — disse Charlotte com o nariz encostado ao vidro da janela.

— Que diabo! — exclamou Henny — Hoje o dia vai ser aborrecido.

— Podíamos ir visitar a Fanny — propôs Ella. Fanny era a melhor amiga de Henny.

— Não podemos porque estamos zangadas.

— Outra vez? — disse Sarah. — E não podem fazer as pazes depressa?

— Não, nunca! Nunca mais vou tornar a falar com ela.

— Mas vais ter de te reconciliar quando chegar Jom Kippur (festa do perdão). Bem sabes que nesse dia temos de perdoar tudo — lembrou Ella.

— Oh, ainda falta muito tempo — disse Henny com um encolher de ombros.

— Há muito para fazer! Podem ajudar-me à vontade — disse a mãe que acabara de entrar no quarto. — Não olhem para mim com esse ar de zangadas! — disse a rir. — Ainda vos vai sobrar muito tempo para brincar.

Às dez horas todas as tarefas estavam cumpridas. De seguida, as que tinham aulas de piano, tinham ainda de estudar durante vinte minutos. Depois estavam finalmente livres.

— Podíamos fazer teatro — propôs Henny. — Se a mãe me emprestar o lenço cor-de-rosa com as moedas, eu podia dançar e a Ella tocava piano.

— Oh, fazes sempre a mesma coisa — disse Charlotte. — Por que é que não vamos ter com o pai à loja? Talvez estejam lá muitos vendedores. Como está a chover…

A chegada das crianças foi recebida com alegria pelos caixeiros que lá se tinham reunido.

O pai levantou os olhos do livro, acenou-lhes alegremente e regressou à sua contabilidade.

— Charlie! — disse ele ao empregado. — Leva as meninas à secção do papel e mostra-lhes o carregamento de livros que chegou esta manhã.

— Livros! — gritaram as cinco filhas. — Tu nunca recebeste livros, papá! Há lá livros para crianças? Podemos ficar com eles?

— Devagar! Uma coisa depois da outra — disse o pai. — Foi um vendedor ambulante que os trouxe. Um senhor rico da zona alta da cidade mudou de casa e aproveitou para dar uma volta à biblioteca e escolher os livros que já não queria. Recebi-os esta manhã e ainda não tive tempo de os ver, mas se quiserem podem ficar com alguns. O melhor é irem até lá e escolherem porque acho que vou vendê-los o ainda hoje.

As irmãs correram para a secção do papel com Charlie atrás delas.

No chão havia montes de livros. As cinco meninas precipitaram-‑se sobre eles.

Gertie ainda não sabia ler. Assim que viu que não havia nenhuns livros de imagens, pegou num caderno colorido, sentou-se entre duas pilhas de jornais velhos e começou a virar as folhas devagar. Para ela, a caça aos livros tinha acabado.

Charlotte descobriu com um grito de júbilo, um livro de contos de fadas. Um livro novinho em folha, de capa brilhante e colorida. Estava escrito numa linguagem simples e impresso com grandes letras pretas.

Charlotte começou imediatamente a ler e o mundo à sua volta desapareceu. Para Charlotte, a caça aos livros também ficava por ali.

Quanto a Henny, não se esforçou muito, limitando-se a passear por entre os montes de livros.

— Ei! — chamou Ella. — Não nos ajudas a passá-los em revista?

— Para quê? Vocês fazem-no muito melhor do que eu, tenho a certeza. Procurai também algum para mim. Qualquer coisa me serve.

Ella e Sarah eram as únicas que procuravam a sério. Pegavam nos livros um por um e viam-nos com cuidado.

— Encontraram alguma coisa? — perguntou Charlie.

— Não — respondeu Sarah. — Ainda não!

— Olha aqui! — gritou Ella de repente. — Estes aqui são para nós! Olha, uma série deles de Dickens! — olhava para Charlie com os olhos a brilhar.

— Charlie, achas que o pai nos deixa ficar com eles todos?

— Não sei — respondeu Charlie. — O melhor é tu perguntares.

— Ella! — disse Sarah num tom queixoso. — Parecem livros para adultos! Eu ainda não os consigo ler!

— Não faz mal — respondeu a irmã mais velha. — Vais lê-los quando tiveres a minha idade.

— Mas isso ainda demora muito tempo. Eu quero alguma coisa para agora!

— Talvez encontremos ainda alguma coisa — disse Ella.

Continuaram a busca e encontraram a tal coisa “para agora” mais maravilhosa que se podia imaginar. Precipitaram-se sobre o livro e, mal abriram a primeira página, chamaram Charlotte, Gertie e Henny com gritos de entusiasmo. As irmãs vieram a correr admirar o achado. Era um sonho!

O livro chamava-se “As nossas bonecas preferidas”. Numa página estava impresso o texto e nas seguintes havia uma folha de papel com bonecas e roupas relativas ao texto, para serem destacadas.

— Não são um amor? — gritou Charlotte, apontando para um vestido azul, digno de admiração, com capa a condizer.

— Oh, vejam esta página! Só tem roupas de Inverno e é a história de quando vão patinar no gelo!

— O livro ideal para um dia de chuva, não acham? — observou Charlie, divertido.

As meninas voltaram para junto do pai com os livros de Dickens, o livro de contos, e o “As minhas bonecas preferidas” debaixo do braço, para lhe mostrarem os seus achados.

— Podemos ficar com eles todos? — perguntou Ella.

Não puderam acreditar quando ouviram “sim”. Era bom de mais!

— São mesmo nossos? Não temos de os devolver? — Repetiam a pergunta só para terem o prazer de tornar a ouvir a resposta.

— Sim, são vossos. Mas agora ide a correr para casa e deixai-me trabalhar — disse por fim.

As crianças apressaram-se a subir as escadas.

— Tenho uma ideia maravilhosa! — exclamou Sarah. — Quando chegarmos a casa, vamos brincar às bibliotecas. Eu sou a senhora da biblioteca e vocês têm de vir ter comigo e requisitar os livros.

— E por que é que tens de ser TU a senhora da biblioteca? — perguntou Henny. — Quero ser eu!

— Não, eu! — gritou Charlotte.

— Mas a ideia foi minha! — respondeu Sarah.

— Está bem, concordou Ella. — Vou fazer-te um penteado exactamente igual ao da senhora da biblioteca.

— Eu vou pedir à mãe que me empreste a saia preta velha — disse Sarah. E quando eu andar também vou fazer barulho com ela, como a Miss Allen.

— E eu tenho de perguntar se tens algum livro bom para mim e tu vais ter de sorrir e dizer: “Sim, claro! — acrescentou Charlotte.

— E eu faço barulho e tu tens de dizer “Chiu!” — acrescentou Henny, com os olhos a brilhar.
— Posso ver o livro das bonecas? — perguntou Gertie.
— Podes, sim, mas não podes começar a tirar as bonecas. Fazemos isso todas juntas, logo à noite.
— Eu nunca pensei que um dia de chuva pudesse ser tão divertido! — disse Sarah.


Sydney Taylor
Die Mädchenfamilie
München, DTV Junior, 1988
Excerto traduzido e adaptado

domingo, maio 20, 2007

Os livros - Eugénio de Andrade

Os livros. A sua cálida
Terna, serena pele. Amorosa
Companhia. Dispostos sempre
A partilhar o sol
Das suas águas. Tão dóceis
Tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua branca e vegetal cerrada
Melancolia.
Amados
Como nenhuns outros companheiros
Da alma. Tão musicais
No fluvial e transbordante
Ardor de cada dia.

Eugénio de Andrade
Antologia Breve
Porto, Editorial Nova, 1972



O problema do herói - Marc Soriano

Marc Soriano
Guide de Littérature pour La Jeunesse
Paris, Delagrave, 2002

Excertos adaptados


A leitura, esse milagre que nos é familiar

Ainda há menos de cinco minutos que eu era eu mesmo. Tinha a minha idade e as minhas preocupações profissionais e familiares, próprias do meu século. De repente, rejuvenesci 150 anos e tornei-me Lucien Leuwen, um jovem tenente do tempo de Luís Filipe.

Foi o enredo que me cativou ou terá sido o tom do narrador? Seja como for, eis-me de novo (de novo, porque já conheço o romance) enfeitiçado por Stendhal. Impaciento-me com o cavalo que o derruba, enterneço-me com o rosto de Madame de Chasteller, em suma, comovo‑me com uma personagem que não me é nada e que sei que nem sequer existe.

Ao mesmo tempo, continuo a ser quem sou. Só saí de mim na medida em que me quis tornar outro, um outro que eu queria secretamente ser. Adiro a uma ilusão que sei poder controlar. Sei que as lágrimas que derramo não são motivo de preocupação e que posso sorrir quando quiser.

