Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens

domingo, maio 20, 2007

Para uma biblioterapia - Claudio García Pintos

Claudio García Pintos
A Logoterapia em Contos
S. Paulo, Paulus, 1999


Excertos adaptados



No ano de 1977, o Professor Viktor Emil Frankl inaugurou a Feira do Livro da Áustria com uma conferência sobre o livro como recurso terapêutico, na qual defendeu a possibilidade de cura através da leitura. Na oportunidade assinalou, até, casuisticamente, situações em que um livro salvou uma vida, fazendo o leitor desistir da ideia de suicídio, e outras em que pessoas doentes, no seu leito, se viram reconfortadas pela leitura.

Comentou igualmente o caso de pessoas que, estando presas, melhoraram a sua atitude de vida por intermédio de um livro. Citou, por exemplo, Mitchell, um preso de San Quentin, em San Francisco, sentenciado à pena de morte na câmara de gás. Inteirado de tal circunstância por ocasião de uma palestra para presidiários, Frankl convidou-o a descobrir o sentido da sua vida, mesmo estando em vésperas da morte. Incitou-o até, de alguma maneira, à leitura da obra de Tolstoi, A morte de Ivan Illitch.

A personagem de Tolstoi vive uma circunstância semelhante à do presidiário. Tempos depois, Mitchell foi conduzido à câmara de gás e a condenação foi executada. Lendo uma entrevista que concedeu ao Chronicle de San Francisco, alguns dias antes do cumprimento da sentença, podia-se perceber que a mensagem de Tolstoi havia sido captada por aquele homem, que, embora não tivesse podido evitar a condenação, pôde evitar recebê-la no meio do vazio e do desespero[1].
[1] Frankl, Viktor E., Psicoterapia y Humanismo, México, Fondo de Cultura Económica, 1984.

Da biblioterapia ao bibliodiagnóstico

Basicamente, a partir da abordagem logoterapêutica e das ideias mais ou menos sistemáticas de outros autores, propõe-se a chamada biblioterapia, com a intenção de utilizar o livro como recurso terapêutico.

Considerando o valor testemunhal e referencial do livro, podemos facilmente compreender que a sua implementação terapêutica pode ser válida e efectiva. Muitas vezes, como se tem dito, actua de maneira espontânea, quando o paciente chega à consulta motivado pelo que leu ou está a ler.
Mas, então, se falamos de biblioterapia, não poderíamos falar de bibliodiagnóstico? Sim. De facto, o livro também pode ser usado como recurso de diagnóstico. Não podemos, obviamente, estabelecer convalidações estatísticas nem pautas psicométricas, mas sim compreendê-lo como um recurso projectivo ao serviço do diagnóstico.

Como método de conhecimento do paciente, não obedece, decerto, a parâmetros convencionais, mas apresenta-se como excelente recurso para o conhecimento intuitivo do outro. “Intuitivo” significa que se pode praticar um minucioso processo de observação das respostas do paciente à narrativa, isto é, pode observar-se os seus comentários a respeito do conteúdo, assim como as suas mudanças durante a leitura, tanto quanto as conclusões a que chega.

Dever-se-á, de acordo com cada caso, escolher a narrativa que mais se adapte às necessidades do diagnóstico e trabalhar o conjunto das respostas obtidas. Desde já, assim como a biblioterapia se reconhece integrada, como técnica, num conjunto terapêutico, actuando somente em conjunção com outros modos de abordagem, também o bibliodiagnóstico será apenas concebido como mais uma técnica projectiva em colaboração com outras, integradas em função de um processo de psicodiagnóstico.

Exemplos

Apresento a seguir uma série de histórias através das quais pretendo exemplificar o uso concreto da palavra escrita com uma finalidade terapêutica. Trata-se de três casos em que integro a utilização da biblioterapia na prática individual ou grupal, de acordo com a dinâmica própria de cada circunstância. Vejamos.

Caso 1: Trata-se de João, um homem de 37 anos, casado com Maria, de 32, e pai de dois filhos, Roberto, de 6 anos, e Fernanda, de 3. João é funcionário público. O relato da sua vida está repleto de factos dramáticos, como a morte prematura da mãe, o falecimento posterior do pai, as suas dificuldades para ser alguém na vida, até conhecer Maria, tendo a situação, a partir daí, começado a tornar-se um pouco melhor. Nasceram filhos sadios, e agora vive as dificuldades económicas de todo o empregado cujo salário não é suficiente para uma vida tranquila. João começou então a assumir perante a vida uma atitude francamente pessimista. Vive num estado de derrotismo, agravado, obviamente, pelas suas actuais condições. Muito embora seja verdade que o dinheiro é escasso e que a realidade não corresponde nem um pouco às suas pretensões, pode-se dizer que a vida de João é uma vida feliz. A mulher ama-o, os filhos são saudáveis e ele tem a possibilidade de trabalhar e de manter a casa dignamente. De qualquer maneira, a sua atitude transforma-lhe a vida numa pesada carga. A sensação de vazio apodera-se dele com frequência, acompanhada de estados de angústia e de desânimo.

