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domingo, maio 20, 2007

A importância da biblioteca para a promoção de hábitos de leitura

Teresa Gonçalves
in
Educare, Educere.
Revista da Escola Superior de Educação de Castelo Branco

“Moinhos de Vento, Moinhos de Pensamento”, Ano IX, Nº14, Junho 2003

Excertos adaptados



“ Ler ou não ler” é, uma vez mais, a questão.

Nas sociedades contemporâneas, a leitura (em contexto escolar, profissional ou de lazer) assume um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento cultural, científico, político e, consequentemente, económico dos povos e dos indivíduos. Por isso, tanto se tem reflectido sobre a forma de incentivar e motivar as pessoas para a leitura, em especial as crianças e os jovens, que ainda não criaram e enraizaram esse hábito tão enriquecedor.

Interlocutor privilegiado, pelo tempo que partilha com os mais novos, a escola pode ajudar a criar e a sedimentar hábitos de leitura quer promovendo e explorando o livro, com temáticas adequadas e atractivas para as correspondentes faixas etárias, quer dinamizando actividades inovadoras e interessantes com livros na biblioteca escolar, quer propondo a navegação em sites diversificados que põem o aluno em contacto com a leitura de diferentes suportes, muitas vezes interactivos. Estas são, fundamentalmente, as questões sobre as quais nos debruçaremos no artigo que se segue.

As crianças e os jovens aprendem muito do que sabem acerca do mundo e da vida espontaneamente, em contextos muito diversificados que abrangem o grupo familiar, o círculo de amigos, as micro-sociedades ou grupos em que se inserem e os meios de comunicação social, desde a televisão até à Internet.

Mas é, sem dúvida, na escola e, frequentemente, através do livro, que aprendem de forma mais organizada a sistematizar as informações e os conhecimentos, a pensar, a olhar com espírito crítico a realidade circundante, a problematizar o mundo, a encontrar resposta para os problemas que enfrentam, a respeitar as diferenças étnicas, sociais e pessoais e, muitas vezes, a interiorizar os seus direitos e deveres, como pessoas e como cidadãos. Enfim, o contacto com o livro enriquece culturalmente o indivíduo e promove a sua autonomia. Para já não falar, especificamente, da importância do livro e da leitura para o melhoramento da competência linguística oral e para a aprendizagem do código escrito da sua própria língua.

De ano para ano vamos tendo cada vez a sensação mais nítida de que aumentam os problemas relacionados com a competência linguística oral e escrita dos jovens e dos portugueses em geral, problemas esses denunciados diariamente pela própria família, pelos meios de comunicação social e, claro, amargamente constatados por todos os professores. É visível e constrangedora a dificuldade de certos adolescentes em exporem claramente um raciocínio. No âmbito da escrita já não são só os problemas ortográficos, mas é também o domínio deficiente da pontuação, da acentuação gráfica, da própria construção sintáctica da frase, bem como o da construção de um simples texto.

Neste contexto, afigura-se-nos óbvia a importância do livro e da leitura como fonte de saber e de cultura e como meio eficaz de aperfeiçoamento linguístico. Todavia, o difícil é ser capaz de conduzir as crianças e os jovens à leitura, quando estão rodeados de tantas e tão diversificadas solicitações e quando, por vezes, até o próprio meio familiar parece avesso a esta actividade e a tudo o que com ela directamente se relaciona (nomeadamente, consagração efectiva de uma parcela do tempo livre à leitura, discussão de aspectos sobre os quais o livro que lemos nos fez reflectir, exteriorização do prazer de ler, visita regular à biblioteca e à livraria e aquisição habitual de livros).

Não pretendemos reflectir aqui sobre as razões sociológicas desta falta de tempo familiar para a leitura, senão mesmo falta de vontade, mas é certo que ela não contribui minimamente para a motivação intrínseca para ler que as crianças e os jovens deveriam ter.

Por outro lado, se a própria comunidade escolar (digo, comunidade escolar, e não só professores de Português) não conseguir mostrar aos alunos uma atitude muito positiva em relação ao prazer de ler, quer a finalidade seja informativa ou recreativa, e se não encarar a biblioteca como um espaço de cruzamentos curriculares, de modo a que a sua dinamização seja contínua e feita por todos, dificilmente conseguirá cativar os alunos para a leitura.

Finalmente, se o aumento do orçamento para o ensino não for uma prioridade dos governos, se a própria sociedade não facilitar a criação de estruturas de apoio à leitura, tais como livrarias perto da escola e bibliotecas escolares, municipais e públicas, com horários que correspondam às necessidades dos utentes, com livros diversificados, salas de leitura atraentes e confortáveis e oferta de actividades interessantes e originais ligadas ao livro, não haverá condições de promoção da leitura num país.

Porém, sem frequência de leitura não há capacidade de literacia, ou o seu desenvolvimento é muito incipiente. Para que aumentemos a nossa capacidade de lidar com informações escritas, capacidade esta directamente relacionada com o progresso e com o nível de desenvolvimento de um país, é necessário que possamos ler na escola, na rua e em casa, porque cada um destes espaços privilegia funções diferentes da leitura e da escrita; que possamos ler em todas as disciplinas, porque cada uma destas privilegia determinado tipo de textos, que impõem uma estratégia própria de leitura; e que possamos ler em suportes de leitura diversificados (livro, revista, jornal, agenda cultural, publicidade, folheto informativo, formulário, correio, calendário, horário, vídeo-clip, teletexto, suporte multimedia, etc.), porque cada um deles tem características próprias que precisamos de saber descodificar e uma estrutura peculiar que o configura como um todo coerente.

Logo, o professor não pode cruzar os braços, ainda que a tarefa de pôr os alunos a ler se afigure, à partida, muito complexa, por não se conhecerem ainda os gostos pessoais de cada um deles, por quase nunca haver tempo curricular suficiente para dedicar a esta actividade, por não se saber que livros escolher e por grande parte dos estudantes parecer até desdenhar a ideia de uma simples ida à biblioteca. A necessidade de pôr os alunos a ler também não deve ser preocupação exclusiva do professor de Português, tem que ser um projecto de toda a comunidade escolar. Acções pontuais podem ser muito meritórias, mas sem solução de continuidade podem não ser muito eficazes.

Assim, constatadas estas evidências, parece importante continuar a reflectir sobre o tipo de literatura que mais possibilidades terá de captar a atenção do público juvenil que frequenta o ensino básico, sobre actividades de dinamização de bibliotecas escolares e, também, sobre a importância da Internet, que leva igualmente o aluno a ler e/ou sugere actividades que se prendem com a leitura e com o estudo de múltiplas temáticas relacionadas com as várias disciplinas e com o estudo das línguas.

Literatura dirigida a um público de cariz juvenil

Embora sabendo que não existem receitas milagrosas eficazes em todas as circunstâncias, é relativamente consensual que determinados temas são mais adequados e mais motivadores para certas idades que outros. Por isso, distinguiremos dois tipos de público-alvo, o público infantil (que abarca a faixa etária dos 8 aos 12 anos) e o público juvenil, que inclui os jovens de faixa etária seguinte (dos 12 aos 16 anos). Adequados ao público infantil eis alguns temas como os que a seguir se enumeram:

· Contos:

- Contos e lendas. Contos tradicionais e fábulas.
- História e mitologia.

· Descoberta do mundo:

- Continentes e países. Serão sempre interessantes livros que mostrem e falem de povos diferentes do nosso, com hábitos e costumes diversos, com diferentes formas de se alimentarem, vestirem, viverem, etc.
- Meio-ambiente. Sobretudo livros que sensibilizam para a necessidade de preservação do ambiente, que alertem para o problema global da poluição do planeta e a excessiva exploração dos recursos naturais. Importância da separação e reciclagem do lixo.
- Floresta. A importância da floresta como recurso natural e como “pulmão” da humanidade.
- Mar. Riqueza e diversidade do mundo mineral, vegetal e animal.
- Natureza. Livros sobre o equilíbrio e a perfeição das maravilhas naturais que nos rodeiam. A importância da preservação da Natureza.
- Neve. A montanha, a neve, a vegetação, os animais e os desportos de Inverno.
- A aldeia. A vida rural em oposição à vida urbana.
- Viagens. Livros sobre paragens distantes e exóticas.
· Coisas da vida:

- Tolerância, solidariedade, generosidade. Em suma, literatura sobre valores universais.
- Adolescência. Problemas mais recorrentes nesta etapa.
- Amizade. Laços entre as pessoas. Interacção e colaboração.
- Pesadelos / medos. Desmistificação do medo e das suas causas.
- Coragem. Actos heróicos louváveis e bem sucedidos.
- Cozinha. Receitas de culinária simples e acessíveis.
- Escola. O primeiro dia de aulas, iniciativas interessantes na escola – jornal, teatro, clube de ecologia, por ex., visitas de estudo, etc.
- Educação cívica.
- Guerra / paz. O conflito e possibilidades da sua resolução.
- Casa. O lar como espaço familiar aconchegante e protector. Ou não.
- Natal / Páscoa. Celebrações e tradições.
- Praia. Desportos aquáticos e cuidados a ter com o mar e com o Sol.
- Os avós, os primos, a família.
- Tempo atmosférico e estações do ano.
- Férias.
- Vida quotidiana. Os transportes, as refeições, a ida ao médico, às compras, lazer, etc.