Este prodígio, cujas características exteriores são uma distracção e uma atenção extremas, é um dos mais raros que a cultura alguma vez inventou e não se limita à leitura. Encontramo-lo em todas as satisfações de ordem estética. No entanto, o livro parece ser o meio que nos proporciona estas sensações de uma forma mais completa e satisfatória.

Podemos questionar-nos sobre a pertinência deste tipo de reflexão no que diz respeito à literatura juvenil, já que há críticos e historiadores que raramente evocam a questão da identificação, e muito menos o fazem em termos psicanalíticos. A maior parte dos escritores de romances para a infância e juventude acha evidente que as crianças e os jovens se identifiquem com as crianças e os jovens cujas aventuras lêem avidamente. Mas será assim tão evidente?

A identificação e as formas que assume

A identificação não é a justaposição ou a fusão de dois seres semelhantes. É, antes, um processo em que dois seres diferentes se esforçam por se assemelhar. A identificação em geral não existe. Existem formas diferentes, e por vezes contraditórias, de identificação. Dependem da idade da pessoa, do modelo com o qual ela se quer identificar, e do meio ao qual pertence. A única constante destas variáveis é o nosso poder de identificação, uma capacidade que caracteriza a nossa espécie. A comunhão que a leitura pressupõe repousa sobre a compreensão dos signos mas permanece, antes de mais, uma relação de ordem afectiva.

A identificação e a pesquisa científica

Toda e qualquer identificação pressupõem a existência de factores individuais: a estrutura familiar, atavismos, situações traumatizantes que marcaram a criança, em suma, a sua história. No entanto, os factores individuais organizam-se em estruturas iterativas. Assim, sempre que há desvios a uma dada norma reactiva, os médicos podem determinar melhor o que perturba a criança.

A ilustração do conto dos Grimm O Lobo e os Cabritinhos, que apareceu no decurso de um sonho de um paciente de Freud, permitiu a este reconstituir a “cena original” de O Homem e os Lobos. Um objecto concreto de identificação não deve impedir-nos de ver que a identificação, enquanto processo, é uma função subjacente ao nosso psiquismo. Como tem a ver com os mecanismos fundamentais de integração da criança na sociedade, não se sujeita a modas de uma época determinada e isso facilita uma análise mais objectiva das situações.

Os meios infantis homogéneos: heróis-guias e heróis-modelos

Há livros que eliminam as personagens adultas e que só apresentam personagens infantis, com o argumento de que os leitores só se identificam com aqueles que lhes são próximos em idade. Obras exemplificativas disto são os romances de Enyd Blyton. Talvez a sociedade infantil homogénea não passe de um mito, mas é um facto que as crianças do nosso tempo se aglutinam em “bandos” e que há crianças cuja falta de segurança pode ser compensada pela pertença a um grupo.

Os grupos: conflito de gerações ou recusa face à sociedade?

É normal que uma criança aprecie a companhia de crianças da sua idade, cujos gostos, necessidades e jogos lhe são próximos. A concentração urbana, o prolongamento da escolaridade e o desenvolvimento dos desportos colectivos contribuíram para a existência destes agrupamentos.

Mas esta tendência natural pode assumir, nos nossos dias, contornos aberrantes. Ao serem vítimas de um sistema que ora usa a repressão, ora usa a demissão, as crianças descobrem que o mundo em que vivem está ameaçado e tomam, mais cedo do que os seus pais tomaram, consciência das injustiças.

Têm, pois, tendência para se oporem aos adultos e para se distanciarem deles. É um facto que as crianças crescem por oposição, e que esta favorece a independência. No entanto, os adultos reagem mal à agressividade e à recusa dos jovens em estabelecer pontes, o que agrava o fosso entre as gerações.

Uma sociedade aberta não encontraria razões para desconfiar sistematicamente dos seus jovens, nem quereria tirar benefícios económicos do chamado “conflito de gerações”. As crianças interessam-se simultaneamente pelo mundo das crianças e pelo mundo dos adultos, uma vez que se encontram no cruzamento desses dois mundos.

Assim como um adulto inteligente e instruído se dá conta de que a aprendizagem é um processo contínuo, as crianças podem interessar-se por obras que não tenham nenhum herói infantil, mas cujo enredo comporte essa necessidade de aprendizagem, mesmo que de forma não explícita. Robinson Crusoe e Gulliver podem ser disso exemplo.

É talvez em Jules Verne que o esquema de aprendizagem aparece de forma mais clara. A personagem principal nunca é uma criança sozinha, mas um binómio criança/adolescente/adulto, este último servindo de guia, real ou figurativamente, ao seu companheiro mais jovem. Encontram-se ambos empenhados numa aventura que os obriga a inventar constantemente soluções novas.

Muitas das situações são resolvidas por adultos, mas acontece também que os jovens contribuam com a sua inteligência e engenho para a resolução dos problemas. Em Voyage au Centre de la Terre, o Professor Liddebenbrook ajuda o sobrinho a sair de situações delicadas, através do seu saber e tenacidade, mas Axel salvar-lhe-á a vida, graças à sua coragem e presença de espírito. O autor mostra aos jovens leitores o que devia passar-se na realidade: durante um certo tempo, são os adultos que protegem a criança. Quando os adultos envelhecem, cabe ao jovens tomarem conta da situação.

Estes exemplos cativam o público jovem porque lhe permitem compreender que a sua situação de crianças é transitória e que, um dia, também eles se tornarão adultos. Daí que a obstinação de certos autores e editores em mostrar os jovens em oposição aos adultos seja errada e traga graves prejuízos a um saudável entendimento entre gerações.

A criança aspira a encontrar o seu lugar no mundo e sabe que este é composto de crianças e adultos. Apresentar‑lhe uma sociedade apenas composta por crianças é negar-lhe essa interacção e condená-la à fantasia e à inadaptação.

Será que juventude precisa de heróis?

A análise anterior já responde, em certa medida, a esta pergunta. Mas precisamos de ter em conta a conotação que o herói assumiu na nossa situação histórica. A revolução científica e técnica contribuiu significativamente para a melhoria das nossas condições de vida, mas conduziu a uma divisão excessiva das tarefas e a uma desumanização das relações. Vemo-nos cada vez mais como seres solitários, condenados a conquistar a felicidade por oposição a um mundo que já não se nos assemelha.

A noção de herói assumiu, nesta óptica, um interesse muito particular. Trata-se de um homem só, admirado, mas incompreendido pelos seus contemporâneos. Há obras de arte e filosofias que assumiram esta concepção de herói para exprimir a sua nostalgia de um mundo mais justo. Esta imagem de herói, Moisés ou Zaratustra, pode ser encontrada na literatura para a juventude.

Nas obras de Jules Verne temos o homem justiceiro e sábio, que vive à margem da sociedade, seja debaixo das águas ou no ar. Prefere destruir as suas descobertas a vê-las cair nas mãos de uma sociedade que não as utilizaria para fazer o bem. Mas também temos lampejos do anti-herói: seres lunares como Le Petit Prince, ou insignificantes como Frédéric Moreau, Bouvard e Pécuchet, cujos fracassos e recusas reflectem a incapacidade de uma sociedade em resolver as suas contradições, em estabelecer uma comunicação fraterna.

Os heróis e os anti-heróis do século XX foram muitas vezes utilizados como instrumentos de guerra contra as ciências humanas. Bergson, na sua obra Les Deux Sources de la Morale et de la Religion opõe o sábio, que se apoia apenas na razão, ao herói e ao santo, que se apoiam na intuição e na paixão e que representam, para ele, modelos superiores que preparam o caminho para “sociedades mais abertas”.

Todas as facções que se defrontam no nosso mundo, país, movimento ideológico ou político, celebram os seus heróis. Mas estes heroísmos muitas vezes contraditórios deveriam ser alvo de uma reflexão salutar. Será que o heroísmo existe, independentemente do contexto? Poderemos chamar herói a um homem que sacrifica a sua vida por uma causa injusta ou desumana, ou a alguém que desafia a morte inutilmente, desperdiçando assim as forças preciosas da sua vida?

A televisão, o cinema, algumas bandas desenhadas popularizaram heróis do tipo super‑homem, violentos, racistas e sádicos. Embora a esmagadora maioria dos professores esteja contra este tipo de “heróis”, como poderemos vencer este tipo de “heroísmo” com argumentos morais, enquanto a nossa sociedade assentar no princípio da obtenção do máximo lucro, que tem por fim o aviltamento do gosto e da própria vida?
Os heróis necessários

Porém, não nos deixemos induzir em erro por esta crise que atravessa a nossa concepção de herói. A juventude precisa de heróis. Mas não precisa deles da forma doentia como muitos adultos alimentam essa sua necessidade.