João comenta que um domingo, seguindo uma sugestão minha, foi com a família ao parque que fica perto de uma auto-estrada. Era um dia soalheiro e muita gente já se encontrava no local. Enquanto Maria caminhava com Fernanda, João começou a jogar a bola com Roberto. Todos se divertiram muito, com excepção, é claro, de João. Enquanto jogava com Roberto, olhava para toda aquela gente… pareciam tão felizes, como se não tivessem problemas… tive de fazer um grande esforço para sair com as crianças e com Maria e, acredite, eles divertiram-se bastante, mas eu continuei a sofrer por dentro… Perguntava‑me como é que aquelas pessoas faziam para não terem problemas… O discurso de João era, evidentemente, tão pessimista como sempre. Continuava a dar às circunstâncias um carácter determinante, como se estas o obrigassem a viver mal, a sofrer. A certo momento faz o seguinte comentário: Sabe que… eu estava a olhar para as crianças que faziam papagaios de papel e pensava nos papagaios de papel… lá em cima, livres, fazendo o que querem… como seria lindo ser um papagaio de papel, ou um avião, ou um pássaro, e poder voar, ignorar os problemas e ser livre… Naquele preciso momento recordei uma canção escrita por um grande amigo meu, um poeta popular brasileiro[2], que se chama Pipa[3]. Disse então a João que queria que ele ouvisse aquela canção. A melodia é muito simples, mas muito bonita, e a letra, em português, mesmo para quem, como eu, fala espanhol, é fácil de entender. João ouviu-a duas vezes e logo lhe dei a letra por escrito. Eis o final da canção:

… voar com liberdade…

ser livre é um desafio

quando se tem a vida

sempre presa por um fio.

João leu e releu a letra várias vezes. Em determinado momento, olha para mim e diz‑me: Sabe que é certo… nunca havia pensado que o papagaio de papel, que voa tão alto e parece tão livre, está preso… a letra é boa… A partir dali começámos a reflectir juntos sobre o carácter condicionante – não determinante – das circunstâncias e do espaço de liberdade que sempre podemos encontrar mesmo na situação mais adversa. Abordámos a sua tendência para se sentir “uma vítima” e propus-lhe que assumisse a atitude de protagonista da sua própria existência. Finalmente, João pediu-me que lhe desse a letra de Pipa. Obviamente, a minha ideia era que ele a levasse. Na semana seguinte, quando nos reencontrámos, comentou comigo que a pôs debaixo do vidro da sua mesa-‑de-cabeceira, e que todas as manhãs a lê quando se levanta. Aprendeu a melodia, e durante o dia assobia‑a, muito especialmente quando sente que o pessimismo está a surgir, e parece‑lhe que ela é muito útil para o afastar. Reflectimos sobre isso e descobrimos juntos que a leitura de Pipa pela manhã dá-lhe algo de parecido com uma “primeira certeza” ou, como ele prefere dizer, “a certeza do dia”, que lhe recorda que ele pode ser protagonista e não vítima daquilo que lhe acontecer nesse dia que se inicia.

Passadas várias semanas, João faz-me o seguinte comentário: Domingo passado voltei ao parque com Maria e as crianças e estivemos muito bem, porque estava um dia bonito e cheio de gente e, sabe? Comecei a pensar nos papagaios de papel que estavam a subir e dei-me conta de uma coisa que não me havia ocorrido. Os papagaios de papel não somente se movem com liberdade apesar do fio que os amarra, como diz a canção, mas também, se o fio for cortado, já não podem voar… Então pensei naquilo que tantas vezes o senhor me disse acerca de descobrir o sentido das coisas e de dever perguntar‑me mais sobre o para quê do que sobre o por quê de tudo isto… e creio que neste Domingo me dei conta do que o senhor me queria dizer… Se não me tivessem acontecido as coisas que me aconteceram, eu não seria talvez o que sou agora. Ou se tivesse muito dinheiro, não desfrutaria tanto da companhia das crianças, porque com o dinheiro acreditaria poder dar-lhes tudo de que necessitam, não como agora, que não posso dar‑lhes um computador de presente para elas brincarem sozinhas ou outra coisa do género; faço por brincar com elas, por sair com elas, nem que seja para jogar a bola no parque ou andar de bicicleta, é uma forma de estarmos juntos…

É evidente que João descobriu muitas coisas, e essa certeza com a qual começa cada dia tem vindo a permitir-lhe abrir-se a uma nova compreensão das circunstâncias, e modificar assim a sua atitude de vida, passando verdadeiramente de vítima a protagonista.

Caso 2: Neste caso, trata-se de um grupo; concretamente, de um grupo de jovens desportistas que formam uma equipa profissional. Sou chamado pelo técnico, porque ele detectou que o baixo desempenho da equipa se deve fundamentalmente mais a questões anímicas do que a aspectos ou falhas técnicas ou tácticas. Numa entrevista com a equipa, detectam-se sérios problemas no tocante à motivação, particularmente associados a uma auto‑estima muito baixa, um limiar muito baixo de tolerância à frustração, e uma vivência de medo no que respeita ao confronto com o adversário, que bloqueava sensivelmente os potenciais técnicos dos jogadores. Resumindo, a vivência da equipa era a seguinte: considerava-se muito fraca e, no momento de enfrentar a equipa rival, não confiava nos próprios recursos.