· Despertar para a vida:

- Actividades manuais.
- Cores.
- Adivinhas
- Jogos.
- Música, canções, etc.

· BD.

· Teatro.

· Poesia.

Para o público juvenil, que corresponde à faixa etária seguinte à do público infantil, incluindo os jovens dos 12 aos 16 anos, serão aconselhados os seguintes tipos de texto:

· Biografias e memórias
(de personalidades históricas, de pessoas exemplares e singulares)

· Saúde, mente e corpo
(alcool, tabagismo, nutrição, desordens alimentares, sexualidade, auto-estima, imagem corporal, etc.).

· História e ficção histórica.

· Literatura e ficção
(aventura, clássicos, amor, poesia, textos dramáticos, contos, novelas e romances).

· Religião e espiritualidade.

· Escola e Desporto.

· Séries e colecções
(tendo sempre em vista os valores e a formação do carácter).

· Temas sociais
(a morte, a vida, a família, a violência, etc.).

Actividades de dinamização de bibliotecas escolares

Serão funções ou finalidades da biblioteca escolar, entre outras, as seguintes:

· “apoiar a realização do projecto Educativo e do Plano de Actividades da Escola”;

· “dar resposta às solicitações impostas pelos programas”;

· “facultar documentos para as aulas”;

· “desenvolver actividades informativas / formativas”;

· “favorecer a construção da aprendizagem e a interacção / actualização constante de saberes”;

· “dotar os alunos de capacidades que lhes permitam recorrer à maior quantidade possível de informação e facilitar-lhes esse recurso”;

· “promover actividades de motivação e preparação pare a leitura”.

Para que a biblioteca escolar possa convenientemente cumprir todas estas finalidades é necessário que reúna um conjunto de condições. Primeiro, torna-se óbvia a necessidade de que a biblioteca disponha de um orçamento próprio, destinado a cobrir despesas de formação do pessoal que nela trabalha, de aquisição de material documental em suporte papel ou multimedia e de organização de iniciativas.

Segundo, é claro que a tarefa de organizar e dinamizar a biblioteca não pode ser apenas da responsabilidade de um docente ou vários a tempo parcial, sendo de todo recomendável recorrer-se a um docente a tempo integral e a funcionários com preparação / formação específica para desempenharem as funções consignadas à biblioteca.

Em terceiro lugar, é evidente que valorizar a função da biblioteca no processo de ensino / aprendizagem tem que ser um objectivo empenhadamente assumido por toda a comunidade escolar, em particular pelas Direcções das escolas, pelo Conselho Pedagógico, pelos Departamentos, pelos Professores de todas as disciplinas e até, como refere Lino Moreira da Silva, por “Núcleos de Apoio à Biblioteca” (Clube de Amigos da Biblioteca, Serviço de Perguntas – Respostas e Núcleo de Apoio ao Tratamento de Documentos).

Por último, não podemos deixar de referir, além da importância da cooperação intraescolar, a importância da colaboração interescolar e interbibliotecas, para que possa haver intercâmbio de experiências e para facilitar a dinamização de exposições temáticas, itinerantes, etc.

Passemos, então, agora, à enumeração de algumas iniciativas e actividades de dinamização da biblioteca escolar, que não devem ser esporádicas e pontuais, mas devem inserir-se num programa organizado (com especificação de objectivos, metodologia, calendarização, intervenientes e avaliação). Seguirei de muito perto e, fundamentalmente, as propostas de Lino Moreira da Silva, Maria Elisa Sousa e Beatriz Prado.

Iniciativas de dinamização da biblioteca escolar:

· Apoiar o Projecto Educativo e o Plano de Actividades da Escola, bem como as actividades da Área Escola. A biblioteca deve ser um interveniente activo e dinâmico nestes projectos, não só disponibilizando bibliografia geral e específica, como organizando actividades e iniciativas afins.
· Aproveitamento inovador dos expositores da biblioteca. Estes não têm que, obrigatoriamente, estar fixos. O bibliotecário pode, de tempos a tempos, mudar a sua localização e até colocá-los, em determinados momentos, em sítios estratégicos da escola. Nestes poderão aparecer as novidades, as actividades previstas, notícias de actividades culturais locais, informação sobre programas formativos nos meios de comunicação social, etc. Para uma maior articulação entre a sala de aula e a biblioteca, nas aulas de Estudo Acompanhado, por exemplo, os docentes responsáveis poderiam abordar os assuntos mencionados nos expositores. No caso de não ser possível mover os expositores ou de essa hipótese ser inviável, deve circular com uma certa periodicidade o boletim informativo da biblioteca. Este poderá ser lido por cada Director de turma na sala de aula e incluirá as novidades, as recomendações, as iniciativas previstas e outras informações que se considerarem pertinentes.

· Realização de exposições temáticas. Entre outros temas possíveis, poderíamos citar: leitura de contos, temas de ecologia, saúde, alimentação, poluição, tabagismo, energias alternativas, reflexões sobre os valores humanos, sobre a infância, etc. É sempre muito interessante organizar estas iniciativas em colaboração com as disciplinas que estão a abordar estes conteúdos temáticos, bem como convidar alguém que venha falar sobre o tema. Também pode ser muito produtiva a organização de debates sobre a mesma temática.

· Sessões de trabalho sobre a biblioteca. Em colaboração com os Directores de Turma ou com os docentes dos várias disciplinas (nomeadamente Estudo Acompanhado), o bibliotecário pode organizar sessões curtas sobre o funcionamento da biblioteca, com o objectivo de explicar a organização da biblioteca, a forma de catalogação do acervo, o modo como se consulta um ficheiro, a arrumação dos documentos nas estantes, as regras de funcionamento, etc. Esta iniciativa poderia ser complementada com um debate sobre temas afins, por exemplo: a importância da biblioteca escolar, o seu modo de funcionamento, o tipo de documentação mais pertinente, sistema de requisições e de empréstimo domiciliário, direitos e deveres do leitor, sugestões para melhorar o funcionamento da biblioteca, etc. Estes debates devem terminar com o preenchimento de um questionário curto e simples, o que permitirá uma recolha de dados para posterior tratamento.

· Sessão de trabalho sobre “O que fazer com um livro”. Podem organizar-se sessões de trabalho sobre o livro, isto é, como é constituído um livro; como se consulta; a importância do índice, do prefácio, da introdução, das conclusões parciais e das conclusões finais, da tomada de apontamentos e da reflexão sobre o que se recolheu como forma de estruturar a aprendizagem; como se faz uma citação e como se faz uma bibliografia.

· Sessões de trabalho diversas, nomeadamente, tipos de documentos existentes na biblioteca, como consultar obras de referência, como fazer uma pesquisa, como consultar um CD interactivo, como procurar um endereço electrónico, como navegar na Internet, etc.

· Celebração de dias nacionais / internacionais. Podem promover-se iniciativas relacionadas com estes dias, por exemplo, exposições sobre o dia do Livro, da Música, da Criança, da Árvore, e outros. Estas iniciativas deverão ser promovidas pela biblioteca em estreita colaboração com os docentes das várias disciplinas mais directamente ligadas a estas temáticas.

· Dinamização de clubes de leitura. Estes podem funcionar de diversas formas.

- Em primeiro lugar cativam-se os alunos para a constituição de um clube de leitura. Esta abordagem inicial pode ser feita pelo docente de Português (ou de Estudo Acompanhado) em cada uma dos suas turmas. Em data a acordar, os voluntários devem reunir-se na biblioteca com o professor bibliotecário a fim de se inscreverem (com direito a cartão de sócio) e de organizarem os seus próprios estatutos.

- Com o clube formado, e depois de programação da calendarização, pode propor-se a leitura de um mesmo livro (a biblioteca terá que possuir vários exemplares) a todos os membros do clube. Após isto, estes organizam-se em grupos / equipas e elaboram uma série de questões sobre o livro em causa. Proceder-se-á, por fim, ao concurso de perguntas-respostas. Ganhará a equipa que responder a um maior número de questões.