Não há nada de absurdo em preferir o herói (e o santo) ao sábio. Só a paixão permite ao homem encontrar em si a obstinação e a paciência necessárias à realização de grandes feitos. Enquanto esses feitos não forem realizados, parecerão apenas loucuras. O erro está em opor o sábio ao herói, em apresentar esta escolha como uma exclusão, sem nos debruçarmos sobre o que constitui sabedoria e heroísmo.

O verdadeiro herói e o verdadeiro santo são os trabalhadores manuais ou intelectuais qualificados, e o sábio é o homem que reflectiu sobre a utilidade do seu trabalho. Isto é tão válido para o adulto como para a criança.

Temos de ajudar a criança a fazer descer o heroísmo do céu para a terra, levá-la a compreender que um acto não é heróico por causa da sua aparência, mas porque nos torna mais próximos da humanidade. À medida que for crescendo, a criança precisará menos de dividir o mundo em “bons” e “maus”. Mas os adolescentes precisam de ser ajudados, quanto antes, a compreender que nenhuma fronteira separa o “herói” das pessoas comuns e que o verdadeiro heroísmo é o heroísmo quotidiano.

Os heróis andam pelas ruas. É preciso que as crianças o saibam e que não deixem que lhes forneçam ideais inacessíveis e desencorajadores, que se tornariam para elas o que se tornaram para nós: meras desculpas para não assumirmos a verdadeira heroicidade.

Um coração à escuta - Katherine Paterson

Katherine Paterson
Um Coração à Escuta (The Spying Heart)
New York, E.P. Dutton, 1989



A tarefa básica da educação é cuidar da, e alimentar a, imaginação. A forma mais antiga de educação consistia em contar histórias. Hoje, as histórias foram relegadas para o reino da frivolidade. Agora, a educação consiste mais em trabalhar com computadores do que em cultivar a imaginação. Podemos decidir em que anos vamos ensinar que factos, funções ou palavras, e podemos dar ao aluno um teste de escolha múltipla para saber se assimilou o que queríamos que assimilasse. Queremos compartimentar a matemática e a mitologia, porque sabemos que a imaginação é algo de selvagem e incómodo. Dado que não podemos medi-la objectivamente, qualquer disciplina do currículo que tenha a ver com o crescimento da vida interior de uma criança é classificada de frívola, o que faz com que a eliminemos por completo, ou que a coloquemos à margem.

Recordo o choque que senti quando fui visitar uma escola nova na área onde resido. Vi as salas de aula, o ginásio, o laboratório de economia doméstica, a sala de artes industriais, e reparei que nenhum deles tinha janelas. A minha guia elucidou-me, dizendo que há estudos que provam que as janelas levam os alunos a uma perda de tempo, já que se distraem a olhar lá para fora. Não teci comentários, mas sei perfeitamente que, se sobrevivi à minha educação escolar, foi devido às janelas das minhas salas de aula.

O crescimento da imaginação exige janelas – janelas através das quais possamos olhar o mundo e janelas através das quais possamos olhar-nos a nós mesmos. As histórias antigas funcionavam como janelas deste tipo.

A história fornece-nos uma linguagem para lidar com o desconhecido. Modela o caos e enche-o de sentido. Tem de nos dizer algo que já sabíamos, mas que não sabíamos que sabíamos.

Exigimos que as crianças sejam criativas, que desenvolvam a sua imaginação a partir do nada. Se elas falham nessa tarefa, culpamos a televisão e os jogos de computador. Esquecemo-nos de que precisamos de cultivar e desenvolver a relação entre as imagens que guardamos dentro de nós e a forma de as exprimirmos exteriormente.

Este processo enceta-se quando lemos histórias às crianças desde muito cedo, mesmo antes de elas compreenderem as palavras. Devemos ler-lhes narrativas antigas, mas também partilhar com elas obras mais recentes. A criança sente que pode aventurar-se e que pode, no entanto, regressar sempre ao aconchego do lar, o que lhe permite expandir as suas viagens interiores.

No ano passado, numa conferência, pediram-me para fazer parte de uma mesa-redonda que englobava dois psiquiatras e uma assistente social. O tema em debate era o uso da literatura no tratamento de crianças com distúrbios psiquiátricos. Declinei o convite porque não gosto que se diga a uma criança o que ela deve extrair de determinado livro. Sentei-me no fundo da sala e ouvi o que aquelas pessoas tinham para dizer. Foi uma experiência muito gratificante ver como elas acreditavam no poder curativo da imaginação. Nunca prescreviam um livro a uma criança. Eram leitores assíduos e tinham nos seus gabinetes uma enorme quantidade de livros. Depois de conhecer melhor uma criança, propunham-lhe a escolha de uma obra, entre várias. A criança fazia a sua própria selecção e não se sentia obrigada a falar sobre o que tinha lido. Quando a criança não gosta de um livro, seja porque não lhe diz nada, seja porque lhe diz coisas que não quer ouvir, deixa de o ler.

Há tempos, recebi uma carta da dona de uma livraria, que tinha para venda um livro que traduzi do Japonês. Contava-me que, um dia, uma senhora entrou na loja e lhe pediu um livro sobre a morte, para o dar a ler à menina de dois anos que trazia consigo. A dona da livraria tentou saber se a morte tinha a ver com uma avó ou com um animal. Mesmo em frente à menina, a senhora disse: “Acontece que o pai dela matou a mãe dela e depois se suicidou.”

Tive exactamente a mesma reacção que vocês estão a ter ao ler isto. Nunca ninguém escreveu um livro para uma situação desse teor. Mesmo que o tivessem escrito, duvido que tivesse sido publicado ou comprado. O filho da dona da livraria sugeriu o livro que eu tinha traduzido: A mulher do grou. Embora reticente, aquela vendeu o livro. Passada uma semana, a senhora veio dizer-lhe que o livro tinha ajudado a criança. A carta dela destinava-se a agradecer-me, em nome de todos eles.

Temos de agradecer, de facto, mas não a mim. Escolhi traduzir o livro por causa do seu poder imaginativo. O grou ferido que volta à vida, sob a forma de uma jovem, constrói um tear e esconde-o atrás de portas de papel, pedindo ao marido que nunca a observe enquanto ela tece.

A tecelagem parece enfraquecer a jovem esposa, mas o tecido que deriva desse esforço tem uma beleza fora do comum, e o marido pode vendê-lo a um preço muito elevado. Mas, à medida que o tempo passa, o homem torna-se avarento e consumido pela curiosidade. Quando não consegue resistir mais, abre a porta e vê que o tecelão é um grou ensanguentado, que arranca as próprias penas com o bico para as transformar em fio.

Quando li isto, percebi que a arte é um tecido feito a partir das penas do nosso próprio peito. Só que ninguém pode ser testemunha do processo. Ninguém; nem o próprio tecelão. Os seus pensamentos e sonhos devem ser deixados em paz. A razão, a cobiça e a impaciência devem ser vigiadas. Se não, um dia, a mulher do grou pode levantar voo e ir embora, para sempre.

Para uma biblioterapia - Claudio García Pintos

Claudio García Pintos
A Logoterapia em Contos
S. Paulo, Paulus, 1999


Excertos adaptados



No ano de 1977, o Professor Viktor Emil Frankl inaugurou a Feira do Livro da Áustria com uma conferência sobre o livro como recurso terapêutico, na qual defendeu a possibilidade de cura através da leitura. Na oportunidade assinalou, até, casuisticamente, situações em que um livro salvou uma vida, fazendo o leitor desistir da ideia de suicídio, e outras em que pessoas doentes, no seu leito, se viram reconfortadas pela leitura.

Comentou igualmente o caso de pessoas que, estando presas, melhoraram a sua atitude de vida por intermédio de um livro. Citou, por exemplo, Mitchell, um preso de San Quentin, em San Francisco, sentenciado à pena de morte na câmara de gás. Inteirado de tal circunstância por ocasião de uma palestra para presidiários, Frankl convidou-o a descobrir o sentido da sua vida, mesmo estando em vésperas da morte. Incitou-o até, de alguma maneira, à leitura da obra de Tolstoi, A morte de Ivan Illitch.

A personagem de Tolstoi vive uma circunstância semelhante à do presidiário. Tempos depois, Mitchell foi conduzido à câmara de gás e a condenação foi executada. Lendo uma entrevista que concedeu ao Chronicle de San Francisco, alguns dias antes do cumprimento da sentença, podia-se perceber que a mensagem de Tolstoi havia sido captada por aquele homem, que, embora não tivesse podido evitar a condenação, pôde evitar recebê-la no meio do vazio e do desespero[1].
[1] Frankl, Viktor E., Psicoterapia y Humanismo, México, Fondo de Cultura Económica, 1984.

Da biblioterapia ao bibliodiagnóstico

Basicamente, a partir da abordagem logoterapêutica e das ideias mais ou menos sistemáticas de outros autores, propõe-se a chamada biblioterapia, com a intenção de utilizar o livro como recurso terapêutico.