Numa das entrevistas, trabalhei com um conto de Mamerto Menapace que se chama Morrer num bando de perus. A narrativa é uma versão semelhante à tradicional história do patinho feio, mas conta a história de um condor que é criado por uma perua choca e que cresce “no bando de perus”, pensando que é um pequeno peru, e olhando com admiração o voo dos condores nas alturas. Assim, acaba “por morrer no meio do bando de perus”, quando na realidade havia nascido para ser aquilo que tanto admirava. Faz-se, evidentemente, um jogo de palavras, tirando partido da contundência das expressões “viver no meio do bando de perus” e “morrer no meio do bando de perus”. O director técnico da equipa havia-me adiantado que se tratava de um grupo com o qual era difícil discutir pormenores e manter reuniões de reflexão que durassem mais de 25 a 30 minutos. São rapazes que não estão habituados a isso: ao fim de 15 ou 20 minutos, dispersam-se e ficam muito inquietos, foi a apreciação com a qual antecipou o meu encontro com a equipa. Existe um preconceito quanto a alguns ambientes de desportistas profissionais, no sentido de que carecem de cultura, e também de interesse em adquiri-la. Mesmo assim, levou-se por diante a experiência, decerto inédita para este grupo, de os reunir nos momentos anteriores a uma partida e ler-lhes um conto. A princípio, quando iniciámos a actividade, houve algumas brincadeiras entre eles e uma certa resistência diante desta iniciativa, que parecia um “dever de escola” ou uma “infantilidade”. Mas, depois de iniciada, todos a aceitaram e responderam ao apelo com atenção e sentido de participação numa actividade que acabou por estender-se ao longo de 80 minutos. Terminada a leitura, houve um momento de silêncio e logo se iniciou a reflexão, breve, sobre a semelhança da narrativa com a sua própria história. Este conto tornou-se para a equipa uma espécie de palavra de ordem tácita ou de “bordão”: Não morrer no meio do bando de perus. A partir dali, começaram a aparecer diferentes elementos que rapidamente permitiram ao grupo prosseguir o trabalho sobre essas questões, modificar a sua atitude e renovar a disposição para o jogo, levando a uma sensível melhoria no seu rendimento. Também neste caso a biblioterapia abriu terrenos e estimulou o grupo de maneira efectiva, de modo que pudesse protagonizar uma modificação necessária para o seu crescimento individual e grupal.

Caso 3: Trata-se da utilização da biblioterapia num workshop de convivência. Ele faz parte de uma série de actividades que são realizadas com um grupo de aposentados recentes e pessoas que estão próximas da aposentação. Eles receberam, através de diferentes palestras e apresentações, assessoria previdenciária, legal e financeira. Mas ainda não enfrentaram o mais importante para eles neste momento: prepararem-se emocionalmente para viverem como aposentados, para encararem uma crise vital tão importante como a que surge nesta etapa da vida. Evidentemente, a chave para superar – ou começar a fazê-lo – o pico crítico (e também para o prevenir) é poder responder à pergunta: qual o sentido da vida a partir desse momento? E a resposta não pode ser obtida a partir da assessoria previdenciária, legal e financeira. É assim que se pretende mobilizar o grupo em torno da questão do sentido da vida, na nova etapa que para ele se inicia. Organiza-se este workshop em torno da leitura e posterior elaboração de um conto, Quebra-cabeças, escrito especialmente para ser utilizado em biblioterapia.

Reúne-se o grupo no salão onde habitualmente se realiza o ciclo de actividades. Os membros estão dispostos em círculo e a tarefa é-lhes apresentada. A ordem recebida indica que se trabalhará sobre a leitura de uma história que reflecte a atitude de diversas personagens diante de uma determinada situação. Eles deverão ouvir a história com atenção. Lê-se então Quebra-cabeças. Terminada a leitura, faz-se um momento de silêncio, e pede-se que resumam numa frase as reflexões que a história suscitou. Recolhem-se os cartões com as frases que escreveram, que são em seguida repartidas entre os participantes. Cada um receberá então a frase escrita por outro, desconhecendo o autor. Se algum deles, por acaso, recebesse a sua própria frase, deveria devolvê-la e pegar noutra. Dá-‑se um momento para que cada um leia interiormente e procure compreender a frase que recebeu. Posteriormente, inicia-se a reflexão em grupo em torno das frases e das reflexões que forem surgindo.

A mobilização gerada pela história reflecte-se naquelas frases que manifestam temores, fantasias, decepções, ilusões, projectos, expectativas, desesperança, desorientação, negação, depressão, optimismo… isto é, um leque de alternativas que, no seu conjunto, revelam o panorama complexo que o aposentado enfrenta. A elaboração em grupo, a possibilidade de empregar essas frases num âmbito diferente, apresenta-se como uma boa oportunidade para começar a encarar esse panorama com maior certeza. A mobilização surgiu a partir da introspecção propiciada pela leitura do conto. Conseguimos identificar-nos com as personagens e descobrimos diferentes opções para encarnar ou interpretar os caminhos de resolução da crise que estava a ser vivida.