- Para a última etapa pode convidar-se o(a) autor(a) e/ou o(a) ilustrador(a) do livro que se leu e trabalhou e antes do concurso pode haver uma breve palestra, que permitirá um contacto directo entre ambas as partes. Para concluir pode-se produzir um artigo escrito para publicar no jornal escolar.

· Organização de dossiers temáticos. Na biblioteca estarão à disposição dos alunos dossiers temáticos, organizados pelos professores das disciplinas, que incluirão toda a documentação suplementar que os docentes e o bibliotecário consigam reunir. Trata-se de dossiers de consulta para aprofundamento do conteúdo ou para elaboração de trabalhos.

· Sessão sobre “Um livro que não esqueci”. Pode convidar-se um docente ou um aluno da escola ou de uma outra escola, um encarregado de educação, um familiar de um aluno, uma personalidade local, etc., para vir falar de um livro que particularmente o(a) marcou e para motivar os alunos para a sua leitura. Deve providenciar-se para que haja alguns exemplares disponíveis na biblioteca, expostos em local bem visível.

· Colaboração com o jornal escolar. A biblioteca pode e deve ter um espaço próprio neste meio de comunicação para divulgar novidades, iniciativas, ou sugerir novas pistas para cimentar e aprofundar o gosto pelos livros.

· Publicitação de frases sugestivas, relacionadas com o livro ou com a leitura. O bibliotecário e/ou o clube de leitura podem produzir periodicamente frases sugestivas que serão escritas em caracteres chamativos e afixadas em locais estratégicos da escola. Na própria biblioteca deve existir um cofre ou cesto mágicos, um espaço onde professores e alunos podem ir buscar (levando para casa e partilhando…) textinhos com contos, com lindos pensamentos, pequenos documentos que, de uma forma ou de outra, nos ajudem a construir um mundo melhor. Exemplos: “Que livro estás a ler?”; “Enquanto esperas pelo autocarro, experimenta ler um livro!”; “Ler ajuda-te a crescer.”; “Que assuntos te interessam mais? Sabes que há livros na biblioteca sobre isso?”; “Já experimentaste o prazer de ler?” ;“Vem à biblioteca comunicar em Inglês!”; “Consegues comunicar em Francês? Vem à biblioteca experimentar!”; “Viaja até ... Londres, Nova Iorque, Paris, etc.”; “Queres fazer um amigo francês, inglês, português? Vem até à biblioteca conhecê-lo!”; “Descobre os livros de António Mota!”; “Vem participar numa hora do conto!

· Outras actividades na biblioteca:

- Preparação de visitas de estudo.

- Realização de feiras do livro.

- Exposição de trabalhos realizados por alunos, que ficarão arquivados na Biblioteca. Cada turma poderá visitar a exposição com o seu Director de Turma.

- Organização de sessões de contos, declamação de poesia, acompanhadas por uma exposição sobre a biografia do autor e das suas restantes obras. Se os textos escolhidos não são só de um autor, pode-se fazer uma exposição de outros textos de outros autores que complementem a temática seleccionada.

- Iniciativas sobre “o livro temático”, da literatura portuguesa, francesa, inglesa, sobre o livro da semana, acompanhados de uma ficha de leitura e/ou de um comentário crítico.

- A oficina do meio ambiente / reciclagem de materiais. Exposição temática, seguida de fórum de discussão sobre o tema. A concluir o ciclo sobre o meio ambiente poderiam organizar-se actividades de reciclagem, em colaboração com as disciplinas de Ciências da Natureza e Educação Visual e Tecnológica.

- Promoção da Oficina do conto. Trata-se da transmissão oral de contos seleccionados. Pode ser uma iniciativa de cooperação interescolar, inclusive de diferentes ciclos de ensino, dado que podem e devem ser os alunos a fazer a apresentação das narrativas. Pode haver também intercâmbio entre um grupo de instituições.

- “Chá com livros”. Esta iniciativa poderá ser muito interessante se reunir professores de diferentes disciplinas e alunos. Trata-se de uma reunião informal, em que os participantes, enquanto tomam chá, falam de um livro que leram ou que estão a ler. Claro que pode ser um livro sobre qualquer temática e não tem que ser um texto literário.

- Organização periódica da “caixa biblioteca”. Trata-se de uma caixa com cerca de uma dúzia de livros de tipos e temas muito diferentes entre si, que circulará com alguma periodicidade dentro da sala de aula, levada por um docente. Durante algum tempo pode mostrar-se o conteúdo da caixa e o objectivo é motivar os alunos para a sua manipulação e posterior requisição.

- O clube de vídeo. Projecção semanal de um vídeo seleccionado. Em cada semana, expor todo o material disponível sobre o tema ou o filme. Para que seja eficaz, convém fazer uma planificação a médio prazo, por exemplo por período ou mensal.

- Tudo o que dissemos atrás é, obviamente, válido também para as bibliotecas do 1° CEB, quando elas existem; no entanto, temos consciência de que algumas iniciativas são mais viáveis noutros ciclos de ensino. Especificamente para o 1° CEB poderão ser muito interessantes as actividades de promoção da leitura que referiremos a seguir:

- Mostrar, deixar manipular e observar livros, sem constrangimentos de qualquer espécie, deixando que os alunos se guiem pelos seus próprios gostos e interesses.

- Criar na Biblioteca Escolar ou na sala de aula um espaço especial de leitura.

- Organizar o dia ou a hora do conto ou da poesia.

- Promover a leitura integral de um livro que privilegie sempre a formação do carácter.

- Dinamizar concursos de leitura de vários tipos de texto, por exemplo, trava-línguas, adivinhas, anedotas, poemas, textos narrativos, etc.

- Organizar oficinas de transformação de contos tradicionais, misturando personagens de vários contos, mudando o sexo dos personagens principais, alterando tempos e espaços, introduzindo um final diferente, etc.

- Convidar escritores e ilustradores de literatura para a infância.

- Visitar com os alunos bibliotecas públicas ou municipais.

Portais / sítios na Internet de interesse pedagógico

Actualmente, as previsões divergem em relação à evolução do suporte mais tradicional de leitura, o livro. Os partidários incondicionais das novas tecnologias da informação e comunicação defendem que o livro e todos os serviços em papel, como nós os conhecemos hoje, têm tendência a desaparecer de forma gradual. As previsões dos mais conservadores e nostálgicos apostam na continuidade do livro em suporte papel, porque crêem que, mesmo que a partir deste momento deixasse de ser produzido, teríamos sempre todo um legado do passado impossível de ignorar.

Porém, ainda que nos queiramos manter à margem desta questão, não podemos olvidar certos factos, nomeadamente a existência de outros suportes electrónicos fortemente concorrenciais, alguns já uma realidade e outros em estudo, como os livros digitais, o Softbook, o E‑book, o Rocket e Book, o papel electrónico ou papel digital e ainda a miniaturização dos computadores, que permite a criação do PC de bolso.

Concluímos, portanto, que a atitude mais sensata será não deixar de conferir importância ao livro impresso e aos documentos em suporte papel, porque têm todo um peso milenar de tradição, mas também não ignorar por completo os novos suportes de leitura, que estão progressivamente mais generalizados, mais acessíveis e que são cada vez mais procurados por quem tem necessidade de obter informação. Daí a importância que se concede hoje à utilização da Internet na biblioteca, escolar, municipal ou pública, por professores e alunos.

Assim, passaremos, primeiro, à enumeração de alguns motores de busca / portais gerais e, em seguida, faremos referência a alguns motores de busca / portais e sítios considerados de interesse para as disciplinas de Português, Francês e Inglês e ainda para o 1° CEB.

Portais Gerais

· http://www.busca.online.pt/
Para encontrar todos os motores de busca / portais disponíveis. Podemos aceder directamente a um consultório de língua portuguesa; para ir directamente para lá o endereço é: http://www.portugues.online.pt/
· Exemplos de motores de busca / portais:
- Aeiou, Altavista, Clix, Cusco, Eusei.com, Excite, Galileu, Gertrudes, Google, Hotbot, IOL, Iupi, Lusitano, Netc, Netlndex, Novidadesl, Portal Busca, Pt-link, Real Busca, Sapo, Terravista, Voilà, Yahoo.

