domingo, maio 20, 2007

A Escola e a família numa encruzilhada - José António Gomes

José António Gomes
Da nascente à voz. Contributos para uma pedagogia da leitura
Lisboa, Ed. Caminho, 1996

Excertos adaptados



Há algum tempo, visitámos uma escola do 2.° ciclo do Ensino Básico, em Famalicão. Fomos descobrir aí um folheto resultante de uma pequena experiência levada a cabo pelo grupo de professores de Português. Eis o texto do folheto, apresentado sob a forma de carta dirigida aos pais:

Senhor(a) Encarregado(a) de Educação,

Vem aí o Natal!
Na qualidade de professor(a) de Português venho ter consigo para, se mo permite, lhe dar uma sugestão e lhe fazer um apelo:
Quer que o seu filho desenvolva a sua sensibilidade, o seu gosto pela palavra e pelas histórias? Que cresça por dentro com valores como a solidariedade, a justiça, o amor, a verdade? Que aumente o seu saber? Que não conheça a solidão? Se quer isto e muitas coisas mais, compre, neste Natal que se avizinha, um bom livro para o seu filho.
Como diz Sophia de Mello Breyner, «o livro é uma festa!». Torne mais festivo o Natal do seu filho, oferecendo-lhe um bom livro que passará de mão em mão, de geração em geração, sempre mais valioso e mais amado.
Se quiser antecipar a sua prenda, pode comprar uma obra de Matilde Rosa Araújo – uma das nossas maiores escritoras de literatura infantil e juvenil – que virá à nossa Escola, no dia 10 de Dezembro. Ela, que sente e compreende as crianças como ninguém, não deixará de autografar o livro do seu filho – e ele terá, por isso, muito mais valor.
Se preferir surpreendê-lo mesmo na Festa de Natal, deixo-lhe uma lista de bons autores para o ajudar na sua escolha.
Colabore com o (a) professor(a) de Português! Ajude-nos a incentivar, no seu filho, o gosto pelos livros e pela leitura. E ele será, um dia, um adulto mais sábio, mais responsável, mais solidário e, de certeza, mais feliz.

Com os melhores cumprimentos,

O (a) professor(a) de Português

Este texto – integrado num projecto com origem na Escola visando a colaboração entre esta e a Família em prol da leitura – foi levado para casa por todos os alunos. O desdobrável continha ainda uma lista de doze autores de literatura infantil, portugueses e estrangeiros. Segundo testemunho de uma das principais animadoras da iniciativa, Manuela Monteiro, delegada de disciplina, os resultados excederam as expectativas. Uma simples feira do livro e um encontro com um escritor na escola transformaram-se, assim, em momentos privilegiados de um processo de colaboração entre professores e pais em torno da necessidade de promover o livro, fomentar o gosto de ler e contribuir para o sucesso educativo e pessoal – o qual passa, cada vez mais, pela melhoria das competências de leitura dos alunos.

Nos últimos tempos, vem sendo notória uma maior preocupação, por parte das escolas, em tirar partido da realização de feiras do livro para promover acções de sensibilização dos encarregados de educação neste mesmo sentido. Procura-se, fundamentalmente:

· Consciencializar a família da necessidade de partilhar responsabilidades com a escola na formação ou na conquista de leitores.

· Sensibilizar os pais para a importância do livro e da leitura na educação, incentivando-os a adquirir livros para os filhos, a acompanhá-los na descoberta do prazer de ler e, se possível, a dialogar com eles sobre o conteúdo das obras.

· Informar os encarregados de educação sobre o tipo de livros mais adequado aos seus educandos, em função do estádio de desenvolvimento em que estes se encontram e do seu nível de competência de leitura. A informação passa ainda pela divulgação da variedade da oferta que hoje em dia se regista na área do livro infantil e juvenil: os «clássicos», o romance juvenil, o conto para crianças, o conto tradicional, a narrativa de mistério e indagação, a ficção científica, a poesia, as enciclopédias e dicionários, as obras instrutivas ou de divulgação, a banda desenhada, os livros ilustrados, etc.

Perguntar-se-á, então, que podem os pais fazer em prol da formação de leitores. Vários autores têm abordado esta questão. No seu livro Como um Romance (Porto, Asa, 1993), Daniel Pennac, por exemplo, descreve de forma particularmente lúcida esses momentos únicos que constituem, de certa maneira, a primeira iniciação da criança à leitura, a sua primeira descoberta dos mundos insuspeitados que as histórias encerram, no quadro de uma singular relação afectiva:

Neste princípio de insónia, repenso o ritual da leitura, todas as noites, à cabeceira da cama, quando ele era pequeno, a horas fixas e com gestos imutáveis: era de certo modo como uma oração. O súbito armistício depois da balbúrdia do dia, os reencontros livres de todas as contingências, o momento de silêncio concentrado antes das primeiras palavras da história, a nossa voz que finalmente soa como de facto é, a liturgia dos episódios... Sim, a história lida todas as noites constituía a mais bela função da oração, a mais desinteressada, menos especulativa, a que dizia respeito apenas aos homens: o perdão das ofensas. Não se confessava nenhuma falta, não havia qualquer preocupação em receber uma porção de eternidade, era um momento de comunhão entre nós, a absolvição do texto, um regresso ao único paraíso que tem valor: a intimidade. Sem que o soubéssemos, descobríamos uma das funções essenciais do conto, e mais generalizadamente da arte em geral, que é impor uma trégua no combate entre os homens. O amor ganhava um novo rosto. E era gratuito. Gratuito. Pelo menos era assim que ele o entendia. Um presente. Um momento fora de todos os momentos. Quaisquer que fossem as circunstâncias. A história nocturna, aligeirava-lhe o peso do dia. Largavam-se as amarras. Ia com o vento, levíssimo, o vento que era a nossa voz.

É consensual, também, o reconhecimento da importância do convívio com os livros desde os primeiros tempos de vida. A interiorização da ideia de que a leitura é uma actividade do quotidiano e o crescimento no seio de uma família que valoriza o livro são factores que contribuem, por certo, para uma maior apetência pelo acto de ler.

No jardim-de-infância e no 1.° ciclo da Escola Básica – em que as actividades em torno do livro e a hora do conto parecem começar a assumir um relevo maior – os educadores devem procurar, desde o início, dialogar com os pais sobre esta matéria. No artigo já citado, Maria Lúcia Lepecki lembra que o professor pode deparar [...] com a inércia do grupo familiar: o facto é que com muita frequência a família não colabora. Não porque resista e de caso pensado se negue, mas, muito simplesmente, porque não sabe o que fazer, como fazer e em que alturas precisas intervir (com que estratégia?) na aproximação entre a criança e o livro.

Torna-se, pois, necessário aconselhar os pais sobre a melhor forma de prosseguir um trabalho concertado de acompanhamento desse pequeno ser que começa a interessar-se pelos livros ilustrados e a dar os primeiros passos na leitura. A família deverá, por exemplo, tomar consciência de que não pode exigir à criança de 6 e 7 anos que leia sozinha, entregue a essa inexpugnável floresta de signos que é o texto (ainda que elementar), incapaz de vencer, por si só, os muitos obstáculos que o livro ainda lhe apresenta. O conto ao fim do dia, a exploração conjunta de palavras e frases (até a própria criança tomar a iniciativa de as ler ou de «corrigir» o adulto) continuam a revelar-se necessários.

Há algum tempo, em conversa informal, a escritora Luísa Dacosta recordava notícias sobre graves agressões perpetradas por crianças em vários locais do mundo. Comentava que, seguramente, essas crianças não haviam sido educadas no sentido do diálogo e de uma abertura ao outro e que, provavelmente, não teriam tido acesso a determinadas obras literárias (por exemplo aos contos de Andersen). Reportava-se, sobretudo, a histórias cujos protagonistas, pelos seus sentimentos e atitudes, dão ao leitor uma noção clara e pungente do que é a dor alheia.

A vibração com a alegria e o sofrimento das personagens permite à criança sair do seu casulo egocêntrico, sentir curiosidade em relação ao pensamento do outro, dialogar com ele. Acresce que a própria leitura da narrativa literária é um diálogo entre a voz que conta e o leitor, podendo, por sua vez, suscitar a conversa entre leitores. Ouçamos de novo Lúcia Lepecki: O primeiro traço de postura psicológica susceptível de formar um leitor é, [...] no meu entender, a disponibilidade de espírito. É preciso educar a abertura ao outro para se poder (e sobretudo para se gostar de) ler. Vem ainda a propósito lembrar as palavras de Paulette Lassalas, acerca do papel da educação pré-escolar: a escola [...] tenta enraizar o poder-ler futuro da criança num querer-ler que supõe um querer comunicar com o outro. [...] A criança fala – ouve; é a primeira condição dessa outra reciprocidade que é ler – escrever.

Parece-nos este um princípio fundamental na formação do leitor. Ele deverá nortear a acção tanto da Escola (nos vários níveis de ensino) como da Família, e necessita, por certo, de ser explicado, de forma clara, aos encarregados de educação.

São já várias as experiências de intercâmbio entre a Família e a Escola. Tornou-se comum ouvirmos relatos sobre pais e outros elementos da comunidade que vieram às aulas para falar da sua actividade profissional ou mesmo para contar histórias aos alunos. A Escola abre-se, de forma crescente, à participação dos pais nos seus projectos.

Guardamos na memória um encontro, em 1993, entre José Jorge Letria e os alunos da Escola EB 2/3 de Pêra Pinheiro. Amplamente participado pelos alunos – quer no diálogo não estereotipado com o escritor quer num espectáculo de excelente qualidade em torno da sua vida e obra –, o encontro teve assinalável acolhimento por parte dos encarregados de educação, que não só assistiram interessados ao espectáculo como marcaram significativa presença na sessão de apresentação pública do livro Histórias do Espelho da Lua (Porto, Asa, 1993), a qual teve lugar na escola.

A experiência tem mostrado que as actividades escolares de Biblioteca de Turma, Leitura Recreativa e Leitura Orientada levam, por vezes os jovens a pressionar os pais no sentido de adquirirem certas obras abordadas na aula. É uma atitude positiva, da qual a Escola e a Família devem tirar partido.

A referência à Biblioteca de Turma suscita-nos uma outra reflexão: a de que as actividades e projectos desenvolvidos no âmbito de áreas como a História, as Ciências da Natureza e a Geografia, entre outras, aconselham, cada vez mais, a organização de Bibliotecas de Turma específicas destas disciplinas, movimentadas em moldes idênticos aos da aula de Língua Portuguesa. Aí teriam o seu espaço próprio algumas biografias de personalidades da História e da Ciência, a par dos chamados livros documentais (enciclopédias juvenis e obras instrutivas ou de divulgação).

Os encarregados de educação precisam de ser motivados a visitar as feiras do livro que se realizam nas escolas – as quais se recomenda que ocorram pelo menos duas vezes em cada ano lectivo. As feiras constituem excelentes pretextos para acções de sensibilização dos pais para a importância do livro e da leitura na formação dos seus educandos. É fundamental que saibam que, através dos livros, podem estabelecer um diálogo gratificante com a criança e o jovem.