Poderíamos citar muitíssimos casos de aplicação da biblioterapia, tanto na modalidade individual como na de grupo, tanto na prática psicoterapêutica como na psicoprofilática.

E, do mesmo modo, é válida a utilização deste recurso na prática docente. Muitas vezes acontece que certas ideias teóricas que o aluno não consegue assimilar, podem ser integradas a partir de uma narrativa de ficção, que mostra de um modo mais imediato o seu conteúdo. Refiro-me à utilização do conto de Edgar Allan Poe, William Wilson, como excelente recurso para estudar e compreender os conceitos: consciência/inconsciência, por exemplo.

Quebra-cabeças, de Claudio García Pintos

Quebra-cabeça apresenta-nos a história de quatro tolos que, perante a necessidade de atravessar um bosque, assumem atitudes diferentes. Basicamente, propõe-se a escolha da atitude a assumir quando temos de enfrentar uma crise, representada pelas dificuldades oferecidas pela dita travessia, e o recurso a dois elementos fundamentais: a descoberta do sentido (aqui tratado como “princípio de coerência” – é o botão que põe de pé o quebra-cabeças) e a coragem que exige de nós o assumir da responsabilidade em seguir o caminho proposto.

Quebra-cabeças

Era uma aldeia de tolos. Uma aldeia habitada por pessoas habituadas a viver tolamente, fugindo aos problemas, não resolvendo situações, mantendo relações superficiais e passageiras… Ninguém conhecia bem o seu vizinho e alguns nem sabiam se alguém vivia na porta ao lado.

Um dia, um grupo de quatro tolos organiza uma excursão. Tratava-se de um passeio pelo bosque que ficava próximo da aldeia. Assim, sem previsões nem provisões, os tolos saíram da aldeia. Chegando à entrada do bosque, descobriram que tinham diante dos olhos a obscura maravilha de sendas caprichosas e galerias desenhadas por árvores de frondosa presença e húmido acolhimento. Escolheram uma clareira como entrada e introduziram-se nessa cativante imagem.

Uma vez dentro, facilmente foram enganados por uma manhã maravilhosa, que confundiu os seus passos e os fez perder a referência da entrada escolhida. Sem saberem que decisão tomar, seguiram em frente, esperando encontrar a qualquer momento uma saída. Cedo começaram a enfrentar riscos de todo o tipo. Um deles começou a perceber sons, ruídos estranhos e desconhecidos. Pensou que se tratava dos duendes do bosque, fantasmas que habitavam aquela húmida escuridão e perseguiam os intrusos que ousavam invadi-la. Sentiu medo, vacilou um momento, quis fugir, mas logo reagiu: tapou os ouvidos com as mãos e ficou tranquilo, porque, assim pensou, os duendes deixariam de existir.

Outro descobriu entre as sombras cerradas do bosque presenças estranhas que o seguiam e o olhavam. Eram curiosos seres cujas formas se modificavam à medida que ele se aproximava ou se afastava deles e que surgiam da escuridão como personagens ameaçadoras. Também sentiu medo. Quis fugir desse círculo no qual fora apanhado pelas sombras e pelos seus temores. Logo reagiu e, tal como aconteceu com o outro tolo, descobriu o que fazer: tapou os olhos com as mãos e ficou tranquilo, porque, assim pensou, as sombras ameaçadoras deixariam de existir.

O terceiro tolo, que gostava de cantarolar enquanto caminhava, começou a sentir personagens invisíveis que, com vozes estranhas e lânguidas, entoavam cantos de melodia envolvente. Sentiu medo. Quem seriam essas personagens que repetiam invariavelmente os seus cantos com um tom que o assustava, com uma sonoridade inquietante? Quis fugir delas, mas não conseguiu. Para onde ia, elas iam também. E tal como aconteceu com os tolos anteriores, tomou uma decisão: tapou a boca, parou de cantar e ficou tranquilo, porque, assim pensou, as vozes ameaçadoras deixariam de existir.

O quarto tolo, que gostava de caminhar e de percorrer todos os atalhos do bosque, cedo descobriu que, por mais que caminhasse, chegava sempre ao mesmo lugar. Acelerava o passo, como se isso lhe permitisse sair mais depressa do labirinto verde-escuro em que se havia metido. Mas de nada adiantava; por mais que corresse, chegava sempre ao mesmo lugar. Sentiu-se apanhado pela própria impossibilidade de encontrar a saída. Quis fugir, mas não pôde. Para onde quer que caminhasse, os atalhos levavam-no, invariavelmente, ao mesmo lugar. Logo reagiu, e tal como aconteceu com os outros três tolos, descobriu o que tinha a fazer: ficou parado, porque, assim pensou, os caminhos não se cruzariam, impedindo-o de sair do lugar. Mas sentiu que não tinha resolvido o problema.