Considerando o valor testemunhal e referencial do livro, podemos facilmente compreender que a sua implementação terapêutica pode ser válida e efectiva. Muitas vezes, como se tem dito, actua de maneira espontânea, quando o paciente chega à consulta motivado pelo que leu ou está a ler.
Mas, então, se falamos de biblioterapia, não poderíamos falar de bibliodiagnóstico? Sim. De facto, o livro também pode ser usado como recurso de diagnóstico. Não podemos, obviamente, estabelecer convalidações estatísticas nem pautas psicométricas, mas sim compreendê-lo como um recurso projectivo ao serviço do diagnóstico.

Como método de conhecimento do paciente, não obedece, decerto, a parâmetros convencionais, mas apresenta-se como excelente recurso para o conhecimento intuitivo do outro. “Intuitivo” significa que se pode praticar um minucioso processo de observação das respostas do paciente à narrativa, isto é, pode observar-se os seus comentários a respeito do conteúdo, assim como as suas mudanças durante a leitura, tanto quanto as conclusões a que chega.

Dever-se-á, de acordo com cada caso, escolher a narrativa que mais se adapte às necessidades do diagnóstico e trabalhar o conjunto das respostas obtidas. Desde já, assim como a biblioterapia se reconhece integrada, como técnica, num conjunto terapêutico, actuando somente em conjunção com outros modos de abordagem, também o bibliodiagnóstico será apenas concebido como mais uma técnica projectiva em colaboração com outras, integradas em função de um processo de psicodiagnóstico.

Exemplos

Apresento a seguir uma série de histórias através das quais pretendo exemplificar o uso concreto da palavra escrita com uma finalidade terapêutica. Trata-se de três casos em que integro a utilização da biblioterapia na prática individual ou grupal, de acordo com a dinâmica própria de cada circunstância. Vejamos.

Caso 1: Trata-se de João, um homem de 37 anos, casado com Maria, de 32, e pai de dois filhos, Roberto, de 6 anos, e Fernanda, de 3. João é funcionário público. O relato da sua vida está repleto de factos dramáticos, como a morte prematura da mãe, o falecimento posterior do pai, as suas dificuldades para ser alguém na vida, até conhecer Maria, tendo a situação, a partir daí, começado a tornar-se um pouco melhor. Nasceram filhos sadios, e agora vive as dificuldades económicas de todo o empregado cujo salário não é suficiente para uma vida tranquila. João começou então a assumir perante a vida uma atitude francamente pessimista. Vive num estado de derrotismo, agravado, obviamente, pelas suas actuais condições. Muito embora seja verdade que o dinheiro é escasso e que a realidade não corresponde nem um pouco às suas pretensões, pode-se dizer que a vida de João é uma vida feliz. A mulher ama-o, os filhos são saudáveis e ele tem a possibilidade de trabalhar e de manter a casa dignamente. De qualquer maneira, a sua atitude transforma-lhe a vida numa pesada carga. A sensação de vazio apodera-se dele com frequência, acompanhada de estados de angústia e de desânimo.

João comenta que um domingo, seguindo uma sugestão minha, foi com a família ao parque que fica perto de uma auto-estrada. Era um dia soalheiro e muita gente já se encontrava no local. Enquanto Maria caminhava com Fernanda, João começou a jogar a bola com Roberto. Todos se divertiram muito, com excepção, é claro, de João. Enquanto jogava com Roberto, olhava para toda aquela gente… pareciam tão felizes, como se não tivessem problemas… tive de fazer um grande esforço para sair com as crianças e com Maria e, acredite, eles divertiram-se bastante, mas eu continuei a sofrer por dentro… Perguntava‑me como é que aquelas pessoas faziam para não terem problemas… O discurso de João era, evidentemente, tão pessimista como sempre. Continuava a dar às circunstâncias um carácter determinante, como se estas o obrigassem a viver mal, a sofrer. A certo momento faz o seguinte comentário: Sabe que… eu estava a olhar para as crianças que faziam papagaios de papel e pensava nos papagaios de papel… lá em cima, livres, fazendo o que querem… como seria lindo ser um papagaio de papel, ou um avião, ou um pássaro, e poder voar, ignorar os problemas e ser livre… Naquele preciso momento recordei uma canção escrita por um grande amigo meu, um poeta popular brasileiro[2], que se chama Pipa[3]. Disse então a João que queria que ele ouvisse aquela canção. A melodia é muito simples, mas muito bonita, e a letra, em português, mesmo para quem, como eu, fala espanhol, é fácil de entender. João ouviu-a duas vezes e logo lhe dei a letra por escrito. Eis o final da canção:

… voar com liberdade…

ser livre é um desafio

quando se tem a vida

sempre presa por um fio.

João leu e releu a letra várias vezes. Em determinado momento, olha para mim e diz‑me: Sabe que é certo… nunca havia pensado que o papagaio de papel, que voa tão alto e parece tão livre, está preso… a letra é boa… A partir dali começámos a reflectir juntos sobre o carácter condicionante – não determinante – das circunstâncias e do espaço de liberdade que sempre podemos encontrar mesmo na situação mais adversa. Abordámos a sua tendência para se sentir “uma vítima” e propus-lhe que assumisse a atitude de protagonista da sua própria existência. Finalmente, João pediu-me que lhe desse a letra de Pipa. Obviamente, a minha ideia era que ele a levasse. Na semana seguinte, quando nos reencontrámos, comentou comigo que a pôs debaixo do vidro da sua mesa-‑de-cabeceira, e que todas as manhãs a lê quando se levanta. Aprendeu a melodia, e durante o dia assobia‑a, muito especialmente quando sente que o pessimismo está a surgir, e parece‑lhe que ela é muito útil para o afastar. Reflectimos sobre isso e descobrimos juntos que a leitura de Pipa pela manhã dá-lhe algo de parecido com uma “primeira certeza” ou, como ele prefere dizer, “a certeza do dia”, que lhe recorda que ele pode ser protagonista e não vítima daquilo que lhe acontecer nesse dia que se inicia.

Passadas várias semanas, João faz-me o seguinte comentário: Domingo passado voltei ao parque com Maria e as crianças e estivemos muito bem, porque estava um dia bonito e cheio de gente e, sabe? Comecei a pensar nos papagaios de papel que estavam a subir e dei-me conta de uma coisa que não me havia ocorrido. Os papagaios de papel não somente se movem com liberdade apesar do fio que os amarra, como diz a canção, mas também, se o fio for cortado, já não podem voar… Então pensei naquilo que tantas vezes o senhor me disse acerca de descobrir o sentido das coisas e de dever perguntar‑me mais sobre o para quê do que sobre o por quê de tudo isto… e creio que neste Domingo me dei conta do que o senhor me queria dizer… Se não me tivessem acontecido as coisas que me aconteceram, eu não seria talvez o que sou agora. Ou se tivesse muito dinheiro, não desfrutaria tanto da companhia das crianças, porque com o dinheiro acreditaria poder dar-lhes tudo de que necessitam, não como agora, que não posso dar‑lhes um computador de presente para elas brincarem sozinhas ou outra coisa do género; faço por brincar com elas, por sair com elas, nem que seja para jogar a bola no parque ou andar de bicicleta, é uma forma de estarmos juntos…

É evidente que João descobriu muitas coisas, e essa certeza com a qual começa cada dia tem vindo a permitir-lhe abrir-se a uma nova compreensão das circunstâncias, e modificar assim a sua atitude de vida, passando verdadeiramente de vítima a protagonista.

Caso 2: Neste caso, trata-se de um grupo; concretamente, de um grupo de jovens desportistas que formam uma equipa profissional. Sou chamado pelo técnico, porque ele detectou que o baixo desempenho da equipa se deve fundamentalmente mais a questões anímicas do que a aspectos ou falhas técnicas ou tácticas. Numa entrevista com a equipa, detectam-se sérios problemas no tocante à motivação, particularmente associados a uma auto‑estima muito baixa, um limiar muito baixo de tolerância à frustração, e uma vivência de medo no que respeita ao confronto com o adversário, que bloqueava sensivelmente os potenciais técnicos dos jogadores. Resumindo, a vivência da equipa era a seguinte: considerava-se muito fraca e, no momento de enfrentar a equipa rival, não confiava nos próprios recursos.

