sábado, maio 19, 2007

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


53 comentários:

Daniella disse...

Lindo conto... Emociono-me com a leitura do mesmo! Ótima escolha!!!!

Bruna disse...

Olá, somos alunas da Escola Técnica Estadual de Ribeirão Pires (ETEc).
Acabamos de ler o seu conto..achamos interessantissimo, pois não é como os outros.
Este tem um final diferente e agradável, o que nos leva a viajar com a nossa imaginação.
Parabéns pelo conto, parabéns pela carreira!
Sucesso!

Beijos

Laís, Bruna, Jaqueline e Julie.

thais disse...

achei o texto muito lindo com um final interessante.Comecei a ler Clarice este ano, nao a conhecia achei simplismente fantastica, estou lendo um livro de sua autoria agora, chama-se laços de familia, muito bom por sinal

João disse...

Clarice sempre surpreendente e fascinante.
cair dentro da nossa alma. òtimo conto!

barbara disse...

Bom é um conto otimo onde qualquer pessoa pode ler e pensar poxa porque demorei tanto tempo para ler aquele pequeno conto.

Pagulina disse...

Cada vez que leio me emociono. E comparado ao vídeo então, fica mais interessante. Parabéns pela escolha, é um belo conto de uma excepcional escritora!!

Giovanna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Giovanna disse...

Esse final é bem interessante mesmo,pois a garota espera ansiosamente por um livro,é exatamente como nós somos as vezes quando queremos algo somos bem persistentes !!!

Giovanna disse...

Texto ótimo cada vez que leio,medito!!!

Giovanna disse...

Todos nós quando lemos algum texto devemos refletir e colocar o que refletimos em prática,pois tudo o que aprendemos reflete em nós,todos os textos desses autores em geral servem para meditar,seja poemas ou frases,no final das contas todos eles fazem sentido.

SUELLEN disse...

adorei o conto
muito lindo mesmo
achei muito interessante
nos leva a viajar com a imaginação !
parabéns pelo conto!!

jessica bianchini disse...

Olá, sou aluna da Escola estadual José de Alencar (PR)
Acabei de ler o seu conto..achei muito interessante, pois não é como os outros.
Este tem um final diferente e agradável, o que nos leva a viajar com a nossa imaginação.
Parabéns pelo conto, parabéns pela carreira!
Sucesso!

Beijosss

Jéssicaaa

jessikinhaagatadeal2 disse...

a minha professora botou estar para agenta apresentar na sala eu adorei este conto

somos a força disse...

muito massa esse conto fantastico!

flower disse...

eu tive que estudar esse conto pra eu fazer uma prova , mt lindo esse conto ameiii... muito facil de entender mt otimooo...... !!!!





by: jessica .oliveira

Cynara Rodrigues disse...

Sou tutora de um curso de formação para professores dos anos iniciais em Linguagem.No momento da leitura compartilhada,li para meus cursitas esse conto.Todos se encantaram,inclusive eu,quando estava pesquisando o que iria ler naquela noite.É realmente um conto belíssimo,que me faz refletir como nossas crianças seriam mais sonhadoras se adquirissem o hábito de ler.

Bih.! disse...

O conto nos traz uma realidade persistente.
O imenso prazer que temos em coisas fugidias e a felicidade que jaz encoberta no processo ter-perder.
O conto inteiro nos mostra o regozijo da menina em se permitir momentos de felicidade interpelados de momentos de perda e dor.
E a felicidade é mesmo essa montanha russa no escuro. A única previsibilidade é saber que depois de um grande extase virá, invariavelmente, alguma tristeza.

Luana Oliveira disse...

Ótimo conto.. Me ajudou com meu trabalho de português!

Luana Oliveira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Verônica disse...

otimo esse texto foi muito bom =D
foi muito bom a gente ler esse texto olha somos aluno da escola castelo branco de jussara
-go acabamos de ler

renatinha disse...

OLha eu axo que eu vou fazer essa peça um trabalho da escola mas eu tenhoi mta vergonha de ser essa ruiva baixinha de bustos enormes oq vcs axam devo ou naum fazer essa peça?

Thamyzinha100%jesus disse...

Achei o conto bastante interessante...Trazendo para as nossas vidas podemos perceber que sempre que queremos muito algo,somos persistentes.Mesmo que a busca por determinada coisa possa nos causar momentos de dor,choro ou sofrimento,a simples ilusão de um momento de felicidade,nos faz seguir em frente.E nos mostra ainda que vale a pena "correr atras" daqulo que queremos.Conto muito lindo!!
Thaís

Dr HSO disse...

Ótimo resumo, uma pessoa como você ajuda o Brasil, e como precisamos nos ajudar!

cOntos;cRonicAs,poEsias e oUtras cRiaçÕes disse...

Como não se emocionar com tão belíssima estória?Mas não para menos esperar o resultado desse trabalho fabuloso que o de Clarice...Eterna!

lena disse...

Esse conto da Clarice é maravilhoso! Ele traduz o desejo pela leitura, o amor pelos livros, o enlevo doce da infância, onde a felicidade recôndida da menina revela a sua essência, do que ela viria a ser, do que mais de precioso esteve presente em toda sua vida e do que foi a sua vida: os livros, a literatura!