Permaneceu ali parado durante um momento… e também não tinha saído do labirinto, que continuava a existir em seu redor, cerrado, enigmático, e verde-escuro. Pensou um instante e disse para consigo que, se existia uma entrada, devia existir uma saída. Só a encontraria se a procurasse. E, apesar do medo, decidiu procurá-la. Pegou numa pedra, amarrou-a a uma corda que fez com raízes e lançou-a para o meio da espessura verde do bosque. Seguindo a corda como se fosse um atalho, caminhou de maneira pausada, mas decidida.

Assim, inventando atalhos através do verde espesso do bosque, chegou à presença do duende do bosque. Era uma pequena e simpática personagem, que o recebeu afectuosamente. O tolo assustou-se, mas não tentou fugir dele, porque percebeu que seria bem recebido. O duende guiou-o até à saída mais próxima do bosque. Ao chegar lá, deparou-se com uma curiosa montanha formada por milhares de peças de um quebra-cabeças gigante.

Então, o duende disse-lhe que a condição para encontrar a única saída que o bosque tinha era reconstruir inteiramente a figura do quebra-cabeças. O nosso tolo sentiu-se decepcionado por ter de realizar tão árdua tarefa, tendo em conta aquela enorme quantidade de peças. Mas o duende do bosque animou-o dizendo que devia tentar, ou então voltar para o centro do labirinto, e ficar lá parado, como já havia feito antes.

O duende deixou-o sozinho para que decidisse o que devia fazer e, desejando-lhe sorte, perdeu-se na espessura do bosque. O tolo deu início à tarefa. Trabalhou muitas horas, tentando reconstruir a figura em questão. Teve de enfrentar desânimos e frustrações. Foi relativamente bem sucedido e conseguiu reconstruir uma parte da figura. No decurso das suas tentativas, encontrou no meio da montanha uma peça curiosa. Era semelhante às demais, mas tinha uma particularidade: no canto da peça havia alguma coisa que se parecia com um botão vermelho. Ele deixou-a de lado e continuou a tentar. Passado um momento, voltou àquela peça… e como se alguma coisa dentro dele o impelisse, pressionou o botão.

No mesmo instante, presenciou um facto maravilhoso: em simultâneo, todas as peças começaram a juntar-se automaticamente, de maneira precisa e muito cuidadosa, até formarem a imagem perfeita e acabada do quebra-cabeças. Ainda sob o efeito da surpresa, percebeu que se tratava do desenho de uma porta tão vividamente pintada que parecia real. Tão real parecia que teve vontade de rodar o puxador e de a abrir. Foi o que fez, e a sua surpresa tornou-se ainda maior porque a porta se abriu, e ele pôde, finalmente, sair do bosque.

Penetrou assim numa paisagem espectacular, intensa, luminosa, com vales regados por sinuosos regatos e enfeitados por pomares coloridos, percorridos por pessoas que cantavam sem tapar a boca, cujos olhares possuíam um brilho especial que não ocultavam, e que desfrutavam de cada som, cada canto, cada silêncio. E enquanto ele se abria ao esplendor daquela nova paisagem, certo de nunca mais regressar à aldeia de onde havia saído, os outros tolos permaneciam com os olhos tapados e a boca fechada, acreditando tolamente que, assim, os fantasmas do medo e do temor deixariam de existir.

Papagaio de papel de Luiz Falcão

Papagaio de papel (Pipa, em brasileiro), do poeta brasileiro Luiz Falcão, apresenta‑nos, de uma maneira muito simples e bela, a vivência da liberdade. A imagem de um papagaio de papel a brincar no ar, a fazer piruetas vistosas e coloridas, associa-se imediatamente à ideia de liberdade. Voar, subir, chegar onde os olhos não abarcam, são circunstâncias que muitas vezes percebemos como privilégios dos pássaros ou dos papagaios de papel, especialmente quando nos sentimos prisioneiros de diversas circunstâncias da vida.

Nessa busca de liberdade, muitos de nós assumem o papel de vítima, acreditando que, em certas situações, ser-se livre é difícil. Mas a canção chama a nossa atenção para a própria condição do papagaio de papel, que não deixa de ser livre, não se submete nem assume o papel de vítima, apesar de estar preso a um cordel. E deixa-nos a sua mensagem: ser‑se livre é um desafio quando se tem a vida sempre presa por um fio. Da nossa atitude depende, pois, sermos vítimas ou protagonistas das circunstâncias, descobrirmos a verdadeira liberdade ou desistirmos da sua busca.

Pipa

Pipa vai, pipa vem,
voa, voa, me eleva também.
Pipa vai, pipa vem,
voa, voa até onde os olhos não vêem.

Fazendo piruetas no céu,
Lindas, tão coloridas, de papel.
Voar por toda parte.
Um jogo feito arte.
No ar, sempre alegre como um passarinho.
Voar em liberdade.
Ser livre é um desafio.
Com a vida sempre presa por um fio.

Pipa vai, pipa vem,
voa, voa, me eleva também.
Pipa vai, pipa vem,
voa, voa até onde os olhos não vêem.