· Em destaque:
- http://www.aeiou.pt/ ( Entrar no directório Arte e Cultura, sub-directório Literatura e, a seguir, Vidas e obras de…).
- http://www.google.com/
- http://www.voila.fr/
- http://www.sapo.pt/ (Pesquisar no directório Ensino e Investigação – “crianças”. Ver sítio “especiais” que aponta para sítios temáticos)
- www.clix.pt (Neste motor de busca vide o portal sobre Educação: http://directorio.clix.pt/directorio/EDUCACAO/index.php3)
- http://www.terravista.pt/ (www.terravista.pt/index.html Pesquisar no directório Educação).
- http://about.com/education/ (É um portal temático sobre educação contínua, primária, secundária e universitária.)
- www.educared.net (Trata-se de um portal para a educação, em espanhol. Seleccione “Recursos Didácticos” e TI Buscador Educativo”.)
- http://www.educare.pt/ (É o portal do Porto Editora.)
- http://www.educncional.com.br/ (Um interessantíssimo portal brasileiro sobre educação.)
- http://iep.uminho.pt/mjoao/links/Recursos.html (Esta página e a seguinte são muito importantes, pois disponibilizam ligações para sítios de interesse para professores, alunos e pais.)
- www.linguaestrangeira.pro.br/ (Portal sobre línguas estrangeiras.) http://www.netindex.pt/links/EDUCACAO/MATERIAL (Esta página disponibiliza ligações para sítios muito interessantes de material escolar.)

Língua Portuguesa

· http://www.iie.min-edu.pt/ (Este portal é do Instituto de Inovação Educacional e deveria ser visitado frequentemente pelos professores de todas as disciplinas e pelos alunos. Na página principal -home page- pesquisar Sites, Educação.)
· http://www.instituto-camoes.pt/ (Ver, sobretudo: Centro Virtual Camões (CVC), - pesquisar todos os directórios - Ensinar Português, Culturas de Língua Portuguesa, Biblioteca Breve e Exposições Virtuais.)
· www.app.pt (Portal da Associação de Professores de Português. E todo ele muito interessante. Permite o acesso ao sumário de todos os números da revista Palavras. Pesquisar: Sábados Culturais, Recursos Educativos e Ligações.)
· www.bn.pt (Portal da Biblioteca Nacional. Na home page, visitar o directório Apresentação e, depois, Exposições Virtuais e Sites Temáticos - Eça de Queirós.)
· www.ipn.pt/literatura/ (Esta é a maior base de dados sobre literatura portuguesa. A destacar: 1. No página principal há um directório para fazer downlond de ebooks grátis; 2. Há outro sobre um curso de literatura em CD-ROM para encomendar. Destina-se ao ensino básico e secundário; 3. Letras e Letras, novos sítios na INTERNET sobre livros ou literatura; 4. Outras Ligações. Trata-se de um sem número de endereços electrónicos sobre o temo a pesquisar; 5. Interessam ainda todos os directórios sobre Literatura, Medieval, Clássica, Barroca, Neoclássica, Romântica, Pós-Romântica, Correntes do séc.xx.)
· www.ciberduvidas.com (Destacam-se os directórios: Ligações, sítios de “Literatura Portuguesa” e “temas de cultura”, e Glossário.)
· www.gulbenkian.pt (Para ter conhecimento das iniciativas e das exposições ver directório Agenda.)
· www.ciberkiosk.pt/ ou www.ciberkiosk.pt/apresentaçao.html (Trata-se de um importante portal sobre estudos literários, crítica e recensões dos últimos títulos aparecidos no mercado livreiro.)
· www.todososlivros.pt/ (É um portal sobre crítica e novidades literárias.)
· web.rccn.net/camoes/ (É um portal só sobre Luís Voz de Camões. Nele pode ser consultada todo a sua obra.)
· www.terravista.pt/Enseada/5066 (Sítio português sobre poesia universal. Abrange os seguintes períodos: da Antiguidade ao Renascimento, do Renascimento ao Romantismo, do Romantismo no Séc. XX e Séc. XXI. Apenas encontramos textos poéticos traduzidos.)
· www.terravista.pt/mussulo/1917/ (Trata-se de um portal só sobre poesia.)
· www.elefante-editores.co.pt/ (Trata-se de um portal sobre poesia em língua portuguesa.)
· www.brasil.terravista.pt/claridade/3926 (Este sítio é um consultório de língua portuguesa.)
· www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html (Trata-se de um sítio brasileiro sobre poesia.)
· educom.sce.fct.unl.pt/proj/por-mares/ (Este é um portal educativo sobre os séculos XV e XVI, incidindo sobre os Descobrimentos. Inclui um directório sobre “Rotas Literárias”, outro sobre “Rotas Históricas” e outros sobre “Rotos Filosóficas”, “Artísticas”, “das Ciências”, etc.)
· www.linguaestrangeira.pro.br/sitedeportugues/index.htm (Trata-se de um importante portal brasileiro sobre língua portuguesa)

Língua Francesa

· www.terravista.pt/Enseada/2688/frances.htm (Este portal apresenta todos os endereços interessantes para o estudo da língua francesa).

Em destaque:
· CIicNet: www.swarthmore.edu/Humanities/clicnet (Ver o directório: Français langue étrangère et langue seconde - “sommaire”).
· CNDP – Centre National de Documentation Pédagogique : www.cndp.fr/default.htm (Aqui consultar: Le Réseau CNDP - International-, Pédagogie au quotidien - “Ecole”, “Commmunication - échanges”, “Avec les élèves”, “Découvrir et rencontrer des classes en ligne”, “Correspondre ou colaborer avec d'autres élèves “, “Ressources pour la classe” - e EduClic - sítios sobre vários temas, ver em especial Domaines, disciplines et filiaires - todos os níveis de ensino).
· www.fle.fr (Escolher a língua francesa. Abrir e ver. Listagem de instituições de ensino superior que oferecem formação a vários níveis em Francês - L.E. -, inclusive estágios pedagógicos. Na home page ver os directórios Ressources FLE e Cartable connecté. Neste último devem-se abrir todos os sítios porque todos são interessantes e trazem endereços muito úteis. Destaco: www.fle.fr/ressources/classe.html)
· Webencyclo.com: www.webencyclo.com/home/homeactu.aspl (É um portal muito importante, pois permite-nos ter acesso a uma enciclopédia actualizado e a dossiers temáticos da actualidade francesa e internacional. Se nos inscrevermos – gratuitamente – seremos informados por e-mail de todas as actualizações e das novidades).
· Educaweb. http://www.lire-francais.com/ (Neste portal encontramos exercícios de leitura, compreensão e gramática.)
· Lettres. Net: www.lettres.net/ (Neste portal ver com atenção os directórios La Porte des Lettres, Sites des Profs., Un Annuaire de Sites Educatifs, Lexique de Termes Littéraires e Des pistes de Lecture ). Este portal dá acesso a outros, nomeadamente a
· Avec yahoo! Suivez l'actualité théâtrale, du livre et de l'éducation: http://fr.fc.yahoo.com/e/education.html
· Premiers pas sur Internet: www.momes.net/ (Para pequeninos francófonos e para tirar ideias para o 1° CEB).
· Presse-École: www.presse-ecole.com/ (Portal muito interessante para quem quer criar um jornal escolar).
· http://www.bnf.fr/ (Este portal é da biblioteca François Mitterrand).
· Agrupamentos de instituições – Espace Universitaire Albert Camus: http://www.fle.fr/
· Recursos linguísticos:
- Dictionnaire de la Francophonie: www.francophonie.hachettelivre.fr./
- Dictionnaire de l'Académie française: www.epas.utoronto.ca:8080/wulfric/academie

Língua Inglesa

· www.yahoo.com/ (Abrir no directório “Education”.)
· www.yahoo.com/Arts/Humanities/Literature/Criticism_and_Theory/ (trata-se de um sítio sobre teoria literária.)
· http://www.education-world.com/ (Destaco todos os directórios da página principal.)
· www.rendin.org/ (Neste portal saliento dois directórios - home page - “Just for K-12 Readers” e “Support Materials for Class”.)
· www.thelivingletters.com/ (Portal para crianças até aos 12 anos. Tem jogos simples e textos simples.)
· http://www.surfnetkids.com/ (Trata-se do portal de Barbara Feldman. Ajuda a orientar a navegação de crianças na Internet.)
· http://www.ncbe.gwu.edu/ (Na página principal destaco os Directórios “Language & Education Links” e “In the Classroom”.)
· www.ilovelanguages.com/ (Neste portal destaco os directórios “How To Teach English With Fun and Games” - http://www.eslgames.com/edutainment/#redirect )
· www.terravista.pt/aguaalto/2779 (Neste portal encontramos regras gramaticais, lista de verbos, exercícios, utilidades e ligações.)
· http://grammarnet.superzip.net/ (Trata-se de um importante portal só sobre gramática. Tem múltiplos exemplos.)
· ccc.commnet.edu/grammar/ (Sítio sobre gramática inglesa.)
· polyglot.lss.wisc.edu/Iss/lang/teach.html (Trata-se de um sítio sobre o ensino de línguas estrangeiras.)
· http://www.theenglishoffice.com.br/
· www.eslcafe.com/ (É um sítio muito interessante para docentes e alunos, pois permite o acesso a material pedagógico.)
· www.aitech.ac.jp/-iteslj/quizzes/
· esl.nbout.com/
· www.aitech.ac.jp/-iteslj/ESL3.html (Este sítio disponibiliza endereços para estudantes, docentes e novidades.)
· onelook.com/ (É um sítio que disponibiliza dicionários.)
· http://www.englishtown.com/ (É um sítio de uma escola de Inglês online.)
· www.acronymfinder.com/ (Sítio sobre abreviaturas e siglas.)