Recordemos as palavras de Mercedes Gómez del Manzano a este propósito:

Para que tal diálogo se estabeleça com êxito, precisamos de conhecer a literatura para crianças que existe, precisamos de quebrar com os moldes de uma literatura que nos agradou a nós, adultos, quando éramos crianças, mas que hoje tem pouco para oferecer aos nossos filhos. A literatura infantil que hoje se escreve tem em conta os interesses das crianças e dos pré-adolescentes, vai ao encontro das suas inquietações, é protagonizada por personagens que sentem e pensam como eles, vivem os mesmos problemas e apontam soluções.

Começar a formar leitores

Continua a reconhecer-se como insubstituível o papel dos educadores no desenvolvimento das competências de leitura e no incentivo ao gosto de ler, sobretudo nos casos em que as crianças foram, por esta ou aquela razão, subtraídas a um convívio regular e feliz com os livros, no meio familiar.

Neste particular aspecto, não devemos iludir-nos: a investigação tem confirmado, escreve Ramiro Marques, que as crianças que melhor lêem na escola primária são as que se habituaram a ouvir ler histórias desde bebés e possuem um ambiente familiar onde a leitura e a escrita são actividades diárias. Recorde-se, aliás, que a aprendizagem da leitura, pelas crianças pequenas, é uma actividade diária que decorre em casa, na pré-escola e na rua, e em todas as circunstâncias. Schickedanz, citado por Ramiro Marques, afirma: Os métodos que os pais usam para ensinar as crianças a ler diferem dos usados na escola primária. Os pais ajudam os filhos a aprender a ler todos os dias, quando os levam ao supermercado ou quando lhes apontam os sinais de trânsito, por exemplo. E isto é tanto mais importante, prossegue o autor de Ensinar a Ler, Aprender a Ler, quanto se sabe que as crianças com melhor desempenho na leitura e escrita são as que tiveram muitas experiências com a escrita durante os primeiros anos de vida. Para essas crianças, ler faz parte das suas vidas, muito tempo antes da escola primária.

Este quadro proporciona-nos algumas reflexões:

  • As experiências de pré-leitura, tanto no meio familiar, como no jardim-de-infância, são um factor importante no sucesso educativo das crianças.

  • Os contactos frequentes com o livro, em casa e nas actividades pré-escolares, constituem momentos privilegiados das experiências de pré-leitura.

  • Nesses momentos, o encontro da criança com o livro pode ser solitário ou contar com a mediação, mais ou menos activa, mas sempre atenta, do adulto.

  • A componente lúdica, antecipadora da leitura-prazer, não pode, em caso algum, estar ausente do relacionamento inicial com o livro. Aos olhos da criança, este começa por ser um brinquedo. Tal facto favorece a ligação afectiva aos livros e ao acto de ler. Pobre do álbum infantil que se não desgaste nas mãos dos pequenos leitores e venha, em vez disso, a morrer, corrompido pelo pó, no cimo da estante, ou fechado na arrecadação de materiais do jardim-de-infância, com o argumento de que é caro e os meninos o estragam!

A importância da biblioteca para a promoção de hábitos de leitura

Teresa Gonçalves
in
Educare, Educere.
Revista da Escola Superior de Educação de Castelo Branco

“Moinhos de Vento, Moinhos de Pensamento”, Ano IX, Nº14, Junho 2003

Excertos adaptados



“ Ler ou não ler” é, uma vez mais, a questão.

Nas sociedades contemporâneas, a leitura (em contexto escolar, profissional ou de lazer) assume um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento cultural, científico, político e, consequentemente, económico dos povos e dos indivíduos. Por isso, tanto se tem reflectido sobre a forma de incentivar e motivar as pessoas para a leitura, em especial as crianças e os jovens, que ainda não criaram e enraizaram esse hábito tão enriquecedor.

Interlocutor privilegiado, pelo tempo que partilha com os mais novos, a escola pode ajudar a criar e a sedimentar hábitos de leitura quer promovendo e explorando o livro, com temáticas adequadas e atractivas para as correspondentes faixas etárias, quer dinamizando actividades inovadoras e interessantes com livros na biblioteca escolar, quer propondo a navegação em sites diversificados que põem o aluno em contacto com a leitura de diferentes suportes, muitas vezes interactivos. Estas são, fundamentalmente, as questões sobre as quais nos debruçaremos no artigo que se segue.

As crianças e os jovens aprendem muito do que sabem acerca do mundo e da vida espontaneamente, em contextos muito diversificados que abrangem o grupo familiar, o círculo de amigos, as micro-sociedades ou grupos em que se inserem e os meios de comunicação social, desde a televisão até à Internet.

Mas é, sem dúvida, na escola e, frequentemente, através do livro, que aprendem de forma mais organizada a sistematizar as informações e os conhecimentos, a pensar, a olhar com espírito crítico a realidade circundante, a problematizar o mundo, a encontrar resposta para os problemas que enfrentam, a respeitar as diferenças étnicas, sociais e pessoais e, muitas vezes, a interiorizar os seus direitos e deveres, como pessoas e como cidadãos. Enfim, o contacto com o livro enriquece culturalmente o indivíduo e promove a sua autonomia. Para já não falar, especificamente, da importância do livro e da leitura para o melhoramento da competência linguística oral e para a aprendizagem do código escrito da sua própria língua.

De ano para ano vamos tendo cada vez a sensação mais nítida de que aumentam os problemas relacionados com a competência linguística oral e escrita dos jovens e dos portugueses em geral, problemas esses denunciados diariamente pela própria família, pelos meios de comunicação social e, claro, amargamente constatados por todos os professores. É visível e constrangedora a dificuldade de certos adolescentes em exporem claramente um raciocínio. No âmbito da escrita já não são só os problemas ortográficos, mas é também o domínio deficiente da pontuação, da acentuação gráfica, da própria construção sintáctica da frase, bem como o da construção de um simples texto.

Neste contexto, afigura-se-nos óbvia a importância do livro e da leitura como fonte de saber e de cultura e como meio eficaz de aperfeiçoamento linguístico. Todavia, o difícil é ser capaz de conduzir as crianças e os jovens à leitura, quando estão rodeados de tantas e tão diversificadas solicitações e quando, por vezes, até o próprio meio familiar parece avesso a esta actividade e a tudo o que com ela directamente se relaciona (nomeadamente, consagração efectiva de uma parcela do tempo livre à leitura, discussão de aspectos sobre os quais o livro que lemos nos fez reflectir, exteriorização do prazer de ler, visita regular à biblioteca e à livraria e aquisição habitual de livros).

Não pretendemos reflectir aqui sobre as razões sociológicas desta falta de tempo familiar para a leitura, senão mesmo falta de vontade, mas é certo que ela não contribui minimamente para a motivação intrínseca para ler que as crianças e os jovens deveriam ter.

Por outro lado, se a própria comunidade escolar (digo, comunidade escolar, e não só professores de Português) não conseguir mostrar aos alunos uma atitude muito positiva em relação ao prazer de ler, quer a finalidade seja informativa ou recreativa, e se não encarar a biblioteca como um espaço de cruzamentos curriculares, de modo a que a sua dinamização seja contínua e feita por todos, dificilmente conseguirá cativar os alunos para a leitura.

Finalmente, se o aumento do orçamento para o ensino não for uma prioridade dos governos, se a própria sociedade não facilitar a criação de estruturas de apoio à leitura, tais como livrarias perto da escola e bibliotecas escolares, municipais e públicas, com horários que correspondam às necessidades dos utentes, com livros diversificados, salas de leitura atraentes e confortáveis e oferta de actividades interessantes e originais ligadas ao livro, não haverá condições de promoção da leitura num país.

Porém, sem frequência de leitura não há capacidade de literacia, ou o seu desenvolvimento é muito incipiente. Para que aumentemos a nossa capacidade de lidar com informações escritas, capacidade esta directamente relacionada com o progresso e com o nível de desenvolvimento de um país, é necessário que possamos ler na escola, na rua e em casa, porque cada um destes espaços privilegia funções diferentes da leitura e da escrita; que possamos ler em todas as disciplinas, porque cada uma destas privilegia determinado tipo de textos, que impõem uma estratégia própria de leitura; e que possamos ler em suportes de leitura diversificados (livro, revista, jornal, agenda cultural, publicidade, folheto informativo, formulário, correio, calendário, horário, vídeo-clip, teletexto, suporte multimedia, etc.), porque cada um deles tem características próprias que precisamos de saber descodificar e uma estrutura peculiar que o configura como um todo coerente.

Logo, o professor não pode cruzar os braços, ainda que a tarefa de pôr os alunos a ler se afigure, à partida, muito complexa, por não se conhecerem ainda os gostos pessoais de cada um deles, por quase nunca haver tempo curricular suficiente para dedicar a esta actividade, por não se saber que livros escolher e por grande parte dos estudantes parecer até desdenhar a ideia de uma simples ida à biblioteca. A necessidade de pôr os alunos a ler também não deve ser preocupação exclusiva do professor de Português, tem que ser um projecto de toda a comunidade escolar. Acções pontuais podem ser muito meritórias, mas sem solução de continuidade podem não ser muito eficazes.

Assim, constatadas estas evidências, parece importante continuar a reflectir sobre o tipo de literatura que mais possibilidades terá de captar a atenção do público juvenil que frequenta o ensino básico, sobre actividades de dinamização de bibliotecas escolares e, também, sobre a importância da Internet, que leva igualmente o aluno a ler e/ou sugere actividades que se prendem com a leitura e com o estudo de múltiplas temáticas relacionadas com as várias disciplinas e com o estudo das línguas.

Literatura dirigida a um público de cariz juvenil

Embora sabendo que não existem receitas milagrosas eficazes em todas as circunstâncias, é relativamente consensual que determinados temas são mais adequados e mais motivadores para certas idades que outros. Por isso, distinguiremos dois tipos de público-alvo, o público infantil (que abarca a faixa etária dos 8 aos 12 anos) e o público juvenil, que inclui os jovens de faixa etária seguinte (dos 12 aos 16 anos). Adequados ao público infantil eis alguns temas como os que a seguir se enumeram:

· Contos:

- Contos e lendas. Contos tradicionais e fábulas.
- História e mitologia.

· Descoberta do mundo:

- Continentes e países. Serão sempre interessantes livros que mostrem e falem de povos diferentes do nosso, com hábitos e costumes diversos, com diferentes formas de se alimentarem, vestirem, viverem, etc.
- Meio-ambiente. Sobretudo livros que sensibilizam para a necessidade de preservação do ambiente, que alertem para o problema global da poluição do planeta e a excessiva exploração dos recursos naturais. Importância da separação e reciclagem do lixo.
- Floresta. A importância da floresta como recurso natural e como “pulmão” da humanidade.
- Mar. Riqueza e diversidade do mundo mineral, vegetal e animal.
- Natureza. Livros sobre o equilíbrio e a perfeição das maravilhas naturais que nos rodeiam. A importância da preservação da Natureza.
- Neve. A montanha, a neve, a vegetação, os animais e os desportos de Inverno.
- A aldeia. A vida rural em oposição à vida urbana.
- Viagens. Livros sobre paragens distantes e exóticas.
· Coisas da vida:

- Tolerância, solidariedade, generosidade. Em suma, literatura sobre valores universais.
- Adolescência. Problemas mais recorrentes nesta etapa.
- Amizade. Laços entre as pessoas. Interacção e colaboração.
- Pesadelos / medos. Desmistificação do medo e das suas causas.
- Coragem. Actos heróicos louváveis e bem sucedidos.
- Cozinha. Receitas de culinária simples e acessíveis.
- Escola. O primeiro dia de aulas, iniciativas interessantes na escola – jornal, teatro, clube de ecologia, por ex., visitas de estudo, etc.
- Educação cívica.
- Guerra / paz. O conflito e possibilidades da sua resolução.
- Casa. O lar como espaço familiar aconchegante e protector. Ou não.
- Natal / Páscoa. Celebrações e tradições.
- Praia. Desportos aquáticos e cuidados a ter com o mar e com o Sol.
- Os avós, os primos, a família.
- Tempo atmosférico e estações do ano.
- Férias.
- Vida quotidiana. Os transportes, as refeições, a ida ao médico, às compras, lazer, etc.