Última página

Em última análise, o livro como recurso terapêutico realiza um serviço formidável ao despertar no paciente uma resposta operacional pessoal e significativa perante a situação crítica que o inibe de decidir e actuar conscientemente. A palavra escrita, com toda a riqueza encoberta do “não-escrito”, transforma-se em presença permanente, que assume características dinâmicas especiais:

a) o texto interage connosco; de certo modo, poder-se-ia dizer que nos ouve e nos fala, dialoga incondicionalmente com o leitor;

b) no contexto desse diálogo, não deixa de nos dar respostas, não se furta a fazê-lo;

c) compartilha os nossos próprios pensamentos.


Várias vezes se apresentou o livro como uma boa companhia; podemos encará-lo também como uma boa companhia terapêutica, que nos acompanha na busca de respostas novas para situações de vida.

Desse modo, bem poderíamos afirmar que o livro, na sua finalidade biblioterapêutica, nos revela tanto quanto nos rebela. Quero dizer que, num primeiro momento, faz-nos ver, ilumina uma situação, revelando-nos aspectos, matizes, circunstâncias, alternativas, caminhos, que até então não eram vistos nem apreciados por nós.

Uma vez iluminado o panorama, sacode-nos, estimula-nos e incentiva as nossas genuínas possibilidades de elaborar uma resposta própria e significativa, rebelando-nos no tocante à situação a ser resolvida, incitando-nos a sair do desespero, da confusão ou da resignação, e actuando em função de uma resposta nova e possível.

Quando esta revelação e esta rebeldia se conjugam, o indivíduo apropria-se da situação de vida que tem diante de si e fica em posição de resolvê-la significativamente. Esse objectivo é, seguramente, “o objectivo” fundamental da psicoterapia, isto é, que o indivíduo acabe por ser cada vez mais ele próprio.

O livro não é a única alternativa para o conseguir, mas a biblioterapia oferece-se como espaço nobre para que todas as pessoas possam acabar por fazer da sua biografia uma história dotada de sentido.



*** O autor, Cláudio García Pintos é um estudioso argentino, cujo núcleo de interesses se prende com a Logoterapia: uma terapia centrada no sentido, inaugurada pelo médico vienense Viktor Emil Frankl (1905-1997). A Logoterapia e Análise Existencial constitui a terceira escola vienense de Psicoterapia, após a Psicologia Freudiana e a Psicologia Individual de Adler, com marcadas vertentes humanística e antropológica.


[2] Trata-se de Luiz Falcão, um carioca que vive em Florianópolis, autor de numerosas peças.
[3] Papagaio de papel.

O fenómeno da desleitura - Inês Pedrosa

Inês Pedrosa
Única, Expresso
15 Novembro 2003


Excertos adaptados


Num canto de Lisboa, ao lado do rio, no Centro Cultural de Belém, pode-se ver um projecto de Fernanda Fragateiro – um projecto não apenas importante, mas de um esplendor urgente, porque trata de uma das mais graves e contagiosas doenças portuguesas: a desleitura.

A desleitura é uma variante activa e mortal do analfabetismo: o doente aprende a juntar as letras, mas permanece a vida inteira incapaz de interpretar um texto, ou mesmo de ler tudo o que exceda a dimensão de um título garrafal ou de uma legenda de fotografia. Em casos tipificados, pode atingir o nível da chamada borbulhagem snobe, uma alergia a toda a produção literária da sua língua, que o doente considera, no seu todo e a priori, «ilegível» ou «maçuda».

Confesso que, depois de ler, no passado domingo (9 de Novembro), no jornal «Público», a descrição do novo programa de Português do Ensino Secundário feita pela direcção da Associação dos Professores de Português, o que me espanta é que, apesar de tudo, ainda haja tantos jovens capazes de sobreviver ao desprezo pela literatura que neste programa se enuncia de forma transparente – tanto no que se diz como na fórmula protopomposa de o dizer: a) Redução do 'corpus' literário. (…) b) Alargamento do 'corpus' não-literário; O novo programa introduz o artigo científico e técnico, o artigo de apreciação crítica, o comunicado, o contrato, a crónica literária, a declaração, a reclamação, o regulamento, o requerimento, o texto audiovisual, o texto de reflexão, o texto publicitário e o verbete de dicionário e de enciclopédia. c) Alargamento da compreensão oral. As novas competências a desenvolver explicitamente são a escuta do discurso político e a componente de compreensão do oral durante uma entrevista ou um debate. d) Alargamento das competências de leitura. Leitura de relatório (…). Ninguém será capaz de explicar a estas almas-em-alínea que quem aprende a ler em profundidade Gil Vicente ou Camões, a poesia de Garrett ou o conto do século XIX (só para falar das obras literárias agora excluídas) é capaz de se lançar a todo e qualquer relatório ou regulamento, requerimento ou artigo jornalístico – e que a inversa não é verdadeira?

Peço ao Ministro da Educação o favor de meditar no suplemento publicado este mês pela revista francesa «Lire» sobre as formas de estimular o gosto pela leitura nos jovens. Ficamos a saber, por exemplo, que o Ministério da Educação francês se tem preocupado em aumentar o peso da literatura no ensino da língua, desde a primeira infância – anexando listas de obras literárias aos programas (obras obviamente adequadas a cada idade). Nós preferimos que os nossos jovens aprendam a elaborar relatórios eficientes – talvez para que possam, daqui a 20 anos, justificar diante da Europa a permanência do País neste singularíssimo último lugar de produtividade.