Numa das entrevistas, trabalhei com um conto de Mamerto Menapace que se chama Morrer num bando de perus. A narrativa é uma versão semelhante à tradicional história do patinho feio, mas conta a história de um condor que é criado por uma perua choca e que cresce “no bando de perus”, pensando que é um pequeno peru, e olhando com admiração o voo dos condores nas alturas. Assim, acaba “por morrer no meio do bando de perus”, quando na realidade havia nascido para ser aquilo que tanto admirava. Faz-se, evidentemente, um jogo de palavras, tirando partido da contundência das expressões “viver no meio do bando de perus” e “morrer no meio do bando de perus”. O director técnico da equipa havia-me adiantado que se tratava de um grupo com o qual era difícil discutir pormenores e manter reuniões de reflexão que durassem mais de 25 a 30 minutos. São rapazes que não estão habituados a isso: ao fim de 15 ou 20 minutos, dispersam-se e ficam muito inquietos, foi a apreciação com a qual antecipou o meu encontro com a equipa. Existe um preconceito quanto a alguns ambientes de desportistas profissionais, no sentido de que carecem de cultura, e também de interesse em adquiri-la. Mesmo assim, levou-se por diante a experiência, decerto inédita para este grupo, de os reunir nos momentos anteriores a uma partida e ler-lhes um conto. A princípio, quando iniciámos a actividade, houve algumas brincadeiras entre eles e uma certa resistência diante desta iniciativa, que parecia um “dever de escola” ou uma “infantilidade”. Mas, depois de iniciada, todos a aceitaram e responderam ao apelo com atenção e sentido de participação numa actividade que acabou por estender-se ao longo de 80 minutos. Terminada a leitura, houve um momento de silêncio e logo se iniciou a reflexão, breve, sobre a semelhança da narrativa com a sua própria história. Este conto tornou-se para a equipa uma espécie de palavra de ordem tácita ou de “bordão”: Não morrer no meio do bando de perus. A partir dali, começaram a aparecer diferentes elementos que rapidamente permitiram ao grupo prosseguir o trabalho sobre essas questões, modificar a sua atitude e renovar a disposição para o jogo, levando a uma sensível melhoria no seu rendimento. Também neste caso a biblioterapia abriu terrenos e estimulou o grupo de maneira efectiva, de modo que pudesse protagonizar uma modificação necessária para o seu crescimento individual e grupal.

Caso 3: Trata-se da utilização da biblioterapia num workshop de convivência. Ele faz parte de uma série de actividades que são realizadas com um grupo de aposentados recentes e pessoas que estão próximas da aposentação. Eles receberam, através de diferentes palestras e apresentações, assessoria previdenciária, legal e financeira. Mas ainda não enfrentaram o mais importante para eles neste momento: prepararem-se emocionalmente para viverem como aposentados, para encararem uma crise vital tão importante como a que surge nesta etapa da vida. Evidentemente, a chave para superar – ou começar a fazê-lo – o pico crítico (e também para o prevenir) é poder responder à pergunta: qual o sentido da vida a partir desse momento? E a resposta não pode ser obtida a partir da assessoria previdenciária, legal e financeira. É assim que se pretende mobilizar o grupo em torno da questão do sentido da vida, na nova etapa que para ele se inicia. Organiza-se este workshop em torno da leitura e posterior elaboração de um conto, Quebra-cabeças, escrito especialmente para ser utilizado em biblioterapia.

Reúne-se o grupo no salão onde habitualmente se realiza o ciclo de actividades. Os membros estão dispostos em círculo e a tarefa é-lhes apresentada. A ordem recebida indica que se trabalhará sobre a leitura de uma história que reflecte a atitude de diversas personagens diante de uma determinada situação. Eles deverão ouvir a história com atenção. Lê-se então Quebra-cabeças. Terminada a leitura, faz-se um momento de silêncio, e pede-se que resumam numa frase as reflexões que a história suscitou. Recolhem-se os cartões com as frases que escreveram, que são em seguida repartidas entre os participantes. Cada um receberá então a frase escrita por outro, desconhecendo o autor. Se algum deles, por acaso, recebesse a sua própria frase, deveria devolvê-la e pegar noutra. Dá-‑se um momento para que cada um leia interiormente e procure compreender a frase que recebeu. Posteriormente, inicia-se a reflexão em grupo em torno das frases e das reflexões que forem surgindo.

A mobilização gerada pela história reflecte-se naquelas frases que manifestam temores, fantasias, decepções, ilusões, projectos, expectativas, desesperança, desorientação, negação, depressão, optimismo… isto é, um leque de alternativas que, no seu conjunto, revelam o panorama complexo que o aposentado enfrenta. A elaboração em grupo, a possibilidade de empregar essas frases num âmbito diferente, apresenta-se como uma boa oportunidade para começar a encarar esse panorama com maior certeza. A mobilização surgiu a partir da introspecção propiciada pela leitura do conto. Conseguimos identificar-nos com as personagens e descobrimos diferentes opções para encarnar ou interpretar os caminhos de resolução da crise que estava a ser vivida.

Poderíamos citar muitíssimos casos de aplicação da biblioterapia, tanto na modalidade individual como na de grupo, tanto na prática psicoterapêutica como na psicoprofilática.

E, do mesmo modo, é válida a utilização deste recurso na prática docente. Muitas vezes acontece que certas ideias teóricas que o aluno não consegue assimilar, podem ser integradas a partir de uma narrativa de ficção, que mostra de um modo mais imediato o seu conteúdo. Refiro-me à utilização do conto de Edgar Allan Poe, William Wilson, como excelente recurso para estudar e compreender os conceitos: consciência/inconsciência, por exemplo.

Quebra-cabeças, de Claudio García Pintos

Quebra-cabeça apresenta-nos a história de quatro tolos que, perante a necessidade de atravessar um bosque, assumem atitudes diferentes. Basicamente, propõe-se a escolha da atitude a assumir quando temos de enfrentar uma crise, representada pelas dificuldades oferecidas pela dita travessia, e o recurso a dois elementos fundamentais: a descoberta do sentido (aqui tratado como “princípio de coerência” – é o botão que põe de pé o quebra-cabeças) e a coragem que exige de nós o assumir da responsabilidade em seguir o caminho proposto.

Quebra-cabeças

Era uma aldeia de tolos. Uma aldeia habitada por pessoas habituadas a viver tolamente, fugindo aos problemas, não resolvendo situações, mantendo relações superficiais e passageiras… Ninguém conhecia bem o seu vizinho e alguns nem sabiam se alguém vivia na porta ao lado.

Um dia, um grupo de quatro tolos organiza uma excursão. Tratava-se de um passeio pelo bosque que ficava próximo da aldeia. Assim, sem previsões nem provisões, os tolos saíram da aldeia. Chegando à entrada do bosque, descobriram que tinham diante dos olhos a obscura maravilha de sendas caprichosas e galerias desenhadas por árvores de frondosa presença e húmido acolhimento. Escolheram uma clareira como entrada e introduziram-se nessa cativante imagem.

Uma vez dentro, facilmente foram enganados por uma manhã maravilhosa, que confundiu os seus passos e os fez perder a referência da entrada escolhida. Sem saberem que decisão tomar, seguiram em frente, esperando encontrar a qualquer momento uma saída. Cedo começaram a enfrentar riscos de todo o tipo. Um deles começou a perceber sons, ruídos estranhos e desconhecidos. Pensou que se tratava dos duendes do bosque, fantasmas que habitavam aquela húmida escuridão e perseguiam os intrusos que ousavam invadi-la. Sentiu medo, vacilou um momento, quis fugir, mas logo reagiu: tapou os ouvidos com as mãos e ficou tranquilo, porque, assim pensou, os duendes deixariam de existir.

Outro descobriu entre as sombras cerradas do bosque presenças estranhas que o seguiam e o olhavam. Eram curiosos seres cujas formas se modificavam à medida que ele se aproximava ou se afastava deles e que surgiam da escuridão como personagens ameaçadoras. Também sentiu medo. Quis fugir desse círculo no qual fora apanhado pelas sombras e pelos seus temores. Logo reagiu e, tal como aconteceu com o outro tolo, descobriu o que fazer: tapou os olhos com as mãos e ficou tranquilo, porque, assim pensou, as sombras ameaçadoras deixariam de existir.

O terceiro tolo, que gostava de cantarolar enquanto caminhava, começou a sentir personagens invisíveis que, com vozes estranhas e lânguidas, entoavam cantos de melodia envolvente. Sentiu medo. Quem seriam essas personagens que repetiam invariavelmente os seus cantos com um tom que o assustava, com uma sonoridade inquietante? Quis fugir delas, mas não conseguiu. Para onde ia, elas iam também. E tal como aconteceu com os tolos anteriores, tomou uma decisão: tapou a boca, parou de cantar e ficou tranquilo, porque, assim pensou, as vozes ameaçadoras deixariam de existir.

O quarto tolo, que gostava de caminhar e de percorrer todos os atalhos do bosque, cedo descobriu que, por mais que caminhasse, chegava sempre ao mesmo lugar. Acelerava o passo, como se isso lhe permitisse sair mais depressa do labirinto verde-escuro em que se havia metido. Mas de nada adiantava; por mais que corresse, chegava sempre ao mesmo lugar. Sentiu-se apanhado pela própria impossibilidade de encontrar a saída. Quis fugir, mas não pôde. Para onde quer que caminhasse, os atalhos levavam-no, invariavelmente, ao mesmo lugar. Logo reagiu, e tal como aconteceu com os outros três tolos, descobriu o que tinha a fazer: ficou parado, porque, assim pensou, os caminhos não se cruzariam, impedindo-o de sair do lugar. Mas sentiu que não tinha resolvido o problema.