Thayenne disse...

Como sempre Clarice, lindo e lindo, você nus surpreende cada vez mais..
Amei...

mariana disse...

Meu professor estava serto esse livro e muito bom amei

mariana disse...

Meu professor estava serto esse livro e muito bom amei

ramon valim disse...

No ano passado em um cursinho a professora leu esse conto e veio a minha memoria que a muito tempo o tinha lindo e Lembrei do meu ensino fundamental. Muito bom, graças a esse conto.

Flávia Pais de Aguiar disse...

Ela me arrepia até a alma. Profundo, lindíssimo.

TANQUINHO disse...
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TANQUINHO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
TANQUINHO disse...

Felicidade Clandestina!!!
Esse foi meu primeiro conto de Clarice,no meu tempo de colegial.
Fiquei curiosa em saber sobre essa tal clandestinidade da felicidade,essa surpresa do ser humano real. Desde entao nao consigo parar de ler suas obras. Viva Clarice ontem,hoje e sempre :)

ddebmadu disse...

Amei,quando minha professora mandou a gente ler nossa pensei que era um tedio... Mais ADOREIIII!!!!!!!!
recomendo a todos vcs!!!!

bjos!!!

Palavra-arte disse...

Simplesmente formidável... Clarice conseguiu com maestria ser desconsertantemente genial. Que angústia inimaginavelmente prazerosa é degustar a leitura descompromissada de um texto literário grandioso... A palavra-arte é isso: não objetiva ensina nada... Apenas sensibiliza nossas emoções de forma mágica e sublimada!

Palavra-arte disse...

Simplesmente formidável... Clarice conseguiu com maestria ser desconsertantemente genial. Que angústia inimaginavelmente prazerosa é degustar a leitura descompromissada de um texto literário grandioso... A palavra-arte é isso: não objetiva ensina nada... Apenas sensibiliza nossas emoções de forma mágica e sublimada!

Palavra-arte disse...

Simplesmente formidável... Clarice conseguiu com maestria ser desconsertantemente genial. Que angústia inimaginavelmente prazerosa é degustar a leitura descompromissada de um texto literário grandioso... A palavra-arte é isso: não objetiva ensina nada... Apenas sensibiliza nossas emoções de forma mágica e sublimada!

Leonardo Fabian disse...

Olá, eu ainda estou aprendendo português e sei que estos contos vao ajudar-me muito. Obrigado pelo conto :D

Denise disse...

Emocionante!!! Uma perola! Simplesmente Clarice! Lindo!

mario luan dos santos disse...

conto lindo nunca pensei que algum dia ia gostar desse conto q foi um trabalho mais adorei nunca mais vou esquecer.

mario luan dos santos disse...

nunca li um livro tão bom quanto esse e um trabalho d gramatica mais achei bom me mostrou como e bom ler sempre.

morgan disse...

Clarice foi única, diziam que seus contos causavam, é ainda causam sensações.E realmente o Brasil não ganhou mais um estrangeiro, mais sim uma Brasileira...

kassia disse...

Eu Gostei desse conto, mais nada vai e fazer mudar que o meu melhor conto que já li até hoje foi "Cem Amos De Perdão" da Clarice também!

kassia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Samuel Ferreira disse...

Muito bom o conto achei interessante o Final Também ...Bom hora de eu terminar o dever!!

Amandaa disse...

Amandaa:

Muito interessante adorei parabens pelo conto pois faz fluir nossa imaginaçao
Parabens Vitorias"!!!

Amandaa disse...

Amandaa:

Muito interessante adorei parabens pelo conto pois faz fluir nossa imaginaçao
Parabens Vitorias"!!!

Tia jaci disse...

Este conto me faz lembrar,quando menina ,esperava minhas colegas de turma ,para pedir emprestado seus livros,naõ podia compra-los.Muito bom ler.

Dudu Ribeiro disse...

muito bakana...

Man El disse...

Esse texto atinge em cheio uma das principais razões de tantas pessoas hoje em dia terem dificuldade em ser felizes: A superficialidade daquilo que se gosta. No caso da menina do texto, ela criou GRANDES expectativas sobre um único objeto e nele focou sua realização, mesmo que temporária. Não é muito diferente de hoje, quando encontramos pessoas que chegam até a comentar em seus Facebooks que "agora que a série X voltou, minh vida tem sentido". Sempre achei que tem um traço de verdade nesses comentários aparenetemente irônicos. E vocês?

capricho_mustache disse...

"Gostamos muito do Texto, a historia é bem interessante sobre os livros e a biblioteca.
6°F Larissa Rosa n°21, Bruna Rita n°08 e Aymeê n°04 Prof°Wânia .19/11/2013

Flávia Andrade disse...

Nossa,esse conto é mto interessante,a primeira vez q eu li ele,eu me encantei.parabéns.

Guilherme Rocha disse...

O conto é lindo, surpreendente. Foi um dos poucos que lemos e que gostamos da Clarice. Um conto rápido e fácil de entender.

Yasmin e Guilherme - 1ºB, unidade 1.