O que me mantém o optimismo em boa forma é o contacto permanente com as excelentíssimas bibliotecas públicas portuguesas (obrigada, Teresa Gouveia; obrigada, Manuel Maria Carrilho) e com os leitores, em número crescente, que as frequentam. Nos últimos anos, tenho tido o prazer de animar comunidades de leitores em bibliotecas variadas. Em Portalegre ou em Loures, na Ericeira, no Pinhal Novo ou, agora, no Seixal, encontrei pessoas fascinantes, que fazem da leitura partilhada uma forma de crescimento interior e de educação para a mudança. Na primeira sessão da comunidade do Seixal, há semanas, pedi a cada participante que falasse de um ou mais livros que tivessem marcado a sua vida e a única que não soube o que responder foi uma estudante da licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, que nos explicou: É que eu tenho que ler tantos livros de crítica, análise das obras que não tenho tempo para ler as obras em si… Ainda assim, comoveu-me que esta estudante sobrecarregada de teoria-da-teoria se dispusesse a ler doze livros extraprograma, e a gastar seis tardes de sábado para viajar através deles com outros leitores.

Pois a exposição da Fernanda Fragateiro no CCB, que se chama «Das Histórias Nascem Histórias», visa precisamente conduzir as crianças para dentro da obra-em-si. O Instituto Português do Livro e das Bibliotecas pediu-lhe para criar uma exposição itinerante sobre a leitura, e a Fernanda decidiu trabalhar sobre dois livros do universo maravilhoso de Sophia de Mello Breyner Andresen – A Floresta e A Menina do Mar. Decidiu também que a exposição seria fortemente interactiva, de forma a que as crianças pudessem, de facto, brincar com as palavras de todas as maneiras. O resultado é magia concreta – um mar de meninos fascinados pelo brilho conjunto das palavras, das aguarelas, dos desenhos-cenário em espiral e das vozes dos actores que dão corpo às histórias. Esta exposição vai percorrer as bibliotecas de Portugal como um raio de luz, procurando nos corpos os cérebros abandonados pela pulverização dos «corpus».

Leitura e descoberta - Alberto Manguel

Alberto Manguel
Uma História da Leitura
Lisboa, Ed. Presença, 1998


Excertos adaptados



Os leitores de livros, em cuja família eu estava a entrar sem o saber (pensamos sempre que estamos sós em cada descoberta e que cada experiência, da morte ao nascimento, é aterradoramente singular), expandem ou condensam uma função que nos é comum a todos. Ler letras numa página é apenas uma das suas muitas manifestações. O astrónomo a ler um mapa de estrelas que já não existem; o arquitecto japonês a ler a terra onde uma casa vai ser construída para a proteger de forças malignas; o zoólogo a ler o rasto dos animais na floresta; o jogador de cartas a ler os gestos do seu parceiro antes de arriscar a carta decisiva; o dançarino a ler as notações do coreógrafo e o público a ler os movimentos do dançarino no palco; o tecelão a ler o desenho complicado de um tapete a ser tecido; o organista a ler várias pautas de música orquestradas na página; os pais a lerem no rosto do bebé sinais de alegria, medo ou surpresa; o adivinho chinês a ler as marcas antigas na carapaça de uma tartaruga; o amante a ler às cegas o corpo da pessoa amada, à noite, entre os lençóis; o psiquiatra a ajudar os pacientes a lerem os seus próprios sonhos confusos; o pescador havaiano a ler as correntes do oceano, mergulhando a mão na água; o lavrador a ler no céu o tempo que vai fazer – todas estas pessoas partilham com o leitor de livros a capacidade de decifrar e traduzir signos. Algumas destas leituras são influenciadas pelo conhecimento de que a coisa lida foi criada para este fim específico por outros seres humanos – notações musicais ou sinais de trânsito, por exemplo – ou pelos deuses – a carapaça da tartaruga, o céu nocturno. Outras são obra do acaso.

Porém, em todos os casos, é o leitor que lê o sentido; é o leitor que reconhece a um objecto, lugar ou acontecimento uma possível legibilidade ou lha concede; é o leitor que tem de atribuir significação a um sistema de signos e em seguida decifrá-lo. Todos nos lemos a nós próprios e ao mundo à nossa volta para vislumbrarmos o que somos e onde estamos. Lemos para compreender ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase tanto como respirar, é uma das nossas funções vitais.

Aprender a ler foi o meu rito de passagem.

Depois de ter aprendido a ler as letras, lia tudo: livros, mas também avisos, anúncios, as letras miudinhas nas costas dos bilhetes de eléctrico, cartas deitadas no lixo, jornais velhos apanhados debaixo do meu banco no jardim, grafitos, a contracapa de revistas nas mãos dos leitores no autocarro. Quando descobri que Cervantes, na sua paixão pela leitura, lia «até os pedaços de papel rasgado na rua», fui capaz de reconhecer exactamente o impulso que o dominava.