Permaneceu ali parado durante um momento… e também não tinha saído do labirinto, que continuava a existir em seu redor, cerrado, enigmático, e verde-escuro. Pensou um instante e disse para consigo que, se existia uma entrada, devia existir uma saída. Só a encontraria se a procurasse. E, apesar do medo, decidiu procurá-la. Pegou numa pedra, amarrou-a a uma corda que fez com raízes e lançou-a para o meio da espessura verde do bosque. Seguindo a corda como se fosse um atalho, caminhou de maneira pausada, mas decidida.

Assim, inventando atalhos através do verde espesso do bosque, chegou à presença do duende do bosque. Era uma pequena e simpática personagem, que o recebeu afectuosamente. O tolo assustou-se, mas não tentou fugir dele, porque percebeu que seria bem recebido. O duende guiou-o até à saída mais próxima do bosque. Ao chegar lá, deparou-se com uma curiosa montanha formada por milhares de peças de um quebra-cabeças gigante.

Então, o duende disse-lhe que a condição para encontrar a única saída que o bosque tinha era reconstruir inteiramente a figura do quebra-cabeças. O nosso tolo sentiu-se decepcionado por ter de realizar tão árdua tarefa, tendo em conta aquela enorme quantidade de peças. Mas o duende do bosque animou-o dizendo que devia tentar, ou então voltar para o centro do labirinto, e ficar lá parado, como já havia feito antes.

O duende deixou-o sozinho para que decidisse o que devia fazer e, desejando-lhe sorte, perdeu-se na espessura do bosque. O tolo deu início à tarefa. Trabalhou muitas horas, tentando reconstruir a figura em questão. Teve de enfrentar desânimos e frustrações. Foi relativamente bem sucedido e conseguiu reconstruir uma parte da figura. No decurso das suas tentativas, encontrou no meio da montanha uma peça curiosa. Era semelhante às demais, mas tinha uma particularidade: no canto da peça havia alguma coisa que se parecia com um botão vermelho. Ele deixou-a de lado e continuou a tentar. Passado um momento, voltou àquela peça… e como se alguma coisa dentro dele o impelisse, pressionou o botão.

No mesmo instante, presenciou um facto maravilhoso: em simultâneo, todas as peças começaram a juntar-se automaticamente, de maneira precisa e muito cuidadosa, até formarem a imagem perfeita e acabada do quebra-cabeças. Ainda sob o efeito da surpresa, percebeu que se tratava do desenho de uma porta tão vividamente pintada que parecia real. Tão real parecia que teve vontade de rodar o puxador e de a abrir. Foi o que fez, e a sua surpresa tornou-se ainda maior porque a porta se abriu, e ele pôde, finalmente, sair do bosque.

Penetrou assim numa paisagem espectacular, intensa, luminosa, com vales regados por sinuosos regatos e enfeitados por pomares coloridos, percorridos por pessoas que cantavam sem tapar a boca, cujos olhares possuíam um brilho especial que não ocultavam, e que desfrutavam de cada som, cada canto, cada silêncio. E enquanto ele se abria ao esplendor daquela nova paisagem, certo de nunca mais regressar à aldeia de onde havia saído, os outros tolos permaneciam com os olhos tapados e a boca fechada, acreditando tolamente que, assim, os fantasmas do medo e do temor deixariam de existir.

Papagaio de papel de Luiz Falcão

Papagaio de papel (Pipa, em brasileiro), do poeta brasileiro Luiz Falcão, apresenta‑nos, de uma maneira muito simples e bela, a vivência da liberdade. A imagem de um papagaio de papel a brincar no ar, a fazer piruetas vistosas e coloridas, associa-se imediatamente à ideia de liberdade. Voar, subir, chegar onde os olhos não abarcam, são circunstâncias que muitas vezes percebemos como privilégios dos pássaros ou dos papagaios de papel, especialmente quando nos sentimos prisioneiros de diversas circunstâncias da vida.

Nessa busca de liberdade, muitos de nós assumem o papel de vítima, acreditando que, em certas situações, ser-se livre é difícil. Mas a canção chama a nossa atenção para a própria condição do papagaio de papel, que não deixa de ser livre, não se submete nem assume o papel de vítima, apesar de estar preso a um cordel. E deixa-nos a sua mensagem: ser‑se livre é um desafio quando se tem a vida sempre presa por um fio. Da nossa atitude depende, pois, sermos vítimas ou protagonistas das circunstâncias, descobrirmos a verdadeira liberdade ou desistirmos da sua busca.

Pipa

Pipa vai, pipa vem,
voa, voa, me eleva também.
Pipa vai, pipa vem,
voa, voa até onde os olhos não vêem.

Fazendo piruetas no céu,
Lindas, tão coloridas, de papel.
Voar por toda parte.
Um jogo feito arte.
No ar, sempre alegre como um passarinho.
Voar em liberdade.
Ser livre é um desafio.
Com a vida sempre presa por um fio.

Pipa vai, pipa vem,
voa, voa, me eleva também.
Pipa vai, pipa vem,
voa, voa até onde os olhos não vêem.

Última página

Em última análise, o livro como recurso terapêutico realiza um serviço formidável ao despertar no paciente uma resposta operacional pessoal e significativa perante a situação crítica que o inibe de decidir e actuar conscientemente. A palavra escrita, com toda a riqueza encoberta do “não-escrito”, transforma-se em presença permanente, que assume características dinâmicas especiais:

a) o texto interage connosco; de certo modo, poder-se-ia dizer que nos ouve e nos fala, dialoga incondicionalmente com o leitor;

b) no contexto desse diálogo, não deixa de nos dar respostas, não se furta a fazê-lo;

c) compartilha os nossos próprios pensamentos.


Várias vezes se apresentou o livro como uma boa companhia; podemos encará-lo também como uma boa companhia terapêutica, que nos acompanha na busca de respostas novas para situações de vida.

Desse modo, bem poderíamos afirmar que o livro, na sua finalidade biblioterapêutica, nos revela tanto quanto nos rebela. Quero dizer que, num primeiro momento, faz-nos ver, ilumina uma situação, revelando-nos aspectos, matizes, circunstâncias, alternativas, caminhos, que até então não eram vistos nem apreciados por nós.

Uma vez iluminado o panorama, sacode-nos, estimula-nos e incentiva as nossas genuínas possibilidades de elaborar uma resposta própria e significativa, rebelando-nos no tocante à situação a ser resolvida, incitando-nos a sair do desespero, da confusão ou da resignação, e actuando em função de uma resposta nova e possível.

Quando esta revelação e esta rebeldia se conjugam, o indivíduo apropria-se da situação de vida que tem diante de si e fica em posição de resolvê-la significativamente. Esse objectivo é, seguramente, “o objectivo” fundamental da psicoterapia, isto é, que o indivíduo acabe por ser cada vez mais ele próprio.

O livro não é a única alternativa para o conseguir, mas a biblioterapia oferece-se como espaço nobre para que todas as pessoas possam acabar por fazer da sua biografia uma história dotada de sentido.



*** O autor, Cláudio García Pintos é um estudioso argentino, cujo núcleo de interesses se prende com a Logoterapia: uma terapia centrada no sentido, inaugurada pelo médico vienense Viktor Emil Frankl (1905-1997). A Logoterapia e Análise Existencial constitui a terceira escola vienense de Psicoterapia, após a Psicologia Freudiana e a Psicologia Individual de Adler, com marcadas vertentes humanística e antropológica.


[2] Trata-se de Luiz Falcão, um carioca que vive em Florianópolis, autor de numerosas peças.
[3] Papagaio de papel.

O fenómeno da desleitura - Inês Pedrosa

Inês Pedrosa
Única, Expresso
15 Novembro 2003


Excertos adaptados


Num canto de Lisboa, ao lado do rio, no Centro Cultural de Belém, pode-se ver um projecto de Fernanda Fragateiro – um projecto não apenas importante, mas de um esplendor urgente, porque trata de uma das mais graves e contagiosas doenças portuguesas: a desleitura.

A desleitura é uma variante activa e mortal do analfabetismo: o doente aprende a juntar as letras, mas permanece a vida inteira incapaz de interpretar um texto, ou mesmo de ler tudo o que exceda a dimensão de um título garrafal ou de uma legenda de fotografia. Em casos tipificados, pode atingir o nível da chamada borbulhagem snobe, uma alergia a toda a produção literária da sua língua, que o doente considera, no seu todo e a priori, «ilegível» ou «maçuda».