1° Ciclo do Ensino Básico
· http://www.iie.min-edu.pt/
· http://www.app.pt/
· www.ciberduvidas.com/
· www.ipn.pt/literatura/infantil/links.htm (Trata-se de um importantíssimo portal de ligações para páginas sobre literatura infantil.)
· www.iie.min-edu.pt/ (Na página principal deste portal entrar no directório “Sites”. Aqui entrar sucessivamente em: “Para Alunos”, “Cidade da Malta” - http://www.cidndedamalta.pt/- e “Sítio dos Miúdos” - www.sitiodosmiudos.pt/ )
· www.infancia.net (Sítio importante para crianças do mundo latino. Serve para o professor tirar ideias de actividades a desenvolver com alunos desta faixa etária.)
· www.momes.net/education/index.html (Trata-se de um portal muito importante com actividades para crianças até aos 12 anos de idade. Na página principal destaco: “Jeux à Imprimer”, “Lecture”, “Lecture et Littérature »: todo este directório é muito importante, sobretudo, “Association Française pour la Lecture”, “L'Association” e “Revue: Les Actes de Lecture”.)

Pinóquio - António Mota


Em Montepó, terra de um Portugal remoto e esquecido, vive Abílio, um rapaz que, como todos os da sua idade, está a acordar para o mundo, para a vida, para o primeiro amor... Calejado pelas agruras duma vida difícil vai aprendendo à sombra de decepções e mínguas; mas vai, também, crescendo, acalentado pela magia das histórias e dos sonhos que lhe dão ânsias de fugir em busca de outros destinos.

O padrinho Sebastião, contava-nos minha mãe, era da família dos bichos do mato. Sempre teve o comportamento dum lobo solitário, duma raposa astuta, duma lebre esquiva. Não deixava que nada o prendesse a qualquer cadeado.

Sempre curioso e insatisfeito, Sebastião ex­perimentara imensas profissões. Foi moço de reca­dos e trolha, caixeiro, pintor, electricista, canaliza dor, mecânico de motorizadas, pasteleiro, cauteleiro e vendedor de jornais, engraxador e tipógrafo. Frequentava bibliotecas públicas e devorava livros.

— É um regalo para os ouvidos ouvi-lo falar. Quando está a conversar, diz, sem querer, palavras que não entendo, mas que me parecem muito bonitas — dizia minha mãe, embevecida com o irmão que ajudara a criar. — Às vezes, eu pergunto-lhe o significado de certas palavras e ele pede desculpa e explica. Fala melhor que um padre pregador. Cem vezes melhor!

No ano em que terminei a quarta classe, o meu padrinho deu-me um livro. Chamava-se Pinóquio.

— Se o leres, aprendes a sonhar! — disse-me ele, com um sorriso cúmplice.

— Obrigado — disse eu, abraçando-o, sem entender muito bem o que me queria dizer.
Fiquei tão feliz.

Era o meu primeiro livro.

Era o primeiro livro de histórias que ia haver em minha casa.

Era a primeira vez que recebia uma prenda que não se comia, calçava ou vestia.

Agucei um lápis com a minha navalha de gume sempre bem afiado e escrevi na primeira página:

Este livro pertence a Abílio Ribeiro da Silva.
Oferecido pelo meu padrinho.

Para que não ficasse sujo, nem com olhos de gordura, encapei-o com uma folha de jornal.

As coisas nem sempre acontecem como desejamos. Temos de estar preparados para os pequeníssimos ou grandes desastres que nos batem à porta sem avisar.

A vida é feita de risos e de lágrimas, de so­nhos e desencantos. E quem disser o contrário é parvo, ou mentiroso.

Ainda hoje me dói falar disto. Mas a verdade tem de ser dita: não li o livro oferecido pelo meu padrinho. Nem sequer a primeira página pude saborear.

Numa tarde de chuva, meus irmãos resolve­ram arrancar algumas folhas do Pinóquio para acenderem uma fogueira. Como as folhas ardiam bem, arrancaram-nas todas.

Confrontado com a tragédia, fiquei a olhar para os restos das folhas calcinadas que se tinham espalhado na lareira. Alguns pedacinhos, mais pequenos que a cabeça dum dedo mindinho, levantavam voo, subiam em direcção à chaminé e desapareciam.

Explodi.

Bati em mim próprio: na cabeça, no peito e na cara.

Bati nos meus irmãos, subitamente amedrontados e perplexos.

Berrei, arranquei cabelos aos meus irmãos e a mim próprio.

Desesperado, gritei e protestei até me doer a garganta.

A Rosa e o Toninho começaram a choramingar, tristes por me verem tão triste.

— Mas que conversa é essa, menino? — perguntou minha mãe, admirada.

— Estes inocentes queimaram-me o livro que o meu padrinho me deu. Estes patetas queimaram-me o Pinóquio.

— Quem é que queimaram?

— O meu Pinóquio.

— O teu Pinóquio? De que é que estás a falar, menino? Não te entendo...

— O livro que o meu padrinho me deu chamava-se Pinóquio. E os estúpidos dos meus irmãos fizeram uma fogueira com o livro.

— E estás a fazer esse escarcéu todo por causa dum livro?! Cala-te, menino, cala-te!

— Mas eu quero o meu Pinóquio!

— Cala a caixa, que é melhor para ti. O teu pai está aí a chegar. Meu filho, o que não tem remédio remediado está. Acabou a conversa. Olha que o teu pai está aí a chegar.

Meu pai entrou na cozinha e eu emudeci. Recusei-me a jantar. Inventei uma dor de barriga, deitei-me cedo e adormeci a imaginar vários significados para a palavra Pinóquio.


António Mota
Filhos de Montepó
Canelas, Edições Gailivro, 2003
Excertos adaptados