· Despertar para a vida:

- Actividades manuais.
- Cores.
- Adivinhas
- Jogos.
- Música, canções, etc.

· BD.

· Teatro.

· Poesia.

Para o público juvenil, que corresponde à faixa etária seguinte à do público infantil, incluindo os jovens dos 12 aos 16 anos, serão aconselhados os seguintes tipos de texto:

· Biografias e memórias
(de personalidades históricas, de pessoas exemplares e singulares)

· Saúde, mente e corpo
(alcool, tabagismo, nutrição, desordens alimentares, sexualidade, auto-estima, imagem corporal, etc.).

· História e ficção histórica.

· Literatura e ficção
(aventura, clássicos, amor, poesia, textos dramáticos, contos, novelas e romances).

· Religião e espiritualidade.

· Escola e Desporto.

· Séries e colecções
(tendo sempre em vista os valores e a formação do carácter).

· Temas sociais
(a morte, a vida, a família, a violência, etc.).

Actividades de dinamização de bibliotecas escolares

Serão funções ou finalidades da biblioteca escolar, entre outras, as seguintes:

· “apoiar a realização do projecto Educativo e do Plano de Actividades da Escola”;

· “dar resposta às solicitações impostas pelos programas”;

· “facultar documentos para as aulas”;

· “desenvolver actividades informativas / formativas”;

· “favorecer a construção da aprendizagem e a interacção / actualização constante de saberes”;

· “dotar os alunos de capacidades que lhes permitam recorrer à maior quantidade possível de informação e facilitar-lhes esse recurso”;

· “promover actividades de motivação e preparação pare a leitura”.

Para que a biblioteca escolar possa convenientemente cumprir todas estas finalidades é necessário que reúna um conjunto de condições. Primeiro, torna-se óbvia a necessidade de que a biblioteca disponha de um orçamento próprio, destinado a cobrir despesas de formação do pessoal que nela trabalha, de aquisição de material documental em suporte papel ou multimedia e de organização de iniciativas.

Segundo, é claro que a tarefa de organizar e dinamizar a biblioteca não pode ser apenas da responsabilidade de um docente ou vários a tempo parcial, sendo de todo recomendável recorrer-se a um docente a tempo integral e a funcionários com preparação / formação específica para desempenharem as funções consignadas à biblioteca.

Em terceiro lugar, é evidente que valorizar a função da biblioteca no processo de ensino / aprendizagem tem que ser um objectivo empenhadamente assumido por toda a comunidade escolar, em particular pelas Direcções das escolas, pelo Conselho Pedagógico, pelos Departamentos, pelos Professores de todas as disciplinas e até, como refere Lino Moreira da Silva, por “Núcleos de Apoio à Biblioteca” (Clube de Amigos da Biblioteca, Serviço de Perguntas – Respostas e Núcleo de Apoio ao Tratamento de Documentos).

Por último, não podemos deixar de referir, além da importância da cooperação intraescolar, a importância da colaboração interescolar e interbibliotecas, para que possa haver intercâmbio de experiências e para facilitar a dinamização de exposições temáticas, itinerantes, etc.

Passemos, então, agora, à enumeração de algumas iniciativas e actividades de dinamização da biblioteca escolar, que não devem ser esporádicas e pontuais, mas devem inserir-se num programa organizado (com especificação de objectivos, metodologia, calendarização, intervenientes e avaliação). Seguirei de muito perto e, fundamentalmente, as propostas de Lino Moreira da Silva, Maria Elisa Sousa e Beatriz Prado.

Iniciativas de dinamização da biblioteca escolar:

· Apoiar o Projecto Educativo e o Plano de Actividades da Escola, bem como as actividades da Área Escola. A biblioteca deve ser um interveniente activo e dinâmico nestes projectos, não só disponibilizando bibliografia geral e específica, como organizando actividades e iniciativas afins.
· Aproveitamento inovador dos expositores da biblioteca. Estes não têm que, obrigatoriamente, estar fixos. O bibliotecário pode, de tempos a tempos, mudar a sua localização e até colocá-los, em determinados momentos, em sítios estratégicos da escola. Nestes poderão aparecer as novidades, as actividades previstas, notícias de actividades culturais locais, informação sobre programas formativos nos meios de comunicação social, etc. Para uma maior articulação entre a sala de aula e a biblioteca, nas aulas de Estudo Acompanhado, por exemplo, os docentes responsáveis poderiam abordar os assuntos mencionados nos expositores. No caso de não ser possível mover os expositores ou de essa hipótese ser inviável, deve circular com uma certa periodicidade o boletim informativo da biblioteca. Este poderá ser lido por cada Director de turma na sala de aula e incluirá as novidades, as recomendações, as iniciativas previstas e outras informações que se considerarem pertinentes.

· Realização de exposições temáticas. Entre outros temas possíveis, poderíamos citar: leitura de contos, temas de ecologia, saúde, alimentação, poluição, tabagismo, energias alternativas, reflexões sobre os valores humanos, sobre a infância, etc. É sempre muito interessante organizar estas iniciativas em colaboração com as disciplinas que estão a abordar estes conteúdos temáticos, bem como convidar alguém que venha falar sobre o tema. Também pode ser muito produtiva a organização de debates sobre a mesma temática.

· Sessões de trabalho sobre a biblioteca. Em colaboração com os Directores de Turma ou com os docentes dos várias disciplinas (nomeadamente Estudo Acompanhado), o bibliotecário pode organizar sessões curtas sobre o funcionamento da biblioteca, com o objectivo de explicar a organização da biblioteca, a forma de catalogação do acervo, o modo como se consulta um ficheiro, a arrumação dos documentos nas estantes, as regras de funcionamento, etc. Esta iniciativa poderia ser complementada com um debate sobre temas afins, por exemplo: a importância da biblioteca escolar, o seu modo de funcionamento, o tipo de documentação mais pertinente, sistema de requisições e de empréstimo domiciliário, direitos e deveres do leitor, sugestões para melhorar o funcionamento da biblioteca, etc. Estes debates devem terminar com o preenchimento de um questionário curto e simples, o que permitirá uma recolha de dados para posterior tratamento.

· Sessão de trabalho sobre “O que fazer com um livro”. Podem organizar-se sessões de trabalho sobre o livro, isto é, como é constituído um livro; como se consulta; a importância do índice, do prefácio, da introdução, das conclusões parciais e das conclusões finais, da tomada de apontamentos e da reflexão sobre o que se recolheu como forma de estruturar a aprendizagem; como se faz uma citação e como se faz uma bibliografia.

· Sessões de trabalho diversas, nomeadamente, tipos de documentos existentes na biblioteca, como consultar obras de referência, como fazer uma pesquisa, como consultar um CD interactivo, como procurar um endereço electrónico, como navegar na Internet, etc.

· Celebração de dias nacionais / internacionais. Podem promover-se iniciativas relacionadas com estes dias, por exemplo, exposições sobre o dia do Livro, da Música, da Criança, da Árvore, e outros. Estas iniciativas deverão ser promovidas pela biblioteca em estreita colaboração com os docentes das várias disciplinas mais directamente ligadas a estas temáticas.

· Dinamização de clubes de leitura. Estes podem funcionar de diversas formas.

- Em primeiro lugar cativam-se os alunos para a constituição de um clube de leitura. Esta abordagem inicial pode ser feita pelo docente de Português (ou de Estudo Acompanhado) em cada uma dos suas turmas. Em data a acordar, os voluntários devem reunir-se na biblioteca com o professor bibliotecário a fim de se inscreverem (com direito a cartão de sócio) e de organizarem os seus próprios estatutos.

- Com o clube formado, e depois de programação da calendarização, pode propor-se a leitura de um mesmo livro (a biblioteca terá que possuir vários exemplares) a todos os membros do clube. Após isto, estes organizam-se em grupos / equipas e elaboram uma série de questões sobre o livro em causa. Proceder-se-á, por fim, ao concurso de perguntas-respostas. Ganhará a equipa que responder a um maior número de questões.

- Para a última etapa pode convidar-se o(a) autor(a) e/ou o(a) ilustrador(a) do livro que se leu e trabalhou e antes do concurso pode haver uma breve palestra, que permitirá um contacto directo entre ambas as partes. Para concluir pode-se produzir um artigo escrito para publicar no jornal escolar.

· Organização de dossiers temáticos. Na biblioteca estarão à disposição dos alunos dossiers temáticos, organizados pelos professores das disciplinas, que incluirão toda a documentação suplementar que os docentes e o bibliotecário consigam reunir. Trata-se de dossiers de consulta para aprofundamento do conteúdo ou para elaboração de trabalhos.

· Sessão sobre “Um livro que não esqueci”. Pode convidar-se um docente ou um aluno da escola ou de uma outra escola, um encarregado de educação, um familiar de um aluno, uma personalidade local, etc., para vir falar de um livro que particularmente o(a) marcou e para motivar os alunos para a sua leitura. Deve providenciar-se para que haja alguns exemplares disponíveis na biblioteca, expostos em local bem visível.

· Colaboração com o jornal escolar. A biblioteca pode e deve ter um espaço próprio neste meio de comunicação para divulgar novidades, iniciativas, ou sugerir novas pistas para cimentar e aprofundar o gosto pelos livros.

· Publicitação de frases sugestivas, relacionadas com o livro ou com a leitura. O bibliotecário e/ou o clube de leitura podem produzir periodicamente frases sugestivas que serão escritas em caracteres chamativos e afixadas em locais estratégicos da escola. Na própria biblioteca deve existir um cofre ou cesto mágicos, um espaço onde professores e alunos podem ir buscar (levando para casa e partilhando…) textinhos com contos, com lindos pensamentos, pequenos documentos que, de uma forma ou de outra, nos ajudem a construir um mundo melhor. Exemplos: “Que livro estás a ler?”; “Enquanto esperas pelo autocarro, experimenta ler um livro!”; “Ler ajuda-te a crescer.”; “Que assuntos te interessam mais? Sabes que há livros na biblioteca sobre isso?”; “Já experimentaste o prazer de ler?” ;“Vem à biblioteca comunicar em Inglês!”; “Consegues comunicar em Francês? Vem à biblioteca experimentar!”; “Viaja até ... Londres, Nova Iorque, Paris, etc.”; “Queres fazer um amigo francês, inglês, português? Vem até à biblioteca conhecê-lo!”; “Descobre os livros de António Mota!”; “Vem participar numa hora do conto!