Confesso que, depois de ler, no passado domingo (9 de Novembro), no jornal «Público», a descrição do novo programa de Português do Ensino Secundário feita pela direcção da Associação dos Professores de Português, o que me espanta é que, apesar de tudo, ainda haja tantos jovens capazes de sobreviver ao desprezo pela literatura que neste programa se enuncia de forma transparente – tanto no que se diz como na fórmula protopomposa de o dizer: a) Redução do 'corpus' literário. (…) b) Alargamento do 'corpus' não-literário; O novo programa introduz o artigo científico e técnico, o artigo de apreciação crítica, o comunicado, o contrato, a crónica literária, a declaração, a reclamação, o regulamento, o requerimento, o texto audiovisual, o texto de reflexão, o texto publicitário e o verbete de dicionário e de enciclopédia. c) Alargamento da compreensão oral. As novas competências a desenvolver explicitamente são a escuta do discurso político e a componente de compreensão do oral durante uma entrevista ou um debate. d) Alargamento das competências de leitura. Leitura de relatório (…). Ninguém será capaz de explicar a estas almas-em-alínea que quem aprende a ler em profundidade Gil Vicente ou Camões, a poesia de Garrett ou o conto do século XIX (só para falar das obras literárias agora excluídas) é capaz de se lançar a todo e qualquer relatório ou regulamento, requerimento ou artigo jornalístico – e que a inversa não é verdadeira?

Peço ao Ministro da Educação o favor de meditar no suplemento publicado este mês pela revista francesa «Lire» sobre as formas de estimular o gosto pela leitura nos jovens. Ficamos a saber, por exemplo, que o Ministério da Educação francês se tem preocupado em aumentar o peso da literatura no ensino da língua, desde a primeira infância – anexando listas de obras literárias aos programas (obras obviamente adequadas a cada idade). Nós preferimos que os nossos jovens aprendam a elaborar relatórios eficientes – talvez para que possam, daqui a 20 anos, justificar diante da Europa a permanência do País neste singularíssimo último lugar de produtividade.

O que me mantém o optimismo em boa forma é o contacto permanente com as excelentíssimas bibliotecas públicas portuguesas (obrigada, Teresa Gouveia; obrigada, Manuel Maria Carrilho) e com os leitores, em número crescente, que as frequentam. Nos últimos anos, tenho tido o prazer de animar comunidades de leitores em bibliotecas variadas. Em Portalegre ou em Loures, na Ericeira, no Pinhal Novo ou, agora, no Seixal, encontrei pessoas fascinantes, que fazem da leitura partilhada uma forma de crescimento interior e de educação para a mudança. Na primeira sessão da comunidade do Seixal, há semanas, pedi a cada participante que falasse de um ou mais livros que tivessem marcado a sua vida e a única que não soube o que responder foi uma estudante da licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, que nos explicou: É que eu tenho que ler tantos livros de crítica, análise das obras que não tenho tempo para ler as obras em si… Ainda assim, comoveu-me que esta estudante sobrecarregada de teoria-da-teoria se dispusesse a ler doze livros extraprograma, e a gastar seis tardes de sábado para viajar através deles com outros leitores.

Pois a exposição da Fernanda Fragateiro no CCB, que se chama «Das Histórias Nascem Histórias», visa precisamente conduzir as crianças para dentro da obra-em-si. O Instituto Português do Livro e das Bibliotecas pediu-lhe para criar uma exposição itinerante sobre a leitura, e a Fernanda decidiu trabalhar sobre dois livros do universo maravilhoso de Sophia de Mello Breyner Andresen – A Floresta e A Menina do Mar. Decidiu também que a exposição seria fortemente interactiva, de forma a que as crianças pudessem, de facto, brincar com as palavras de todas as maneiras. O resultado é magia concreta – um mar de meninos fascinados pelo brilho conjunto das palavras, das aguarelas, dos desenhos-cenário em espiral e das vozes dos actores que dão corpo às histórias. Esta exposição vai percorrer as bibliotecas de Portugal como um raio de luz, procurando nos corpos os cérebros abandonados pela pulverização dos «corpus».

Leitura e liberdade - Alberto Manguel

Alberto Manguel
Uma História da Leitura
Lisboa, Ed. Presença, 1998

Excertos adaptados


Nos Estados Unidos foram promulgadas leis rigorosas que proibiam todos negros, escravos ou homens livres, de serem ensinados a ler. Estas leis vigoraram até meados do século XIX.

Durante séculos, os escravos afro-americanos aprenderam a ler em condições extraordinariamente adversas, arriscando a vida num processo que, devido às dificuldades com que se debatiam, demorava por vezes vários anos. Existem muitos relatos desta aprendizagem heróica. Belle Myers Carothers, de noventa anos – entrevistada pelo Projecto Federal de Escritores, comissão criada nos anos 30 para registar, entre outras coisas, as narrativas pessoais de antigos escravos – lembrava-se de aprender as primeiras letras enquanto tomava conta do bebé do proprietário da plantação, que brincava com blocos de letras. Ao aperceber-se do que ela estava a fazer, o proprietário pontapeou-a com a bota. Myers persistiu, estudando secretamente as letras da criança, assim como algumas palavras numa cartilha que tinha encontrado. Um dia, disse ela, «encontrei um livro de cânticos religiosos… e soletrei um deles. Fiquei tão feliz quando descobri que sabia ler que fui a correr contar a novidade aos outros escravos». O dono de Leonard Black surpreendeu-o uma vez com um livro e chicoteou-o tão fortemente que «venceu a minha sede de conhecimento e eu abandonei as tentativas nesse sentido até depois da minha evasão». Doc Daniel Dowdy recordava-se que «a primeira vez que se era apanhado a tentar ler ou escrever era-se chicoteado com uma chibata de pele, a vez seguinte com um azorrague de nove tiras e à terceira vez cortavam-nos a ponta do dedo indicador». Por todo o Sul da América era comum os proprietários das plantações enforcarem os escravos que tentassem ensinar outros a escrever.

Nestas circunstâncias, os escravos que quisessem alfabetizar-se eram obrigados a encontrar métodos de aprendizagem dissimulados junto de outros escravos ou de professores brancos dispostos a ensiná-los, ou inventando estratagemas que lhes permitissem estudar sem serem descobertos. O escritor americano Frederick Douglass, que nasceu escravo e se tornou um dos mais eloquentes abolicionistas do seu tempo, assim como fundador de várias publicações políticas, recorda na sua autobiografia: «O facto de ouvir com frequência a minha dona a ler a Bíblia em voz alta […] despertou-me a curiosidade em relação ao mistério da leitura e acicatou-me o desejo de aprender. Até àquela altura, eu nada sabia desta maravilhosa arte e a minha ignorância e inexperiência daquilo para que me poderia servir, assim como a confiança que tinha na minha patroa, deram-me a ousadia de lhe pedir que me ensinasse a ler […]. Em pouquíssimo tempo, com a sua bondosa ajuda, sabia o alfabeto e conseguia ler palavras de três ou quatro caracteres… [O meu amo] proibiu-a de me continuar a ensinar, [mas] a determinação que ele expressara em me manter num estado de ignorância apenas me tornou mais resolvido a procurar instrução. Na minha aprendizagem da leitura, por conseguinte, não tenho a certeza se não devo tanto à oposição do meu amo como à assistência bondosa da minha ama.»

Thomas Johnson, um escravo que veio a tornar-se um pregador missionário famoso em Inglaterra, explicou que aprendera a ler estudando as letras de uma Bíblia que furtara. Como o seu patrão lia todas as noites em voz alta um capítulo do Novo Testamento, Johnson pedia-lhe que lesse o mesmo capítulo várias vezes, até o saber de cor e ser capaz de encontrar as mesmas palavras na página impressa. Quando o filho do amo estava a estudar, Johnson sugeria ao menino que lhe lesse parte da lição em voz alta. «Deus nas Alturas», dizia Johnson para o animar, «leia isso outra vez», o que o menino fazia com frequência, julgando que o escravo estava a admirar os seus dotes de leitor. Graças à repetição, aprendeu o bastante para conseguir ler os jornais quando a Guerra Civil eclodiu e, mais tarde, fundou uma escola para ensinar outros escravos a ler.