Pé na Lua – Pé na Rua - Sílvia Oberg

Ana!
O nome dela era Luana, mas a avó só lhe chamava Ana.
— O que é, vovó?
— Vai tomar banho para depois jantares.
— O que é o jantar?
— Pastéis de carne, arroz, feijão e salada.
— Só quero os pastéis, vovó.
— Não senhora, também precisas de comer salada. Faz bem à pele.
Luana saiu, a pensar que aquilo era conversa. Olhou-se ao espelho do quarto, aproximou a cara e achou que a sua pele estava mais do que bem. Tirou a camisola, a blusa, e depois foi para o banho.
Abriu a torneira e a água quente escorreu-lhe pelo rosto. Molhou o cabelo e começou a ensaboar-se. Que cheiro bom… a mamã usava o mesmo sabonete. Pensou nisso enquanto deixava a água quentinha cair em cima dela. Ficou um pouco triste, meio abatida. Lembrou-se do que o pai tinha dito, os olhos ficaram cheios de lágrimas. Estava com saudades dele também. Lá em São Paulo a trabalhar, enquanto ela ficava uns tempos com os avós no interior.
Fechou a torneira, puxou a toalha e saiu da banheira. Ihh… que frio! Enxugou os pés e as pernas. Olhou para o espelho embaciado e desenhou nele uma casinha com o dedo. Depois saiu, embrulhada na toalha.
— Já tomaste banho, Anita? Ih! O teu cabelo está a pingar. Vem cá para eu o secar.
A avó Inês sentou-se na cama e pôs a menina no colo, pegou na toalha e começou a esfregá-la, enquanto cantava baixinho. Luana sentiu-se mais triste e um choro ia saindo de dentro dela, devagarinho. A avó deu-lhe um abraço apertado e Luana ficou a gostar ainda mais dela: assim, bem apertadinha nos seus braços, como um passarinho no ninho. Depois, vestiu as calças e a blusa, as meias e as sapatilhas, e foi jantar.
Mas nem os pastéis nem a gargalhada do avô, com cheiro a vinho tinto e cachimbo no bigode branco, deixaram Luana contente.
Depois do jantar, chamou o Bizoca, o cãozinho preto que tinha desde pequenina. Deu—lhe um pedaço de bolo de banana e um beijo sem ninguém ver, porque toda a gente dizia que fazia mal beijar os cães. Bizoca riu contente e pulou à volta dela.
Deitou-se cedo e, no dia seguinte, saltou da cama atrasada para ir para a escola: a carrinha buzinou e a merenda ainda não estava pronta. Tanto melhor, recebeu dinheiro para comprar sandes no bar do colégio.
Na carrinha, sentou-se à beira de Pedro, o seu melhor amigo, apesar de ser rapaz.
— Hoje é o aniversário da Vera, sabes? — perguntou o menino.
Luana olhou para trás e viu a amiga, que estava mesmo com cara de aniversário.
O dia na escola foi de festa. Pintaram pedaços de cartolina, o Beto fez um barco de papel azul. Luana fez um quadrinho com papéis de bombons e desenhou uma estrela na ponta, para Vera fazer um pedido. Pedro, que fazia os desenhos mais bonitos da turma, pintou um relógio no pulso de Vera. Coloridíssimo.
Luana chegou a casa com os olhos a brilhar.
— Vovó, tivemos uma festa tão bonita… foi o aniversário da Vera, sabes? Vovó, quando for o meu, também queria uma festa na escola.
— Está bem, Ana. Só que o teu aniversário é em Outubro e nós estamos em Junho. Tens um signo bonito. Balança.
— O que é isso?
— Um signo? Ele fala das estrelas e dos planetas que estavam no céu no dia em que nasceste.
— Estrelas como as que vemos no telescópio do vovô, de noite?
— Sim.
— Aqueles mapazinhos que a mamã fazia?
— Sim, Ana. Eram cartas astrológicas, feitas por aqueles que estudam estrelas, e que falam da maneira de ser das pessoas, das coisas que aparecem nas estrelas e que têm a ver com a vida delas.
— Eu sei, sim. Mas onde está o vovô? Hoje, ele ia continuar a história da Alice.
— Está no quarto. Vai lá.
Luana subiu as escadas a correr, entrou no quarto de arrumos do avô, onde estavam as coisas dele: o seu telescópio, a papelada da loja e os livros.
— Vovô, está na hora da Alice! Ó avô, vais ler-me a história?
— Primeiro vem cá, Luanita. Dá-me um beijo de noite de lua cheia.
O avô pôs os óculos e continuou a contar uma história bonita, a partir do ponto em que tinha ficado antes.

Alice correu como o vento, a tempo de ouvir o Coelho Branco dizer, enquanto virava uma esquina: — Pelas minhas orelhas e pelos meus bigodes! Está a ficar tarde demais!

E assim estiveram Luana e o avô por mais de uma hora. E quando ele parou de ler, a menina sentiu-se contente, pensando que, se não tinha um coelho, tinha o Bizoca. Com um pouco de medo, pensou como Alice se havia precipitado por um buraco dentro e saído num outro mundo muito estranho… Talvez Alice fosse tão distraída como ela… Talvez Alice tenha também o pé na lua, como o vovô e eu…
Luana adorava histórias. Até agora, ainda não tinha aprendido a ler sozinha, mas já podia escrever o seu nome, e na escola a professora já tinha ensinado as letras, as sílabas e algumas palavrinhas e frases simples.
— Vovô, quanto tempo falta até eu ler sozinha?
— Acho que só um bocadinho. Mas agora vamos dormir, que amanhã eu tenho a loja e tu a escola.
Luana gostava de ir com o avô até à loja de produtos agrícolas que ele tinha. Aqueles sacos todos cheios de sementes! E depois também havia os envelopes de papel com sementinhas de flores e frutas, com fotografias por fora. Dente-de-Leão, Flocos, Prímula, Cravina, Gerânio. E cada nome de flor e de planta tinha um outro nome complicado, mas com um som muito bonito quando o avô lho lia. Geranium, primula officinalis, dianthus plumarius… Palavras mágicas…
Um dia, Luana viu um envelope lindo que tinha umas flores muito coloridas, com uma cor no centro e outra na ponta das pétalas. Um trevo colorido, pensou ela, deve dar sorte.
O avô disse que era um amor-perfeito. Viola tricolor. E deu-lhe um envelope com sementes para ela plantar.
Por baixo da janela do seu quarto, onde batia muito sol, Luana limpou a terra das ervas, remexeu tudo e depois espalhou as sementes.
Quando deu a primeira flor, Luana teve pena de a apanhar para a pôr no jarro com água. Era roxa com o centro amarelo e parecia-se com os desenhos de uma blusa que a sua mãe tinha.
Só que ela não voltaria a ver a mãe com aquela blusa. Porque a mãe tinha morrido. E isto queria dizer que, agora, só iria vê-la como via a Alice na história do livro: por dentro, quando fechasse os olhos e pensasse nela. Por fora, de olhos abertos, a mãe tinha desaparecido.
Por isso é que Luana ficava assim, um dia contente, um dia triste, com saudades. E o tempo ia passando, às vezes muito rápido, às vezes devagar.
A avó fazendo-lhe um cachecol comprido, para o qual ela escolhia as cores de que gostava mais. O avô na loja. A escola. As férias. As pequenas frases que ia aprendendo. As visitas do pai ao fim de semana. Regar o amor-perfeito e vacinar o Bizoca. A feira de sábado com a avó. A assadeira quente e o cheirinho do bolo.
Numa noite de frio e muita chuva lá fora, estavam todos a ver televisão. Luana, aborrecida com um filme sem graça nenhuma, pegou numa revista. E, de repente, um estalido, como se uma fogueira tivesse iluminado tudo! Reconheceu pela primeira vez todas as frases que estavam fora das páginas dos seus cadernos e da lousa da escola.
— Magias especiais de volta! — leu Luana. — Não é isto, vovó? — gritou.
— Não é que este pedacinho de gente está a ler, Inês?
Naquela noite, Luana sonhou que a mãe estava com ela e que nada de mal tinha acontecido. Estavam na praia, sentadas na areia quente. De repente, começaram a voar. Um vento forte parecia arrastar tudo, e Luana ficou com medo, mas a mãe estava lá e deu-lhe a mão.
De manhã, Luana acordou triste. Não quis o café com leite e disse que não ia para a escola.
— A que propósito não vais, menina? Vais, sim! — disse a avó.
— Hoje não vou de maneira nenhuma, pronto! — gritou.
E saiu a correr e subiu directamente para o quarto de arrumos do avô. Abriu a porta, ficou lá no escuro meio assustada, com raiva de tudo o que tinha acontecido, com vontade de ter mãe. Ficou lá a chorar um pouco, sentada no chão, junto da estante. Foi então que percebeu que estava com a cara encostada a um livro colorido.
Puxou a manga da blusa e passou-a na cara para enxugar as lágrimas. Abriu o livro. Virou a primeira página. Mais uma. Aproximou-se da janela e leu: Uma vez, depois de dar comida aos peixinhos, Lúcia sentiu os olhos pesados de sono. Deitou-se na relva com a boneca no braço e ficou a seguir as nuvens que passeavam pelo céu, formando ora castelos, ora camelos. E já estava a adormecer, embalada pelo murmurar das águas, quando sentiu cócegas no rosto. Arregalou os olhos: um peixinho vestido de gente estava de pé na ponta do seu nariz.
Então, pouco a pouco, a magia aconteceu. Como se aquela história fosse uma isca de anzol e Luana o peixinho vestido de gente. E ela foi lendo, lendo, lendo, e pensou que também ela ia gostar de inventar histórias, de imaginar coisas e de as escrever no papel…
Ouviu lá fora as risadas da Ciça e da Tereca, que brincavam, equilibrando-se em cima do portão da frente da casa. Luana deu também uma gargalhada, achando interessante fazer coisas que fazia todos os dias e que às vezes pareciam tão maçadoras… Desceu as escadas a correr, abriu a porta da casa e saiu para a rua, gritando que também ela ia conseguir equilibrar-se.

Sílvia Oberg
Pé na Lua – Pé na Rua
S. Paulo, Editora Paulus, 1997
Adaptação


A paixão de ler - François de Closets

François de Closets
A felicidade de aprender e como ela é destruída
Lisboa, Ed. Terramar, 2002
Excertos adaptados




Foi o mais inesperado e imprevisível dos best-sellers de 1992. Um caso editorial – seiscentos mil exemplares vendidos no conjunto – que deixou de boca aberta a sua editora, as prestigiosas edições Gallimard. Regra geral, números dessa grandeza só são atingidos por romances ou, então, por sagas repletas de paixões, aventura, de História e personagens. E se na sua capa aparecer, qual diamante que realça a veste, o nome de um autor de sucesso, tanto melhor.