· Outras actividades na biblioteca:

- Preparação de visitas de estudo.

- Realização de feiras do livro.

- Exposição de trabalhos realizados por alunos, que ficarão arquivados na Biblioteca. Cada turma poderá visitar a exposição com o seu Director de Turma.

- Organização de sessões de contos, declamação de poesia, acompanhadas por uma exposição sobre a biografia do autor e das suas restantes obras. Se os textos escolhidos não são só de um autor, pode-se fazer uma exposição de outros textos de outros autores que complementem a temática seleccionada.

- Iniciativas sobre “o livro temático”, da literatura portuguesa, francesa, inglesa, sobre o livro da semana, acompanhados de uma ficha de leitura e/ou de um comentário crítico.

- A oficina do meio ambiente / reciclagem de materiais. Exposição temática, seguida de fórum de discussão sobre o tema. A concluir o ciclo sobre o meio ambiente poderiam organizar-se actividades de reciclagem, em colaboração com as disciplinas de Ciências da Natureza e Educação Visual e Tecnológica.

- Promoção da Oficina do conto. Trata-se da transmissão oral de contos seleccionados. Pode ser uma iniciativa de cooperação interescolar, inclusive de diferentes ciclos de ensino, dado que podem e devem ser os alunos a fazer a apresentação das narrativas. Pode haver também intercâmbio entre um grupo de instituições.

- “Chá com livros”. Esta iniciativa poderá ser muito interessante se reunir professores de diferentes disciplinas e alunos. Trata-se de uma reunião informal, em que os participantes, enquanto tomam chá, falam de um livro que leram ou que estão a ler. Claro que pode ser um livro sobre qualquer temática e não tem que ser um texto literário.

- Organização periódica da “caixa biblioteca”. Trata-se de uma caixa com cerca de uma dúzia de livros de tipos e temas muito diferentes entre si, que circulará com alguma periodicidade dentro da sala de aula, levada por um docente. Durante algum tempo pode mostrar-se o conteúdo da caixa e o objectivo é motivar os alunos para a sua manipulação e posterior requisição.

- O clube de vídeo. Projecção semanal de um vídeo seleccionado. Em cada semana, expor todo o material disponível sobre o tema ou o filme. Para que seja eficaz, convém fazer uma planificação a médio prazo, por exemplo por período ou mensal.

- Tudo o que dissemos atrás é, obviamente, válido também para as bibliotecas do 1° CEB, quando elas existem; no entanto, temos consciência de que algumas iniciativas são mais viáveis noutros ciclos de ensino. Especificamente para o 1° CEB poderão ser muito interessantes as actividades de promoção da leitura que referiremos a seguir:

- Mostrar, deixar manipular e observar livros, sem constrangimentos de qualquer espécie, deixando que os alunos se guiem pelos seus próprios gostos e interesses.

- Criar na Biblioteca Escolar ou na sala de aula um espaço especial de leitura.

- Organizar o dia ou a hora do conto ou da poesia.

- Promover a leitura integral de um livro que privilegie sempre a formação do carácter.

- Dinamizar concursos de leitura de vários tipos de texto, por exemplo, trava-línguas, adivinhas, anedotas, poemas, textos narrativos, etc.

- Organizar oficinas de transformação de contos tradicionais, misturando personagens de vários contos, mudando o sexo dos personagens principais, alterando tempos e espaços, introduzindo um final diferente, etc.

- Convidar escritores e ilustradores de literatura para a infância.

- Visitar com os alunos bibliotecas públicas ou municipais.

Portais / sítios na Internet de interesse pedagógico

Actualmente, as previsões divergem em relação à evolução do suporte mais tradicional de leitura, o livro. Os partidários incondicionais das novas tecnologias da informação e comunicação defendem que o livro e todos os serviços em papel, como nós os conhecemos hoje, têm tendência a desaparecer de forma gradual. As previsões dos mais conservadores e nostálgicos apostam na continuidade do livro em suporte papel, porque crêem que, mesmo que a partir deste momento deixasse de ser produzido, teríamos sempre todo um legado do passado impossível de ignorar.

Porém, ainda que nos queiramos manter à margem desta questão, não podemos olvidar certos factos, nomeadamente a existência de outros suportes electrónicos fortemente concorrenciais, alguns já uma realidade e outros em estudo, como os livros digitais, o Softbook, o E‑book, o Rocket e Book, o papel electrónico ou papel digital e ainda a miniaturização dos computadores, que permite a criação do PC de bolso.

Concluímos, portanto, que a atitude mais sensata será não deixar de conferir importância ao livro impresso e aos documentos em suporte papel, porque têm todo um peso milenar de tradição, mas também não ignorar por completo os novos suportes de leitura, que estão progressivamente mais generalizados, mais acessíveis e que são cada vez mais procurados por quem tem necessidade de obter informação. Daí a importância que se concede hoje à utilização da Internet na biblioteca, escolar, municipal ou pública, por professores e alunos.

Assim, passaremos, primeiro, à enumeração de alguns motores de busca / portais gerais e, em seguida, faremos referência a alguns motores de busca / portais e sítios considerados de interesse para as disciplinas de Português, Francês e Inglês e ainda para o 1° CEB.

Portais Gerais

· http://www.busca.online.pt/
Para encontrar todos os motores de busca / portais disponíveis. Podemos aceder directamente a um consultório de língua portuguesa; para ir directamente para lá o endereço é: http://www.portugues.online.pt/
· Exemplos de motores de busca / portais:
- Aeiou, Altavista, Clix, Cusco, Eusei.com, Excite, Galileu, Gertrudes, Google, Hotbot, IOL, Iupi, Lusitano, Netc, Netlndex, Novidadesl, Portal Busca, Pt-link, Real Busca, Sapo, Terravista, Voilà, Yahoo.

· Em destaque:
- http://www.aeiou.pt/ ( Entrar no directório Arte e Cultura, sub-directório Literatura e, a seguir, Vidas e obras de…).
- http://www.google.com/
- http://www.voila.fr/
- http://www.sapo.pt/ (Pesquisar no directório Ensino e Investigação – “crianças”. Ver sítio “especiais” que aponta para sítios temáticos)
- www.clix.pt (Neste motor de busca vide o portal sobre Educação: http://directorio.clix.pt/directorio/EDUCACAO/index.php3)
- http://www.terravista.pt/ (www.terravista.pt/index.html Pesquisar no directório Educação).
- http://about.com/education/ (É um portal temático sobre educação contínua, primária, secundária e universitária.)
- www.educared.net (Trata-se de um portal para a educação, em espanhol. Seleccione “Recursos Didácticos” e TI Buscador Educativo”.)
- http://www.educare.pt/ (É o portal do Porto Editora.)
- http://www.educncional.com.br/ (Um interessantíssimo portal brasileiro sobre educação.)
- http://iep.uminho.pt/mjoao/links/Recursos.html (Esta página e a seguinte são muito importantes, pois disponibilizam ligações para sítios de interesse para professores, alunos e pais.)
- www.linguaestrangeira.pro.br/ (Portal sobre línguas estrangeiras.) http://www.netindex.pt/links/EDUCACAO/MATERIAL (Esta página disponibiliza ligações para sítios muito interessantes de material escolar.)

Língua Portuguesa

· http://www.iie.min-edu.pt/ (Este portal é do Instituto de Inovação Educacional e deveria ser visitado frequentemente pelos professores de todas as disciplinas e pelos alunos. Na página principal -home page- pesquisar Sites, Educação.)
· http://www.instituto-camoes.pt/ (Ver, sobretudo: Centro Virtual Camões (CVC), - pesquisar todos os directórios - Ensinar Português, Culturas de Língua Portuguesa, Biblioteca Breve e Exposições Virtuais.)
· www.app.pt (Portal da Associação de Professores de Português. E todo ele muito interessante. Permite o acesso ao sumário de todos os números da revista Palavras. Pesquisar: Sábados Culturais, Recursos Educativos e Ligações.)
· www.bn.pt (Portal da Biblioteca Nacional. Na home page, visitar o directório Apresentação e, depois, Exposições Virtuais e Sites Temáticos - Eça de Queirós.)
· www.ipn.pt/literatura/ (Esta é a maior base de dados sobre literatura portuguesa. A destacar: 1. No página principal há um directório para fazer downlond de ebooks grátis; 2. Há outro sobre um curso de literatura em CD-ROM para encomendar. Destina-se ao ensino básico e secundário; 3. Letras e Letras, novos sítios na INTERNET sobre livros ou literatura; 4. Outras Ligações. Trata-se de um sem número de endereços electrónicos sobre o temo a pesquisar; 5. Interessam ainda todos os directórios sobre Literatura, Medieval, Clássica, Barroca, Neoclássica, Romântica, Pós-Romântica, Correntes do séc.xx.)
· www.ciberduvidas.com (Destacam-se os directórios: Ligações, sítios de “Literatura Portuguesa” e “temas de cultura”, e Glossário.)
· www.gulbenkian.pt (Para ter conhecimento das iniciativas e das exposições ver directório Agenda.)
· www.ciberkiosk.pt/ ou www.ciberkiosk.pt/apresentaçao.html (Trata-se de um importante portal sobre estudos literários, crítica e recensões dos últimos títulos aparecidos no mercado livreiro.)
· www.todososlivros.pt/ (É um portal sobre crítica e novidades literárias.)
· web.rccn.net/camoes/ (É um portal só sobre Luís Voz de Camões. Nele pode ser consultada todo a sua obra.)
· www.terravista.pt/Enseada/5066 (Sítio português sobre poesia universal. Abrange os seguintes períodos: da Antiguidade ao Renascimento, do Renascimento ao Romantismo, do Romantismo no Séc. XX e Séc. XXI. Apenas encontramos textos poéticos traduzidos.)
· www.terravista.pt/mussulo/1917/ (Trata-se de um portal só sobre poesia.)
· www.elefante-editores.co.pt/ (Trata-se de um portal sobre poesia em língua portuguesa.)
· www.brasil.terravista.pt/claridade/3926 (Este sítio é um consultório de língua portuguesa.)
· www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html (Trata-se de um sítio brasileiro sobre poesia.)
· educom.sce.fct.unl.pt/proj/por-mares/ (Este é um portal educativo sobre os séculos XV e XVI, incidindo sobre os Descobrimentos. Inclui um directório sobre “Rotas Literárias”, outro sobre “Rotas Históricas” e outros sobre “Rotos Filosóficas”, “Artísticas”, “das Ciências”, etc.)
· www.linguaestrangeira.pro.br/sitedeportugues/index.htm (Trata-se de um importante portal brasileiro sobre língua portuguesa)

Língua Francesa

· www.terravista.pt/Enseada/2688/frances.htm (Este portal apresenta todos os endereços interessantes para o estudo da língua francesa).