Para os escravos, aprender a ler não representava um passaporte para a liberdade, mas antes uma forma de obter acesso a um dos instrumentos mais poderosos dos seus opressores: o livro. Os proprietários de escravos (à semelhança de ditadores, tiranos, monarcas absolutistas e outros detentores ilícitos de poder) tinham uma crença arreigada no poder da palavra escrita. Sabiam, muito melhor do que alguns leitores, que ler é uma força que requer pouco mais do que umas escassas primeiras palavras para se tornar avassaladora. Alguém capaz de ler uma frase é capaz de ler tudo; mais importante ainda, o leitor passa a ter a possibilidade de reflectir sobre a frase, de agir sobre ela, de lhe dar um sentido. «Uma pessoa pode fazer-se de desentendida com uma frase», disse o dramaturgo austríaco Peter Handke. «Afirmar-se com a frase em oposição a outras frases. Nomear tudo o que se nos atravessa ao caminho e arredá-lo. Familiarizar-se com todos os objectos. Tornar com a frase todos os objectos numa frase. Incluir todos os objectos na frase. Com esta frase, todos os objectos nos pertencem. Com esta frase, todos os objectos são nossos.» Por todas estas razões, a leitura tinha de ser proibida.

Como séculos de ditadores bem sabem, uma multidão de analfabetos é mais fácil de governar; já que a capacidade de ler não pode ser desaprendida uma vez adquirida, uma solução, à falta de melhor, é limitar-lhe o âmbito de aplicação. Por consequência, como nenhuma outra criação humana, os livros têm sempre sido o flagelo das ditaduras. O poder absoluto requer que todas as leituras sejam leituras oficiais; em vez de bibliotecas inteiras de opiniões, a palavra do governante deve ser suficiente. Os livros, escreveu Voltaire num panfleto satírico intitulado «Sobre o Horrível Perigo da Leitura», dissipam a ignorância, que é a custódia e salvaguarda dos Estados bem policiados». Por conseguinte, a censura, de uma forma ou de outra, é o corolário de todo o poder, e a história da leitura está iluminada por uma fila aparentemente interminável de fogueiras de censores, dos primeiros rolos de papel dos livros dos nossos tempos. As obras de Protágoras foram queimadas em 411 a. C. em Atenas. No ano de 213 a. C. o imperador chinês Chi Huang-ti tentou pôr fim à leitura queimando todos os livros do seu reino. Em 168 a. C. a Biblioteca Judaica em Jerusalém foi deliberadamente destruída durante a revolta dos macabeus.

No primeiro século da era cristã, os poetas Cornélio Galo e Ovídio foram exilados por Augusto e as suas obras banidas. O imperador Calígula ordenou que todos os livros de Homero, Virgílio e Lívio fossem queimados (mas o seu édito não foi cumprido). Em 303, Diocleciano condenou todos os livros cristãos à fogueira. E isto foi apenas o começo. O jovem Goethe, assistindo à queima de um livro em Frankfurt, sentiu que estava perante uma execução. «Ver um objecto inanimado ser punido», escreveu, «é, em si mesmo, algo verdadeiramente terrível.» A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que com o seu acto serão capazes de cancelar a história e abolir o passado. Em 10 de Maio de 1933, em Berlim, enquanto as câmaras filmavam, o ministro da propaganda Paul Joseph Goebbels dirigiu a palavra a uma multidão entusiasmada de mais de cem mil pessoas, durante a queima de mais de vinte mil livros: «Esta noite, procedeis bem em atirar para o fogo estas obscenidades do passado. Esta é uma poderosa acção, grandiosa e simbólica, que mostrará ao mundo inteiro que o velho espírito está morto. Destas cinzas renascerá a fénix do novo espírito.» Um rapazinho de doze anos, Hans Pauker, que viria mais tarde a ser director do Instituto de Estudos Judaicos em Londres, encontrava-se presente nesta queima e recordou que, enquanto eram atirados livros para as chamas, se faziam discursos para acrescentar solenidade à ocasião. «Contra o exagero dos impulsos inconscientes baseados na análise destrutiva da psique e pela nobreza da alma humana, entrego às chamas as obras de Sigmund Freud», declamou um dos censores antes de queimar os livros de Freud. Steinbeck, Marx, Zola, Hemingway, Einstein, Proust, H. G. Wells, Heinrich e Thomas Mann, Jack London, Bertolt Brecht e centenas de outros receberam a homenagem de epitáfios semelhantes.

Leitura e descoberta - Alberto Manguel

Alberto Manguel
Uma História da Leitura
Lisboa, Ed. Presença, 1998


Excertos adaptados



Os leitores de livros, em cuja família eu estava a entrar sem o saber (pensamos sempre que estamos sós em cada descoberta e que cada experiência, da morte ao nascimento, é aterradoramente singular), expandem ou condensam uma função que nos é comum a todos. Ler letras numa página é apenas uma das suas muitas manifestações. O astrónomo a ler um mapa de estrelas que já não existem; o arquitecto japonês a ler a terra onde uma casa vai ser construída para a proteger de forças malignas; o zoólogo a ler o rasto dos animais na floresta; o jogador de cartas a ler os gestos do seu parceiro antes de arriscar a carta decisiva; o dançarino a ler as notações do coreógrafo e o público a ler os movimentos do dançarino no palco; o tecelão a ler o desenho complicado de um tapete a ser tecido; o organista a ler várias pautas de música orquestradas na página; os pais a lerem no rosto do bebé sinais de alegria, medo ou surpresa; o adivinho chinês a ler as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante a ler às cegas o corpo da pessoa amada, à noite, entre os lençóis; o psiquiatra a ajudar os pacientes a lerem os seus próprios sonhos confusos; o pescador havaiano a ler as correntes do oceano, mergulhando a mão na água; o lavrador a ler no céu o tempo que vai fazer – todas estas pessoas partilham com o leitor de livros a capacidade de decifrar e traduzir signos. Algumas destas leituras são influenciadas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para este fim específico por outros seres humanos – notações musicais ou sinais de trânsito, por exemplo – ou pelos deuses – a carapaça da tartaruga, o céu nocturno. Outras são obra do acaso.

Porém, em todos os casos, é o leitor que lê o sentido; é o leitor que reconhece a um objecto, lugar ou acontecimento uma possível legibilidade ou lha concede; é o leitor que tem de atribuir significação a um sistema de signos e em seguida decifrá-lo. Todos nos lemos a nós próprios e ao mundo à nossa volta para vislumbrarmos o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é uma das nossas funções vitais.

Aprender a ler foi o meu rito de passagem.

Depois de ter aprendido a ler as letras, lia tudo: livros, mas também avisos, anúncios, as letras miudinhas nas costas dos bilhetes de eléctrico, cartas deitadas no lixo, jornais velhos apanhados debaixo do meu banco no jardim, grafitos, a contracapa de revistas nas mãos dos leitores no autocarro. Quando descobri que Cervantes, na sua paixão pela leitura, lia «até os pedaços de papel rasgado na rua», fui capaz de reconhecer exactamente o impulso que o dominava.

Ler forneceu-me uma desculpa para a privacidade ou talvez tenha dado um sentido à privacidade que me era imposta, visto que, durante toda a minha infância, depois de termos regressado à Argentina em 1955, vivi à parte do resto da minha família, a cargo da minha ama numa outra zona da casa. Nessa altura, o meu lugar de leitura preferido era o chão do meu quarto, deitado de bruços e com os pés enganchados numa cadeira. Mais tarde, a minha cama, pela noite dentro, tornou-se o lugar mais seguro e mais isolado para ler naquela região nebulosa entre a vigília e o sono. Não me recordo de alguma vez me ter sentido só; de facto, nas raras ocasiões em que me encontrava com outras crianças, achava as suas brincadeiras e conversas bem menos interessantes do que as aventuras e os diálogos que lia nos meus livros. O psicólogo James Hillman acredita que aqueles que leram histórias ou a quem foram lidas histórias na infância «estão em melhor forma e têm um prognóstico mais favorável do que aqueles que têm ainda de ser familiarizados com a ficção […] Chegando no início da vida, é já uma perspectiva sobre a vida». Para Hillman, estas primeiras leituras tornam-se algo vivo e experimentado, uma forma através da qual a alma se situa na vida». A estas leituras, e por esta razão, voltei repetidas vezes, e volto ainda.

Como o meu pai estava no serviço diplomático, viajávamos muito; os livros davam-me um lar permanente, um lar que habitava à minha vontade, em qualquer altura, por mais estranho que fosse o quarto onde tinha de dormir ou por mais ininteligíveis que fossem as vozes ouvidas do outro lado da minha porta. Muitas noites, acendia o candeeiro enquanto a minha ama trabalhava à sua máquina de tricotar eléctrica ou ressonava na cama em frente à minha e eu tentava chegar ao fim do livro que estava a ler e simultaneamente, adiar o final tanto quanto possível, relendo algumas páginas, procurando uma parte que me agradara especialmente, verificando pormenores que suspeitava terem-me escapado.

Nunca falava com ninguém sobre as minhas leituras; a necessidade de partilhar veio mais tarde. Na altura, eu era soberbamente egoísta e identificava-me completamente com os versos de Stevenson:

Este era o mundo e eu era rei;
Para mim vinham as abelhas a zunir,
Para mim voavam as andorinhas.