No caso em apreço, nenhum desses elementos esteve presente. Trata-se de um livro de reflexões tiradas da experiência, redigido por um professor de Línguas e de Literatura que procura apenas e tão-só suscitar nos seus alunos a paixão da leitura. Em suma, um pequeno tratado de iniciação à arte de ler, de que qualquer editora, interessada em não abrir falência no semestre seguinte, teria feito uma edição de cinco mil exemplares, esperando vender uns três mil.

O próprio Daniel Pennac, autor do pequeno livro, confessa que, por mais de uma vez, esteve para desistir, tal era a evidência do que tinha para dizer. Temia estar a forçar portas há muito já abertas. Felizmente, conseguiu ultrapassar esse temor e publicou Comme un Roman [Como um Romance], mostrando mais uma vez, que, regra geral, as ideias que não parecem exigir explicitação que são a melhor forma de fugir aos preconceitos.

Em vez de ter redigido mais um tratado árido de pedagogia literária, Pennac escreveu um texto jubiloso e irónico, trabalhado por uma espécie de suspense que se mantém do princípio ao fim. Comme un Roman não era um título usurpado. Pelo contrário, qualquer leitor, fosse ele aluno, professor ou pai, saía enriquecido da sua leitura, sem nunca se ter perdido pelo caminho.

O objecto-mistério dessa palpitante caça ao tesouro é o livro. Temos, de um lado, os adultos que gostariam de atrair as jovens gerações para a prática da leitura; e, do outro, os adolescentes, filhos dos subúrbios e da televisão, tão pouco preparados para ler Ronsard como para dançar as valsas vienenses. E a história começa logo à nascença. «O drama é que ele não lê.»

Os adultos, julgando-se invisíveis, observam e inquietam-se, pressionam e têm pressa, e quanto mais importunam a sua querida prole, mais esta arrasta os pés e «amarra o burro». A escola, que deveria vir em apoio dos pais, ainda faz pior. Sem sequer se darem conta do que estão a fazer, pais e professores, coligados numa santa aliança, alteram as regras do jogo e transformam a prática da leitura numa corrida ao diploma.

O facto é que os estudantes, os craques e os cábulas, nunca mais se decidem a desligar os auscultadores e a mergulhar na leitura. Os pais vêem a vida a andar para trás. O professor, como é óbvio, queixa-se e lamenta-se, até que a sua mulher, que provavelmente é mãe e tem filhos a estudar, resolve dizer-lhe umas tantas verdades. É esse o momento capital do livro.

«Do que tu estás à espera é que eles te entreguem boas fichas de leitura sobre os romances que tu lhes impinges, que "interpretem" correctamente os poemas da tua escolha, que no dia do exame analisem com subtileza os textos da tua lista, que "comentem" judiciosamente ou "resumam" inteligentemente o que o examinador lhes puser debaixo do nariz... Mas a verdade nua e crua é que nem o examinador, nem tu, nem os pais dos teus alunos estão particularmente empenhados em que os seus filhos, de facto, leiam. Repara, também é verdade que não desejam o contrário. O que eles querem é que os filhos se desenvencilhem nos estudos. Tudo o mais é conversa!»

Estas evidências poderiam ter levado o nosso autor a recuar e a voltar à prática habitual do seu ofício de professor. São evidências que, por partirem de uma observação exacta do estado de coisas, ainda mal foram ditas e já todos se aperceberam de que pensam exactamente o mesmo, excepto que não tinham ousado confessá-lo. Que os pais que preferem um filho leitor a um filho diplomado levantem o dedo! Não tenham vergonha! Na hora de admitir alguém, qual é o empresário que se mostra sensível à prática apaixonada da leitura?

Chegou-se a um ponto tal, que os adolescentes, saturados dos exercícios literários, estão convencidos de que a leitura é, antes de mais e sobretudo, uma inexcedível maçada.

E como acaba o livro? Em princípio, eu não deveria dizer como. No entanto, dado o êxito enorme de Comme un Roman, toda a gente o leu e sabe como acaba. O nosso professor começa por desistir do «ensino da Literatura», pega em romances, em verdadeiros romances de hoje, desses que se encontram à venda em qualquer livraria, que contam histórias, verdadeiras histórias, e decide lê-los em voz alta na sua aula, pelo prazer de ler, é certo, mas também para ver quais seriam as reacções dos alunos. Estes, apesar de rebeldes, deixar-se-ão progressivamente enfeitiçar como crianças que pedem uma história antes de adormecer.

A breve trecho – mas também pode ser muito mais tarde –, vão querer saber quem é o autor, se tem outros livros, quererão ler outros romances, começarão a interessar-se pelos personagens, e assim sucessivamente. O facto é que, mais uma vez, a magia do livro opera e, quase sem darem por isso, vão dar consigo próprios a voltar as páginas, a descobrir «esse vício impune – a leitura».

Sinal de que é chegado o momento de se falar de literatura. Eis por que motivo os vossos filhos não lêem, eis como poderão voltar a ler. Happy end
[1].
[1] Em inglês no original (N. T.)

Pennac, como se vê, está obcecado pelos «que não lêem».

Não alimenta qualquer ilusão quanto aos eventuais benefícios que possam tirar do sistema educativo: «Os mais espertos aprenderão, como nós, a andar à volta da literatura. Serão brilhantes na arte inflacionista do comentário (leio dez linhas, escrevo dez páginas), na prática redutora da ficha (percorro quatrocentas páginas, sintetizo-as em cinco), na caça à citação judiciosa nos alfarrábios de cultura congelada, disponíveis em todos os vendedores de sucesso, saberão manejar como ninguém o escalpelo da análise literária e tornar-se-ão peritos em navegar sabiamente entre os "melhores excertos", navegação essa que os conduzirá seguramente a passar com êxito o exame final dos estudos secundários, a obter uma licenciatura e, quem sabe, a fazer até um doutoramento... não sendo, no entanto, garantido que os deva ao amor do livro.»

Pergunta: que sentido pode ter um saber literário, por mais erudito que seja, que não conduza à paixão pela leitura?

Conhecer antes de estudar

Como explicar o sucesso obtido junto dos leitores por Comme un Roman? Pela simples razão de que o livro explicita o que eles próprios sentiam confusamente sem nunca terem ousado dizê-lo: «É uma estupidez ensinar Literatura a jovens que nunca lêem um livro!» Eis o que teriam gostado de dizer!

Imaginemos um pai, entretido a ler um livro, que vê o filho aflito, a braços com um comentário literário, à procura numa passagem de Balzac dos «índices lexicais, das estruturas gramaticais, do sistema enunciativo e do esquema narrativo», pai esse, aliás, que nunca viu o filho a ler seriamente um livro, nem sequer um livro policial... É pouco provável que esse pai não se interrogue sobre o que está a ver.

Como é possível que uma mesma arte (a escrita), um mesmo objecto (o livro), uma mesma actividade (a leitura) sejam, para um, fonte de prazer e, para o outro, causa de um imenso tédio? Que sentido faz impor aos jovens uma utilização segunda e arrevesada do escrito, quando existe uma outra, absolutamente natural e extremamente gratificante, a leitura, de que se servem tão pouco?

Deste ponto de vista, o que nos é dado constatar, por exemplo, ao nível da educação? Assistimos precisamente a um movimento – fruto de uma admirável obstinação –, que, em vez de promover um contacto directo, caloroso, sensível com as matérias de estudo, persiste em fornecer grandes quantidades de definições.

Felizmente que os professores não se contentam em preparar robôs capazes de passar o exame final. Raoul Pantanella exprime bem essa frustração. Diz ele:

Ser culto é, assim, sinónimo de ter encontrado textos e de com eles ter vivido uma história de amor... Facultar à criança textos para amar, textos para serem vividos...
E se, para começo de conversa, as incentivarmos ao massacre analítico dos textos seleccionados e fragmentados, as lançamos numa furiosa vivissecção literária, sob a forma das eternas explicações, leituras dirigidas, metódicas, dos comentários de circunstância, etc., impedimo-las de realizar uma experiência íntima, de pôr a funcionar a imaginação, o maravilhoso, que toda a narrativa, que todo o texto ficcional veicula.
Coloca-se a charrua teórica antes da emoção, impedindo-a de abrir o seu próprio rego! Para cultivar os seus alunos, o professor de literatura deve provocar neles uma espécie de paixão secreta, o prazer de ler sem qualquer finalidade utilitária. Só depois poderão começar a pensar no que isso representa e como isso se faz.


É ponto assente entre os professores de Literatura – entre aqueles que não só a amam como têm o desejo de a transmitir – que os métodos actuais estão totalmente desfasados das mentalidades adolescentes. O mal-estar está de tal modo difundido que as muitas cartas que Daniel Pennac recebeu dos colegas não pretendiam criticar o iconoclasta, antes manifestar-lhe plena concordância com as ideias que defendera.