Em destaque:
· CIicNet: www.swarthmore.edu/Humanities/clicnet (Ver o directório: Français langue étrangère et langue seconde - “sommaire”).
· CNDP – Centre National de Documentation Pédagogique : www.cndp.fr/default.htm (Aqui consultar: Le Réseau CNDP - International-, Pédagogie au quotidien - “Ecole”, “Commmunication - échanges”, “Avec les élèves”, “Découvrir et rencontrer des classes en ligne”, “Correspondre ou colaborer avec d'autres élèves “, “Ressources pour la classe” - e EduClic - sítios sobre vários temas, ver em especial Domaines, disciplines et filiaires - todos os níveis de ensino).
· www.fle.fr (Escolher a língua francesa. Abrir e ver. Listagem de instituições de ensino superior que oferecem formação a vários níveis em Francês - L.E. -, inclusive estágios pedagógicos. Na home page ver os directórios Ressources FLE e Cartable connecté. Neste último devem-se abrir todos os sítios porque todos são interessantes e trazem endereços muito úteis. Destaco: www.fle.fr/ressources/classe.html)
· Webencyclo.com: www.webencyclo.com/home/homeactu.aspl (É um portal muito importante, pois permite-nos ter acesso a uma enciclopédia actualizado e a dossiers temáticos da actualidade francesa e internacional. Se nos inscrevermos – gratuitamente – seremos informados por e-mail de todas as actualizações e das novidades).
· Educaweb. http://www.lire-francais.com/ (Neste portal encontramos exercícios de leitura, compreensão e gramática.)
· Lettres. Net: www.lettres.net/ (Neste portal ver com atenção os directórios La Porte des Lettres, Sites des Profs., Un Annuaire de Sites Educatifs, Lexique de Termes Littéraires e Des pistes de Lecture ). Este portal dá acesso a outros, nomeadamente a
· Avec yahoo! Suivez l'actualité théâtrale, du livre et de l'éducation: http://fr.fc.yahoo.com/e/education.html
· Premiers pas sur Internet: www.momes.net/ (Para pequeninos francófonos e para tirar ideias para o 1° CEB).
· Presse-École: www.presse-ecole.com/ (Portal muito interessante para quem quer criar um jornal escolar).
· http://www.bnf.fr/ (Este portal é da biblioteca François Mitterrand).
· Agrupamentos de instituições – Espace Universitaire Albert Camus: http://www.fle.fr/
· Recursos linguísticos:
- Dictionnaire de la Francophonie: www.francophonie.hachettelivre.fr./
- Dictionnaire de l'Académie française: www.epas.utoronto.ca:8080/wulfric/academie

Língua Inglesa

· www.yahoo.com/ (Abrir no directório “Education”.)
· www.yahoo.com/Arts/Humanities/Literature/Criticism_and_Theory/ (trata-se de um sítio sobre teoria literária.)
· http://www.education-world.com/ (Destaco todos os directórios da página principal.)
· www.rendin.org/ (Neste portal saliento dois directórios - home page - “Just for K-12 Readers” e “Support Materials for Class”.)
· www.thelivingletters.com/ (Portal para crianças até aos 12 anos. Tem jogos simples e textos simples.)
· http://www.surfnetkids.com/ (Trata-se do portal de Barbara Feldman. Ajuda a orientar a navegação de crianças na Internet.)
· http://www.ncbe.gwu.edu/ (Na página principal destaco os Directórios “Language & Education Links” e “In the Classroom”.)
· www.ilovelanguages.com/ (Neste portal destaco os directórios “How To Teach English With Fun and Games” - http://www.eslgames.com/edutainment/#redirect )
· www.terravista.pt/aguaalto/2779 (Neste portal encontramos regras gramaticais, lista de verbos, exercícios, utilidades e ligações.)
· http://grammarnet.superzip.net/ (Trata-se de um importante portal só sobre gramática. Tem múltiplos exemplos.)
· ccc.commnet.edu/grammar/ (Sítio sobre gramática inglesa.)
· polyglot.lss.wisc.edu/Iss/lang/teach.html (Trata-se de um sítio sobre o ensino de línguas estrangeiras.)
· http://www.theenglishoffice.com.br/
· www.eslcafe.com/ (É um sítio muito interessante para docentes e alunos, pois permite o acesso a material pedagógico.)
· www.aitech.ac.jp/-iteslj/quizzes/
· esl.nbout.com/
· www.aitech.ac.jp/-iteslj/ESL3.html (Este sítio disponibiliza endereços para estudantes, docentes e novidades.)
· onelook.com/ (É um sítio que disponibiliza dicionários.)
· http://www.englishtown.com/ (É um sítio de uma escola de Inglês online.)
· www.acronymfinder.com/ (Sítio sobre abreviaturas e siglas.)

1° Ciclo do Ensino Básico
· http://www.iie.min-edu.pt/
· http://www.app.pt/
· www.ciberduvidas.com/
· www.ipn.pt/literatura/infantil/links.htm (Trata-se de um importantíssimo portal de ligações para páginas sobre literatura infantil.)
· www.iie.min-edu.pt/ (Na página principal deste portal entrar no directório “Sites”. Aqui entrar sucessivamente em: “Para Alunos”, “Cidade da Malta” - http://www.cidndedamalta.pt/- e “Sítio dos Miúdos” - www.sitiodosmiudos.pt/ )
· www.infancia.net (Sítio importante para crianças do mundo latino. Serve para o professor tirar ideias de actividades a desenvolver com alunos desta faixa etária.)
· www.momes.net/education/index.html (Trata-se de um portal muito importante com actividades para crianças até aos 12 anos de idade. Na página principal destaco: “Jeux à Imprimer”, “Lecture”, “Lecture et Littérature »: todo este directório é muito importante, sobretudo, “Association Française pour la Lecture”, “L'Association” e “Revue: Les Actes de Lecture”.)

O gene da leitura - Maria Almira Soares

Maria Almira Soares
Como motivar para a leitura
Lisboa, Ed. Presença, 2003
Excertos adaptados



Existirá? Haverá um gene da leitura? Será o gosto da leitura de ordem genética? Estará no nosso corpo o desejo de ler e a satisfação com a leitura? Há leitores analfabetos. Há gente que não sabe ler, mas tem em si o gosto de ler. O Amor de Perdição era nacionalmente conhecido e querido num país cuja taxa de analfabetismo rondava os 90%. Não possuíam a técnica, mas como tinham o gosto, pediam-no emprestado a quem o tinha e tornavam-se leitores pelos ouvidos. Hoje ainda há gente que tem todo o perfil do bom leitor, mas, como não sabe ou mal sabe ler, não pode ler. Será a leitura uma aquisição meramente social, cultural?

O que é um leitor? Pode ter-se adquirido a técnica da leitura, que é oficialmente obrigatória, e não se ser leitor. Os números das estatísticas estão à vista e comprovam-no. Pode, por outro lado, não se ter essa técnica e ser-se um leitor impotente…Como é ser-se leitor? É gostar de se achegar ao aconchego de uma boa história generosamente dada pela faculdade das palavras; é gostar de gastar os olhos nas letrinhas do jornal, molhar os dedos para lhes soltar as folhas; estreitar a vista coluna acima, coluna abaixo, perder-se na busca da continuação.

Ser leitor é: gostar de estar sossegado e só esforçar os olhos e a cabeça para ficar a saber coisas que, magicamente, sem pincéis nem tinta, têm cor e forma e, sem projector, têm movimento; é ser-se curioso, e gostar de seguir roteiros e de encontrar respostas; é ser infantil na abertura à fantasia e adulto no jogo dos sonhos escondidos; é o gosto da intriga, do enredo, da novidade e da descoberta; é o gosto dos nomes, das referências, das frases bem-dizentes; o gosto das palavras bem-soantes; o gosto da fuga, de ultrapassar o real pela fuga e lhe fazer uma espera mais à frente, já ficticiamente senhor das suas estratégias.

Ideal é que o ensino da técnica garanta a realização do desejo. Mas o desejo, esse, não se ensina. Provoca-se. Desperta-se. Pro­voca-se a curiosidade, proporciona-se o agrado com o efeito de surpresa. Faz-se com que ler seja acontecer. A escola pode ser um lugar onde, enquanto se ensina o ler, se desperta a fantasia. O tempo e o modo de ler podem ser vividos na escola como quem aviva um desejo, um fogo que velaremos ao abrigo das coisas da vida que tendem a apagá-lo, fazendo dos livros um espaço pessoal de liberdade, aprendendo que ninguém está no espaço incolor em que as histórias que lemos se tornam reais, senão nós. Só se quisermos e quando quisermos o partilhamos.

A escola pode ensi­nar que ler é uma porta que se abre, um acesso, uma entrada; que, quando alguém abre um livro e se põe a ler, como que fica intocável. Mas não só a escola. Desejável é que aqueles que parecem geneticamente mais dados à leitura contrariem a tendência social para ler pouco, peguem ostensivamente em livros, jun­tem dinheiro para comprar livros, a prestações, se for preciso, como fazem com outros bens; em segredo primeiro, se tiverem vergonha, e, depois, à vista de todos, causem o escândalo da leitura, numa sociedade que não lê, e, depois, talvez, o respeito.

Se não há um gene da leitura reconhecível num exame médico, que se garanta, pelo menos, meios de transmissão social: a escola, e todos os que gostam de ler. Que ninguém diga: quem não quer ler que não leia, colocando no mesmo leque de opções coisas ontologicamente distintas. Pasmoso é o esforço insano que fazem as escolas para desenvolverem práticas, às vezes espantosas, e espantoso é que ninguém se lembre da hipótese de haver nelas coisas como, por exemplo, a Leitura ao Fim da Tarde.

Ler já foi uma arma da adolescência. Esta perdeu-a, mas deve re­cuperá-la. A leitura já foi um espaço de mudez-surdez, tão caro aos adolescentes, habitado por sonhos e ousadias; era um espaço de imobilidade pesada, atirada contra a presteza e prontidão dos adultos; era um espaço de atraso e de demora, de desculpa, de teimosia, de ultrapassagem subterrânea dos legítimos superiores.

Hoje, o adolescente não suspeita de quão estrategicamente útil lhe poderia ser a leitura, e foge a desgastar-se noutras andanças. Há um vazio imenso a fingir que é movimento e alta voz. Ler não é uma actividade essencialmente grupal, mas garante ao grupo a existência do indivíduo. Um grupo não é só uma coincidência de gente na mesma escola, na mesma rua, na mesma praia, na mesma discoteca. Não é apenas uma simultaneidade.

No equilíbrio das forças que sustentam um grupo tem de haver um lugar para a distância, para a pertença a si próprio. A lei­tura é um elo que nos solda a alguma coisa de sólido que vai havendo em nós, enquanto a diversidade nos interpela, ao som de uma voz pública que nos pretende ditar, como se fôssemos só uma folha branca onde nos vão inscrevendo. Porque ler é também rejeitar, revelar, identificar, abrir, descobrir.

É muito provável que não haja o gene da leitura, mas tem de haver a educação para a leitura, como imperativo de uma cultura humanista.

Os pais e a aprendizagem da leitura dos filhos

Josette Jolibert
Formar crianças leitoras
Porto, Ed. Asa, 2003

Excertos adaptados


Não são fáceis as relações com os pais dos alunos quando modificamos em profundidade as nossas práticas pedagógicas.

A par de alguns pais informados, disponíveis para a inovação, e de pais que confiam na escola como meio de promoção possível para os seus filhos, a maioria, no entanto, mostra-se angustiada perante a incerteza das perspectivas do futuro escolar e profissional dos filhos, sentem-se desconcertados pelos «métodos modernos», para os quais não têm as referências do seu próprio passado escolar, e inquietos com a tolerância excessiva desta nova escola, onde «as crianças só fazem o que querem», onde «apenas brincam».

E não é por acaso que o processo de aprendizagem da leitura é um dos pontos de cristalização destas inquietações. Os pais sabem perfeitamente que o domínio do ler/escrever é um dos factores determinantes do sucesso ou insucesso escolares. Além disso, muitos deles consideram simultaneamente como seu dever e prazer «mandar ler» os filhos à noite, em casa.

Se já não há livro de leitura para «rever os sons» do dia, para tornar a ler a página que foi lida de manhã na aula, então o que fazer? Se não se lê em voz alta, sílaba a sílaba, então como proceder? A pior das «soluções» consiste em comprar um manual e mandar fazer aos filhos, à noite, em casa, o contrário do que eles fizeram durante o dia na escola: ler em voz alta e silabar.

Também é preciso reconhecer que, muitas vezes, falta segurança aos professores que tentam transformar a sua prática pedagógica. Por isso, hesitam em enfrentar certas situações, como as críticas dos pais, e adoptam atitudes agressivas ou defensivas. Ora, se os professores se retirarem para a sua torre de marfim, mesmo que seja experimental, não estão a favorecer nem as crianças, nem os pais, nem os próprios professores. Este procedimento só faz aumentar as incompreensões entre adultos e as contradições em que se encontram as crianças.

Além disto, os pedidos dos pais, mesmo quando são feitos com agressividade, parecem-nos legítimos: eles não estão «a meter foice em seara alheia», estão a desempenhar o seu papel de pais. Quando verificamos quanto uma colaboração entre pais e professores, mesmo conflituosa, o que é normal, pode ajudar as crianças aprendizes de leitores, sentimos crescer a vontade deliberada e tenaz de criar as condições para uma co-educação construtiva.

Surge então a questão: que podemos fazer com os pais, para eles ajudarem os filhos na abordagem da leitura?

Pais informados

É legítimo que os pais queiram compreender «porque é que já não se ensina a ler como dantes». Propomos-lhes, então, vários tipos de reuniões de trabalho.

No início de cada ano, fazemos uma apresentação do nosso processo de trabalho nos mesmos locais onde ele decorreu no ano anterior e onde podem ser observados alguns aspectos desse mesmo trabalho: a arrumação da sala em cantos, os primeiros projectos e primeiras distribuições de tarefas afixadas nas paredes, os primeiros escritos, etc. Falamos das estratégias de leitura, que não passam nem pela leitura em voz alta nem pela decifração. Tentamos esclarecê-los o melhor possível, sem utilizar a nossa gíria pedagógica, procurando não monopolizar a palavra, a fim de que os pais possam falar e trocar opiniões entre si.

Mas sabemos bem, por experiência própria, que nada é mais difícil de compreender do que a afirmação «aprender a ler não é aprender a decifrar». Por esta razão, propomos aos pais que venham às nossas aulas ver como os filhos procedem para questionar um texto, formular hipóteses, assinalar indícios, confrontar, verificar. Esta visita é seguida de uma conversa informal com as crianças e depois de uma sessão de trabalho entre adultos sobre o que viram na aula.

Para permitir uma melhor compreensão de «o que é ler?», convidamos os pais a realizarem, como adultos, alguns trabalhos práticos que lhes permitam consciencializar as suas próprias estratégias de leitura. Propomos-lhes, em particular, os trabalhos práticos descritos no fim do capítulo I. Para evitar situações em que os pais se sintam diminuídos por voltarem a ser alunos, temos o cuidado de preparar estas sessões com alguns pais voluntários e de convidar, como participantes, professores de outras turmas que não tenham ainda vivido essas situações.

Ainda com a finalidade de mostrar que «este novo método» não é uma fantasia da nossa escola, convidamos outras pessoas: colegas de outras escolas, formadores da Escola Normal ou da zona, membros da AFL (Associação Francesa para a Leitura), bibliotecários, etc. Utilizamos montagens audiovisuais ou filmes que possam esclarecer a questão.

Naturalmente, a informação não se faz em sentido único. Todos os dias temos a experiência de pais informados que fazem o papel de «professores informados»: falam-nos, voluntariamente, das observações que fizeram sobre as descobertas ou os bloqueios dos filhos, do seu progresso diário, interpelam-nos com questões pertinentes e inesperadas. Dão-nos sugestões de aperfeiçoamentos ou de actividades. Eles ousam fazê-lo e nós ouvimo-los.

Os pais dos alunos dos anos anteriores ajudam-nos: falam das suas antigas angústias e das suas descobertas com palavras e exemplos que dizem mais aos outros pais do que as nossas palavras. Contam como os filhos gostam de ler e sabem ler. Tranquilizam e estimulam.

Pais colaboradores

Em primeiro lugar, é preciso responder à pergunta dos pais: «O que é que podemos fazer em casa?» Começamos pelo que não se deve fazer: transformar os serões em trabalhos forçados de leitura para os filhos e para os pais: pedir aos filhos que decifrem, sílaba a sílaba, um texto-‑teste que não teria para eles outro sentido senão «mostrar o que sabem fazer». Numa palavra, convidamos os pais a evitarem dramatizar a aprendizagem da leitura.

Em contrapartida, sublinhamos o interesse de ler naturalmente com os filhos tudo o que faz parte da vida familiar e responde a uma necessidade: as embalagens de alimentos, os anúncios das lojas, as placas de sinalização nas ruas ou nas estradas, os programas de TV, a publicidade, etc.
Alguns pais falam da satisfação de terem um filho curioso perto deles ou no colo, quando folheiam o jornal diário ou um semanário. Em todos estes casos, os pais não devem obrigá-los a ler tudo, nem a soletrar, mas ajudá-los a «adivinhar cada vez mais correctamente» o sentido do que os interessa, recorrendo a indícios que são justificados em conjunto.

Dizemos também aos pais como é importante que eles leiam histórias aos filhos ou folheiem com eles um álbum de leitura infantil, levando-os a dizer o que imaginam que se vai passar na página seguinte quando ela for virada.

Alguns pais imigrantes podem contar aos filhos contos do país de origem ou folhear com eles «um livro da biblioteca» que trouxeram para casa. Os irmãos e as irmãs mais velhos podem fazê-lo também. Nas famílias em que se lêem jornais ou folhetos em árabe, por exemplo, deve-‑se fazer ver aos filhos que o escrito não é exclusivo da língua do país que os acolhe.

Em resumo, que haverá de mais simples, de mais agradável, do que partilhar com os filhos os diversos encontros com o escrito, na vida diária? E porque não aproveitar momentos afectivamente privilegiados à volta de narrativas imaginárias? Mas atenção: que os pais bem intencionados não criem nos filhos a obsessão da leitura e que não façam como aqueles que diziam aos filhos que poderiam comer o «bolo» quando tivessem lido o que estava escrito na caixa!

Os pais são igualmente os nossos correspondentes privilegiados, os nossos colaboradores regulares, como destinatários dos escritos da turma ou da escola. São-lhes dirigidas as cartas, os cartazes de informação, os convites, o jornal escolar, os pedidos de receitas, de material ou de instruções. Inversamente, pedimos-lhes que, sempre que possam e isso não seja artificial, nos respondam por escrito, que ponham à nossa disposição toda a documentação escrita susceptível de nos interessar.

Além disto, sempre que podemos, procuramos levar mais longe, e mais colectivamente, a nossa colaboração de cúmplices em leitura com os pais, propondo-lhes que:
  • participem na instalação da biblioteca-centro de documentação (BCD) não apenas para fabricarem prateleiras, almofadas ou conseguirem subsídios, mas também para escolherem, com as crianças e connosco, livros, revistas, assinaturas e ainda para colaborarem na gestão e animação desta BCD. A presença dos pais verifica-se de forma diferente de uma escola para outra ou de um bairro para outro: há pais que ajudam as crianças a orientarem-se na BCD ou a percorrerem um álbum com um pequeno grupo ou a lerem uma história; há mães portuguesas que vêm contar contos (em português) a uma turma simultaneamente apaixonada e questionante;

  • preparem, com as crianças e connosco, uma exposição-venda de literatura infantil. É um excelente meio, tanto para os pais como para nós próprios, de descobrir literatura de qualidade que não se vê nem nos supermercados nem nos quiosques da estação de comboio ou do metro e que nem sempre se tem a possibilidade de folhear numa biblioteca municipal. A época do Natal, em que os pais procuram livros para oferecer aos filhos, é a ocasião oportuna para se substituírem, por outra literatura, os eternos contos de Perrault e livros como «Daniel e Valérie», «Martine» ou «Clube dos Cinco». Acrescentemos que a escolha de livros para a BCD ou para uma exposição-venda é uma ocasião insubstituível para falarmos em conjunto com pessoas mais bem informadas do que nós, bibliotecários ou livreiros, dos critérios de escolha de uma obra, do papel do imaginário na formação da personalidade das crianças, das qualidades exigidas para uma boa obra de documentação. Nem todos os pais estão igualmente implicados na escola e no sucesso escolar dos filhos. Por isso, é conveniente procurarmos actividades diferenciadas que permitam a cada um encontrar um lugar onde se sinta à vontade, seja criativo e eficaz (desde o pai que trabalha em informática até à mãe portuguesa).


Compreender-se-á, sem dúvida, que a nossa finalidade não é «mandar calar os pais», convidando-os uma vez, no início do ano, a virem «compreender» o que fazemos e como somos bons professores modernos.


Livros: multiplicar e diversificar os encontros

A vida quotidiana e os projectos-realizações fornecem muitas oportunidades de ler e escrever, mas, além disso, parece-nos necessário ter projectos-livros mais específicos, destinados simultaneamente a:

  • enriquecer o meio de vida;

  • abordar melhor o mundo dos livros e o livro-objecto;

  • desenvolver o imaginário.


Ao encontro dos livros


O canto de leitura

O arranjo do canto de leitura é um dos primeiros projectos de turma do início do ano.


Ordenação dos livros para os conhecer

A ordenação não é aqui a primeira finalidade. As crianças são colocadas perante os livros, a monte, e devem ordená-los como quiserem: por assuntos, colecção, cor, formato... O importante é que mexam neles para se apropriarem do «stock».


Encontro semanal

Durante o encontro semanal, o professor apresenta um ou vários livros novos, podendo ler o princípio da história, fazer um resumo sucinto ou apresentar as personagens com o objectivo de atrair as crianças, aguçar-lhes o interesse e o desejo de ler a continuação da história. Passado algum tempo, são as próprias crianças que apresentam aos colegas um livro que leram e lhes agradou.


Organização de jogos de adivinhas (grupo de cinco ou seis alunos)

Um pequeno grupo procura: o livro em que a galinha vermelha pede aos outros animais para a ajudarem a fazer um bolo; todos os livros que, no título, têm o nome de uma cor, um nome próprio, o livro que, na página 16, fala de um rato, etc.