Em contrapartida, a corporação dos professores de Letras, com os seus corpos constituídos, os seus sindicatos, as suas associações e, sobretudo, a inspecção-geral, mostraram uma atitude mais do que reservada. O diagnóstico formulado por Comme un Roman, caso fosse tomado em consideração, desencadearia a prazo, umas após outras, uma série de modificações de fundo, para as quais os responsáveis do nosso ensino não estão preparados.

Como obter, ao mesmo tempo, o domínio da língua e da expressão, o conhecimento das obras literárias e o amor pela leitura? O sistema actual teima em encarar estes objectivos como complementares quando aquilo a que assistimos é à sua oposição mútua, e que misturá-los é a melhor maneira de destruir com uma das mãos o que com a outra se construiu. Não se pode impunemente desmembrar textos, desarticulá-los, procurar na língua do século XVII o modelo da língua falada no século XX ou reduzir as obras ao que «sobre elas se deve pensar», sem estar, ao mesmo tempo, a desenhar tendências nefastas a longo prazo.

Temos, no entanto, de admitir que não é fácil pôr de pé um ensino da língua. Se o fosse, há muito que seria conhecida a receita do milagre. O facto é que a explicação tradicional do texto não é mais estimulante do que a leitura metódica. Na realidade, qualquer exercício, desde que normalizado, tende a esterilizar a sensibilidade e a imaginação. Cria no aluno uma certa obsessão pelos resultados (exigidos e a obter) que, progressivamente, se centra sobre os métodos que, a prazo, se transformam num receituário, numa listagem de receitas.

O texto transforma-se em pretexto, perdendo a sua função primeira, ou seja, a transmissão de um sentido, de uma emoção e de uma história.

A introdução de um método representa um risco – a de provocar um corte definitivo com a literatura viva. Por outro lado, a recusa de um método impede, a prazo, que se entre na intimidade de um discurso. A bissectriz passaria, algures, pela utilização de um método que, além de evitar cuidadosamente os seus próprios efeitos perversos subjacentes, fizesse, sobretudo, descobrir o prazer de manejar a língua.

Tem-se, por vezes, a impressão de que o recurso sistemático aos exercícios é uma forma de comodismo pedagógico (na medida em que ensinar, avaliar e dar notas se torna mais fácil), mais do que uma resposta adaptada ao despertar da sensibilidade ao literário. Esse comodismo não seria criticável se, no cômputo final, os jovens tivessem adquirido o gosto pela leitura. Infelizmente, nem isso acontece.

Os novos alunos

As objecções metodológicas de Georges Lanson mantêm-se, pois, pertinentes. Razões de ordem cultural e sociológica conferem-lhes, aliás, uma actualidade acrescida. No princípio deste século, o Ensino Secundário estava, no essencial, reservado aos filhos da burguesia. O professor de línguas e de literatura dirigia-se a alunos que haviam crescido num meio onde a cultura literária era omnipresente. Livros e jornais faziam parte do quotidiano, numa época em que a vida privada ainda não fora invadida por altifalantes e ecrãs.

Toda a família lia. Toda a gente falava do que andava a ler. As pessoas incitavam-se mutuamente à leitura. É verdade que essa prática era demasiado convencional, conformista e cloroformizada, relativamente às próprias obras, mas constituía uma boa entrada na matéria.

Desde muito novas, as crianças aprendiam de cor poemas e fábulas. Em seguida, vinham as Humanidades – corpo central do ensino que relegava para a periferia as demais matérias. Ao entrar no liceu, a leitura, em particular a leitura dos clássicos, já era um hábito bem enraizado, e a literatura, sob as suas diferentes formas, uma presença familiar.

Era nesse momento que o professor dava início ao estudo da história literária e das diferentes obras de referência. Se Lanson formulou as suas objecções, no contexto que referimos, considerando que os alunos de então não tinham bases bastantes para abordar a História da Literatura, o que diria ele hoje?

As turmas de que fala Daniel Pennac são formadas por adolescentes que não receberam na família qualquer iniciação literária. Além disso, vivem no pânico de um eventual insucesso escolar: «… na realidade, não apreciam os livros. Há vocabulário a mais, nos livros. Há também páginas a mais. Em suma, há livros a mais. Livros? Não é coisa de que se goste por aí além».

Claro que continuam a existir alguns estabelecimentos de ensino à antiga, boas escolas burguesas onde as crianças, bem preparadas pelas famílias, vêm para aprender como antigamente. A tendência, no entanto, é a de se tornarem uma excepção (e de serem desesperadamente procurados pelos pais!). E, depois, há os outros, todos os outros estabelecimentos, dos menos maus aos piores, confrontados com uma população totalmente diferente. Se, noutros tempos, estava reservado a uma minoria, o Ensino Secundário tornou-se a escola de toda a gente.

Neste novo contexto, os professores estão perfeitamente conscientes de que, no processo de aquisição de uma cultura literária, deixou de haver qualquer elo de continuidade entre a escola e as famílias. A bem dizer, deixou de haver qualquer patamar – partem, pois, do nível zero.

É totalmente impraticável apresentar o livro como um objecto de uso corrente e a leitura como uma prática habitual; ou falar de teatro como de um tipo de espectáculo bem identificado; ou empregar palavras como «clássicos» ou «românticos», como se de categorias bem definidas se tratasse, ou nomes como «Voltaire», «Rousseau», «Stendhal» como se fosse de gente conhecida de que se estivesse a falar. Por outras palavras, o professor tem de abrir os alicerces da literatura num solo desértico e pouco preparado para os receber.

Tem, sobretudo, de se bater contra uma cultura, a cultura dos jovens, que marginaliza a leitura e, mais ainda, a literatura. Os alunos vivem mergulhados num universo sonoro, rodeados de imagens, e não num universo do escrito. São constantemente solicitados por mil e uma distracções de fruição imediata que não exigem qualquer esforço, nenhuma iniciação.

Os promotores desse novo ensino tinham em mente favorecer as crianças dos meios populares ou, pelo menos, colocá-las numa posição de igualdade face aos filhos da burguesia. Os inquéritos revelam que aconteceu justamente o contrário. Podemos, pois, perguntar-nos o que terão ganho com essas inovações pedagógicas todos aqueles alunos (a grande maioria, aliás) que não são bons em Francês, que, na realidade, não são bons em nada – o que não quer dizer que não prestem para nada! – todos aqueles, enfim, que, com um ano de atraso e com muita indulgência à mistura, conseguem obter o seu diploma de estudos secundários. Avalia-se uma árvore pelos seus frutos.

Os professores universitários não se cansam de sublinhar a pouca preparação dos alunos que chegam à universidade. Um desses professores teve a ideia de colocar a esses estudantes uma série de perguntas sobre matérias que deveriam ter sido dadas no 2° e no 3° ciclos do Ensino Básico, perguntas, aliás, que seria vergonhoso colocar a um aluno que tenha acabado o secundário, perguntas, por exemplo, sobre a autoria das obras mais célebres.

As respostas obtidas foram uma autêntica catástrofe. Revelavam uma incultura dificilmente concebível, após tantos anos de estudos aturados e sancionados por um diploma. Os seus colegas, em contrapartida, não se mostraram surpreendidos. Há muito que sabiam que assim era. O professor guardou essas provas como se tratasse de um segredo da defesa nacional. «É evidente – dizia-me ele – que as não posso mostrar a ninguém.»

Danièle Sallenave não tem desses pudores cúmplices. Não tem qualquer pejo em denunciar as lacunas dos seus estudantes:

No primeiro ano e durante uma parte do segundo, sou uma espécie de Dr. Kouchner – um professor da brigada humanitária. Tenho à mão o meu estojo de primeiros socorros de sintaxe e de ortografia, os meus pensos de urgência, o meu quilo de datas históricas.
Chego com as conjunções, obviamente liofilizadas, e com a gramática em pó; relembro o que é uma concessiva e o sistema dos modos e dos tempos, recordo que INRI não é o segundo nome de Jesus, que Caim não era filho (ou irmão) de Édipo, e que o Confiteor não é uma especialidade regional.»[2]

Não há pedagogia, por mais milagrosa que seja, que consiga dar uma cultura literária a todos os jovens que vivem num mundo não literário. Partir da própria criança, procurar deliberada e obstinadamente despertar-lhe o interesse, terá sempre mais hipóteses de sucesso do que partir de esquemas epistemológicos. O melhor ensino é aquele que dura uma vida inteira, e não apenas o tempo de preparação de um exame.


[2] Danièle Sallenave, Lettres Mortes, op. cit.