A apropriação do próprio canto da leitura

As crianças decidem onde e como podem instalar o canto de leitura na aula (alcatifa, almofadas, ou simplesmente mesas e assentos adequados ao seu tamanho). No decurso do ano, podem decidir mudá-lo para outro local ou modificar-lhe a organização.


Para isolar o canto de leitura do resto da sala de aula, devem utilizar-se, ao máximo, os recursos que o material escolar proporciona. As costas do armário podem servir de expositor (bastam dois suportes de prateleiras, elásticos, alguns pregos e um martelo). Em vez de verem apenas a lombada do livro, as crianças descobrem imediatamente a capa, e, portanto, a ilustração, as cores, o título, aquilo que, na realidade, mais os atrai.

Os livros do expositor são substituídos todas as semanas. Este momento deve ser respeitado como um ritual. Os outros livros estão colocados em caixotes, em prateleiras improvisadas (tijolos e tábuas), ou num armário sem portas…Um quadro‑expositor permite apresentar poemas em cartazes ou histórias que se inventaram.


Que escritos no canto de leitura?


Escritos imaginários: contos, álbuns de literatura infantil, pequenos romances, pequenas histórias. Contos dos países de onde são originárias as crianças imigrantes (Portugal, Argélia, Turquia...), com alguns exemplares bilingues ou na língua original, são também de incluir neste canto de leitura.


Poemas, comptines (lengalengas): para que várias crianças possam ter acesso a estes escritos, não deve haver apenas um único livro. As páginas podem ser separadas e coladas em folhas de cartão, com as quais se organiza um ficheiro.

· Livros de receitas de cozinha, de trabalhos manuais.

· Catálogos e revistas para recortar.

· Revistas de informação.

· Bandas desenhadas.

· Jornais para crianças: a turma é assinante de uma ou várias publicações infantis (Jeunes, Magazin, Amis-Coop, Jeunes Années, Toboggan, Pomme d'Api ou Astrapi). Todos os meses chega, pelo correio, uma encomenda. As crianças descobrem o prazer de serem assinantes!

· Jornais diários ou semanários (trazidos pelas crianças quando falam de um assunto da actualidade que as interessa).

· Álbuns onde estão incluídas as produções escritas das próprias crianças ou dos seus correspondentes: histórias, contos, poemas, etc.

Que actividades relacionadas com o canto de leitura?

As crianças: lêem por prazer, sem ter que dar conta nem ao professor nem aos colegas; podem ser vários a folhear a obra; requisitam livros para casa, preenchendo uma ficha individual com o título da obra, organizando, assim, por autogestão, o ficheiro de empréstimos.

E empresta-se um belo álbum novinho a um miúdo de cada vez e ele compromete-se a entregá-lo impecável. Isto acontece no início do ano e permite à criança familiarizar-se com o objecto-livro e efectuar trocas com a família. Quando toda a gente já leu o livro, fala-se dele em conjunto.

O livro ou a história (completa ou incompleta) lido(a) em casa ou pela professora pode depois ser apresentado(a) na aula. Também uma mãe portuguesa ou um irmão mais velho argelino podem vir contar um conto às crianças na sua língua de origem e, em seguida, falam dele.


As crianças organizam uma mini-exposição acerca de um tema. Ex: depois da leitura do conto «Les mésaventures de Souricette», um grupo procura contos, comptines, poesias, informações sobre o rato. As outras crianças são convidadas a visitar esta exposição.


É possível ainda dar vida ao canto de leitura por meio de algumas palavras, um desenho, uma BD, afixados num quadro especial, com o título e a assinatura da criança-autora; o livro serve de referência, de estímulo para «escrever» àquele que acaba de ler, estímulo para «ler» para os outros...


O essencial para nós é que o canto de leitura não seja o canto «onde se vai quando se termina o trabalho», mas que seja vivo, familiar, explorado, continuamente renovado.


A biblioteca da escola


Quando estamos convencidos de que a biblioteca da escola é um lugar e um instrumento indispensável, há que fazer dela um projecto-realização de toda a escola: crianças, professores e pais, inclusive.


Começamos por falar em bibliotecas, documentamo-nos, vamos ver funcionar uma numa escola. Recolhemos informações, isto é, pistas de onde podemos arranjar material recuperável (madeira, alcatifa que se deitou fora depois das grandes exposições públicas, por exemplo), pedimos informações aos amigos e colegas, contactamos os organismos sobre possíveis subsídios, empréstimos de livros e ofertas. Depois de termos «mastigado» muito bem tudo isto, em todos os sentidos, lançamo-nos oficialmente na operação.


Há reuniões em cada turma, seguidas de conselho de escola, onde estão presentes os delegados das turmas, dos professores e dos pais, para definir com o maior rigor possível:


· o que se espera da biblioteca;

· o que é que se quer fazer dela;

· em que local e com que recursos se vai instalar e manter;

· como alimentá-la;

· que actividades de animação se poderão organizar.

Em seguida, passa-se à realização prática:

· calendarização das actividades;

· distribuição das tarefas.

A nossa finalidade não é descrever aqui, pormenorizadamente, a organização e o funcionamento de uma BCD, tanto mais que as realizações são muito diversas de uma escola para outra, conforme as possibilidades, a convicção e o empenhamento de cada um.


Queremos, antes, insistir em alguns aspectos:

· A organização de uma biblioteca-centro de documentação pode ser um projecto-realização muito mobilizador e aglutinador para o conjunto de pessoas nele envolvidas, incluindo os pais. É importante que a calendarização das actividades se concentre num tempo limitado, não permitindo que se arraste, para evitar que a biblioteca possa ser utilizada apenas... no trimestre seguinte ou no ano seguinte.

· Para se lançar o projecto não é preciso ser-se muito rico, mesmo que seja necessário pedir subsídios e ajudas diversas e, porque se recusa, na medida do possível, o romantismo do miserabilismo. Fabricar móveis com os pais, depois de feitos os planos e os modelos, é mais acessível e pode ser tão interessante como a compra de mobiliário. Por isso, é preferível reservar a maior parte do dinheiro que se conseguir obter para a compra de livros, publicações, revistas e assinaturas.


Deve-se então:


· encarar a animação da biblioteca desde o projecto da sua instalação e não instalá-la primeiro, dizendo que se animará em seguida;

· dedicar o maior cuidado à relação entre a vida, as actividades das turmas e as da biblioteca da escola;

· encarar também este espaço como lugar de vida central da escola, onde se podem organizar exposições, debates, relatos de viagens, momentos de poesia, etc., para as crianças, mas também para os adultos, depois das 17 h ou das 20 h;

· proceder de forma a que a BCD não seja um local que crianças e adultos utilizam como consumidores mas um local que eles administram, animam e de que são responsáveis (eles: crianças e adultos).

A exposição-venda de livros


É um empreendimento com vários objectivos:


· dá a conhecer a literatura infantil de qualidade que, geralmente, não se encontra nem nos supermercados nem nos quiosques de jornais, e ainda as publicações mais recentes. É uma exposição onde se pode passear, sentar e folhear livros. Mas é também uma venda para aqueles que querem comprar. A exposição-venda deve realizar-se em momentos estratégicos: antes do Natal ou antes das férias grandes, quando famílias e amigos procuram obras para oferecerem às crianças. Basta combinar com as editoras os livros a fornecerem, assegurar as encomendas e o lucro destinado à escola;


· é também uma festa do livro onde podem convergir as produções das turmas, álbuns, exposições, BD, espectáculo de fantoches, etc., realizadas no âmbito da literatura infantil. Podem convidar-se autores, ilustradores, bibliotecários, etc.;


· é ainda uma ocasião muito interessante para integrar os pais na vida da escola;


· é, finalmente, uma fonte de lucros a não desprezar para enriquecer a BCD (ver atrás).


Pode ser, portanto, um grande projecto-realização de uma escola ou de duas escolas próximas executado, ao mesmo tempo, por crianças, pais e professores.


E em Portugal, o que se pode também fazer?

Pinóquio - António Mota


Em Montepó, terra de um Portugal remoto e esquecido, vive Abílio, um rapaz que, como todos os da sua idade, está a acordar para o mundo, para a vida, para o primeiro amor... Calejado pelas agruras duma vida difícil vai aprendendo à sombra de decepções e mínguas; mas vai, também, crescendo, acalentado pela magia das histórias e dos sonhos que lhe dão ânsias de fugir em busca de outros destinos.

O padrinho Sebastião, contava-nos minha mãe, era da família dos bichos do mato. Sempre teve o comportamento dum lobo solitário, duma raposa astuta, duma lebre esquiva. Não deixava que nada o prendesse a qualquer cadeado.

Sempre curioso e insatisfeito, Sebastião ex­perimentara imensas profissões. Foi moço de reca­dos e trolha, caixeiro, pintor, electricista, canaliza dor, mecânico de motorizadas, pasteleiro, cauteleiro e vendedor de jornais, engraxador e tipógrafo. Frequentava bibliotecas públicas e devorava livros.

— É um regalo para os ouvidos ouvi-lo falar. Quando está a conversar, diz, sem querer, palavras que não entendo, mas que me parecem muito bonitas — dizia minha mãe, embevecida com o irmão que ajudara a criar. — Às vezes, eu pergunto-lhe o significado de certas palavras e ele pede desculpa e explica. Fala melhor que um padre pregador. Cem vezes melhor!

No ano em que terminei a quarta classe, o meu padrinho deu-me um livro. Chamava-se Pinóquio.

— Se o leres, aprendes a sonhar! — disse-me ele, com um sorriso cúmplice.

— Obrigado — disse eu, abraçando-o, sem entender muito bem o que me queria dizer.
Fiquei tão feliz.

Era o meu primeiro livro.

Era o primeiro livro de histórias que ia haver em minha casa.

Era a primeira vez que recebia uma prenda que não se comia, calçava ou vestia.

Agucei um lápis com a minha navalha de gume sempre bem afiado e escrevi na primeira página:

Este livro pertence a Abílio Ribeiro da Silva.
Oferecido pelo meu padrinho.

Para que não ficasse sujo, nem com olhos de gordura, encapei-o com uma folha de jornal.

As coisas nem sempre acontecem como desejamos. Temos de estar preparados para os pequeníssimos ou grandes desastres que nos batem à porta sem avisar.

A vida é feita de risos e de lágrimas, de so­nhos e desencantos. E quem disser o contrário é parvo, ou mentiroso.

Ainda hoje me dói falar disto. Mas a verdade tem de ser dita: não li o livro oferecido pelo meu padrinho. Nem sequer a primeira página pude saborear.

Numa tarde de chuva, meus irmãos resolve­ram arrancar algumas folhas do Pinóquio para acenderem uma fogueira. Como as folhas ardiam bem, arrancaram-nas todas.

Confrontado com a tragédia, fiquei a olhar para os restos das folhas calcinadas que se tinham espalhado na lareira. Alguns pedacinhos, mais pequenos que a cabeça dum dedo mindinho, levantavam voo, subiam em direcção à chaminé e desapareciam.

Explodi.

Bati em mim próprio: na cabeça, no peito e na cara.

Bati nos meus irmãos, subitamente amedrontados e perplexos.

Berrei, arranquei cabelos aos meus irmãos e a mim próprio.

Desesperado, gritei e protestei até me doer a garganta.

A Rosa e o Toninho começaram a choramingar, tristes por me verem tão triste.

— Mas que conversa é essa, menino? — perguntou minha mãe, admirada.

— Estes inocentes queimaram-me o livro que o meu padrinho me deu. Estes patetas queimaram-me o Pinóquio.

— Quem é que queimaram?

— O meu Pinóquio.

— O teu Pinóquio? De que é que estás a falar, menino? Não te entendo...

— O livro que o meu padrinho me deu chamava-se Pinóquio. E os estúpidos dos meus irmãos fizeram uma fogueira com o livro.

— E estás a fazer esse escarcéu todo por causa dum livro?! Cala-te, menino, cala-te!

— Mas eu quero o meu Pinóquio!

— Cala a caixa, que é melhor para ti. O teu pai está aí a chegar. Meu filho, o que não tem remédio remediado está. Acabou a conversa. Olha que o teu pai está aí a chegar.

Meu pai entrou na cozinha e eu emudeci. Recusei-me a jantar. Inventei uma dor de barriga, deitei-me cedo e adormeci a imaginar vários significados para a palavra Pinóquio.


António Mota
Filhos de Montepó
Canelas, Edições Gailivro, 2003
Excertos adaptados

Pé na Lua – Pé na Rua - Sílvia Oberg

Ana!
O nome dela era Luana, mas a avó só lhe chamava Ana.
— O que é, vovó?
— Vai tomar banho para depois jantares.
— O que é o jantar?
— Pastéis de carne, arroz, feijão e salada.
— Só quero os pastéis, vovó.
— Não senhora, também precisas de comer salada. Faz bem à pele.
Luana saiu, a pensar que aquilo era conversa. Olhou-se ao espelho do quarto, aproximou a cara e achou que a sua pele estava mais do que bem. Tirou a camisola, a blusa, e depois foi para o banho.
Abriu a torneira e a água quente escorreu-lhe pelo rosto. Molhou o cabelo e começou a ensaboar-se. Que cheiro bom… a mamã usava o mesmo sabonete. Pensou nisso enquanto deixava a água quentinha cair em cima dela. Ficou um pouco triste, meio abatida. Lembrou-se do que o pai tinha dito, os olhos ficaram cheios de lágrimas. Estava com saudades dele também. Lá em São Paulo a trabalhar, enquanto ela ficava uns tempos com os avós no interior.
Fechou a torneira, puxou a toalha e saiu da banheira. Ihh… que frio! Enxugou os pés e as pernas. Olhou para o espelho embaciado e desenhou nele uma casinha com o dedo. Depois saiu, embrulhada na toalha.
— Já tomaste banho, Anita? Ih! O teu cabelo está a pingar. Vem cá para eu o secar.
A avó Inês sentou-se na cama e pôs a menina no colo, pegou na toalha e começou a esfregá-la, enquanto cantava baixinho. Luana sentiu-se mais triste e um choro ia saindo de dentro dela, devagarinho. A avó deu-lhe um abraço apertado e Luana ficou a gostar ainda mais dela: assim, bem apertadinha nos seus braços, como um passarinho no ninho. Depois, vestiu as calças e a blusa, as meias e as sapatilhas, e foi jantar.
Mas nem os pastéis nem a gargalhada do avô, com cheiro a vinho tinto e cachimbo no bigode branco, deixaram Luana contente.
Depois do jantar, chamou o Bizoca, o cãozinho preto que tinha desde pequenina. Deu—lhe um pedaço de bolo de banana e um beijo sem ninguém ver, porque toda a gente dizia que fazia mal beijar os cães. Bizoca riu contente e pulou à volta dela.
Deitou-se cedo e, no dia seguinte, saltou da cama atrasada para ir para a escola: a carrinha buzinou e a merenda ainda não estava pronta. Tanto melhor, recebeu dinheiro para comprar sandes no bar do colégio.
Na carrinha, sentou-se à beira de Pedro, o seu melhor amigo, apesar de ser rapaz.
— Hoje é o aniversário da Vera, sabes? — perguntou o menino.
Luana olhou para trás e viu a amiga, que estava mesmo com cara de aniversário.
O dia na escola foi de festa. Pintaram pedaços de cartolina, o Beto fez um barco de papel azul. Luana fez um quadrinho com papéis de bombons e desenhou uma estrela na ponta, para Vera fazer um pedido. Pedro, que fazia os desenhos mais bonitos da turma, pintou um relógio no pulso de Vera. Coloridíssimo.
Luana chegou a casa com os olhos a brilhar.
— Vovó, tivemos uma festa tão bonita… foi o aniversário da Vera, sabes? Vovó, quando for o meu, também queria uma festa na escola.
— Está bem, Ana. Só que o teu aniversário é em Outubro e nós estamos em Junho. Tens um signo bonito. Balança.
— O que é isso?
— Um signo? Ele fala das estrelas e dos planetas que estavam no céu no dia em que nasceste.
— Estrelas como as que vemos no telescópio do vovô, de noite?
— Sim.
— Aqueles mapazinhos que a mamã fazia?
— Sim, Ana. Eram cartas astrológicas, feitas por aqueles que estudam estrelas, e que falam da maneira de ser das pessoas, das coisas que aparecem nas estrelas e que têm a ver com a vida delas.
— Eu sei, sim. Mas onde está o vovô? Hoje, ele ia continuar a história da Alice.
— Está no quarto. Vai lá.
Luana subiu as escadas a correr, entrou no quarto de arrumos do avô, onde estavam as coisas dele: o seu telescópio, a papelada da loja e os livros.
— Vovô, está na hora da Alice! Ó avô, vais ler-me a história?
— Primeiro vem cá, Luanita. Dá-me um beijo de noite de lua cheia.
O avô pôs os óculos e continuou a contar uma história bonita, a partir do ponto em que tinha ficado antes.

Alice correu como o vento, a tempo de ouvir o Coelho Branco dizer, enquanto virava uma esquina: — Pelas minhas orelhas e pelos meus bigodes! Está a ficar tarde demais!

E assim estiveram Luana e o avô por mais de uma hora. E quando ele parou de ler, a menina sentiu-se contente, pensando que, se não tinha um coelho, tinha o Bizoca. Com um pouco de medo, pensou como Alice se havia precipitado por um buraco dentro e saído num outro mundo muito estranho… Talvez Alice fosse tão distraída como ela… Talvez Alice tenha também o pé na lua, como o vovô e eu…
Luana adorava histórias. Até agora, ainda não tinha aprendido a ler sozinha, mas já podia escrever o seu nome, e na escola a professora já tinha ensinado as letras, as sílabas e algumas palavrinhas e frases simples.
— Vovô, quanto tempo falta até eu ler sozinha?
— Acho que só um bocadinho. Mas agora vamos dormir, que amanhã eu tenho a loja e tu a escola.
Luana gostava de ir com o avô até à loja de produtos agrícolas que ele tinha. Aqueles sacos todos cheios de sementes! E depois também havia os envelopes de papel com sementinhas de flores e frutas, com fotografias por fora. Dente-de-Leão, Flocos, Prímula, Cravina, Gerânio. E cada nome de flor e de planta tinha um outro nome complicado, mas com um som muito bonito quando o avô lho lia. Geranium, primula officinalis, dianthus plumarius… Palavras mágicas…
Um dia, Luana viu um envelope lindo que tinha umas flores muito coloridas, com uma cor no centro e outra na ponta das pétalas. Um trevo colorido, pensou ela, deve dar sorte.
O avô disse que era um amor-perfeito. Viola tricolor. E deu-lhe um envelope com sementes para ela plantar.
Por baixo da janela do seu quarto, onde batia muito sol, Luana limpou a terra das ervas, remexeu tudo e depois espalhou as sementes.
Quando deu a primeira flor, Luana teve pena de a apanhar para a pôr no jarro com água. Era roxa com o centro amarelo e parecia-se com os desenhos de uma blusa que a sua mãe tinha.
Só que ela não voltaria a ver a mãe com aquela blusa. Porque a mãe tinha morrido. E isto queria dizer que, agora, só iria vê-la como via a Alice na história do livro: por dentro, quando fechasse os olhos e pensasse nela. Por fora, de olhos abertos, a mãe tinha desaparecido.
Por isso é que Luana ficava assim, um dia contente, um dia triste, com saudades. E o tempo ia passando, às vezes muito rápido, às vezes devagar.
A avó fazendo-lhe um cachecol comprido, para o qual ela escolhia as cores de que gostava mais. O avô na loja. A escola. As férias. As pequenas frases que ia aprendendo. As visitas do pai ao fim de semana. Regar o amor-perfeito e vacinar o Bizoca. A feira de sábado com a avó. A assadeira quente e o cheirinho do bolo.
Numa noite de frio e muita chuva lá fora, estavam todos a ver televisão. Luana, aborrecida com um filme sem graça nenhuma, pegou numa revista. E, de repente, um estalido, como se uma fogueira tivesse iluminado tudo! Reconheceu pela primeira vez todas as frases que estavam fora das páginas dos seus cadernos e da lousa da escola.
— Magias especiais de volta! — leu Luana. — Não é isto, vovó? — gritou.
— Não é que este pedacinho de gente está a ler, Inês?
Naquela noite, Luana sonhou que a mãe estava com ela e que nada de mal tinha acontecido. Estavam na praia, sentadas na areia quente. De repente, começaram a voar. Um vento forte parecia arrastar tudo, e Luana ficou com medo, mas a mãe estava lá e deu-lhe a mão.
De manhã, Luana acordou triste. Não quis o café com leite e disse que não ia para a escola.
— A que propósito não vais, menina? Vais, sim! — disse a avó.
— Hoje não vou de maneira nenhuma, pronto! — gritou.
E saiu a correr e subiu directamente para o quarto de arrumos do avô. Abriu a porta, ficou lá no escuro meio assustada, com raiva de tudo o que tinha acontecido, com vontade de ter mãe. Ficou lá a chorar um pouco, sentada no chão, junto da estante. Foi então que percebeu que estava com a cara encostada a um livro colorido.
Puxou a manga da blusa e passou-a na cara para enxugar as lágrimas. Abriu o livro. Virou a primeira página. Mais uma. Aproximou-se da janela e leu: Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lúcia sentiu os olhos pesados de sono. Deitou-se na relva com a boneca no braço e ficou a seguir as nuvens que passeavam pelo céu, formando ora castelos, ora camelos. E já estava a adormecer, embalada pelo murmurar das águas, quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos: um peixinho vestido de gente estava de pé na ponta do seu nariz.
Então, pouco a pouco, a magia aconteceu. Como se aquela história fosse uma isca de anzol e Luana o peixinho vestido de gente. E ela foi lendo, lendo, lendo, e pensou que também ela ia gostar de inventar histórias, de imaginar coisas e de as escrever no papel…
Ouviu lá fora as risadas da Ciça e da Tereca, que brincavam, equilibrando-se em cima do portão da frente da casa. Luana deu também uma gargalhada, achando interessante fazer coisas que fazia todos os dias e que às vezes pareciam tão maçadoras… Desceu as escadas a correr, abriu a porta da casa e saiu para a rua, gritando que também ela ia conseguir equilibrar-se.

Sílvia Oberg
Pé na Lua – Pé na Rua
S. Paulo, Editora Paulus, 1997
Adaptação