Ler forneceu-me uma desculpa para a privacidade ou talvez tenha dado um sentido à privacidade que me era imposta, visto que, durante toda a minha infância, depois de termos regressado à Argentina em 1955, vivi à parte do resto da minha família, a cargo da minha ama numa outra zona da casa. Nessa altura, o meu lugar de leitura preferido era o chão do meu quarto, deitado de bruços e com os pés enganchados numa cadeira. Mais tarde, a minha cama, pela noite dentro, tornou-se o lugar mais seguro e mais isolado para ler naquela região nebulosa entre a vigília e o sono. Não me recordo de alguma vez me ter sentido só; de facto, nas raras ocasiões em que me encontrava com outras crianças, achava as suas brincadeiras e conversas bem menos interessantes do que as aventuras e os diálogos que lia nos meus livros. O psicólogo James Hillman acredita que aqueles que leram histórias ou a quem foram lidas histórias na infância «estão em melhor forma e têm um prognóstico mais favorável do que aqueles que têm ainda de ser familiarizados com a ficção […] Chegando no início da vida, é já uma perspectiva sobre a vida». Para Hillman, estas primeiras leituras tornam-se algo vivo e experimentado, uma forma através da qual a alma se situa na vida». A estas leituras, e por esta razão, voltei repetidas vezes, e volto ainda.

Como o meu pai estava no serviço diplomático, viajávamos muito; os livros davam-me um lar permanente, um lar que habitava à minha vontade, em qualquer altura, por mais estranho que fosse o quarto onde tinha de dormir ou por mais ininteligíveis que fossem as vozes ouvidas do outro lado da minha porta. Muitas noites, acendia o candeeiro enquanto a minha ama trabalhava à sua máquina de tricotar eléctrica ou ressonava na cama em frente à minha e eu tentava chegar ao fim do livro que estava a ler e simultaneamente, adiar o final tanto quanto possível, relendo algumas páginas, procurando uma parte que me agradara especialmente, verificando pormenores que suspeitava terem-me escapado.

Nunca falava com ninguém sobre as minhas leituras; a necessidade de partilhar veio mais tarde. Na altura, eu era soberbamente egoísta e identificava-me completamente com os versos de Stevenson:

Este era o mundo e eu era rei;
Para mim vinham as abelhas a zunir,
Para mim voavam as andorinhas.

A Escola e a família numa encruzilhada - José António Gomes

José António Gomes
Da nascente à voz. Contributos para uma pedagogia da leitura
Lisboa, Ed. Caminho, 1996

Excertos adaptados



Há algum tempo, visitámos uma escola do 2.° ciclo do Ensino Básico, em Famalicão. Fomos descobrir aí um folheto resultante de uma pequena experiência levada a cabo pelo grupo de professores de Português. Eis o texto do folheto, apresentado sob a forma de carta dirigida aos pais:

Senhor(a) Encarregado(a) de Educação,

Vem aí o Natal!
Na qualidade de professor(a) de Português venho ter consigo para, se mo permite, lhe dar uma sugestão e lhe fazer um apelo:
Quer que o seu filho desenvolva a sua sensibilidade, o seu gosto pela palavra e pelas histórias? Que cresça por dentro com valores como a solidariedade, a justiça, o amor, a verdade? Que aumente o seu saber? Que não conheça a solidão? Se quer isto e muitas coisas mais, compre, neste Natal que se avizinha, um bom livro para o seu filho.
Como diz Sophia de Mello Breyner, «o livro é uma festa!». Torne mais festivo o Natal do seu filho, oferecendo-lhe um bom livro que passará de mão em mão, de geração em geração, sempre mais valioso e mais amado.
Se quiser antecipar a sua prenda, pode comprar uma obra de Matilde Rosa Araújo – uma das nossas maiores escritoras de literatura infantil e juvenil – que virá à nossa Escola, no dia 10 de Dezembro. Ela, que sente e compreende as crianças como ninguém, não deixará de autografar o livro do seu filho – e ele terá, por isso, muito mais valor.
Se preferir surpreendê-lo mesmo na Festa de Natal, deixo-lhe uma lista de bons autores para o ajudar na sua escolha.
Colabore com o (a) professor(a) de Português! Ajude-nos a incentivar, no seu filho, o gosto pelos livros e pela leitura. E ele será, um dia, um adulto mais sábio, mais responsável, mais solidário e, de certeza, mais feliz.

Com os melhores cumprimentos,

O (a) professor(a) de Português

Este texto – integrado num projecto com origem na Escola visando a colaboração entre esta e a Família em prol da leitura – foi levado para casa por todos os alunos. O desdobrável continha ainda uma lista de doze autores de literatura infantil, portugueses e estrangeiros. Segundo testemunho de uma das principais animadoras da iniciativa, Manuela Monteiro, delegada de disciplina, os resultados excederam as expectativas. Uma simples feira do livro e um encontro com um escritor na escola transformaram-se, assim, em momentos privilegiados de um processo de colaboração entre professores e pais em torno da necessidade de promover o livro, fomentar o gosto de ler e contribuir para o sucesso educativo e pessoal – o qual passa, cada vez mais, pela melhoria das competências de leitura dos alunos.

Nos últimos tempos, vem sendo notória uma maior preocupação, por parte das escolas, em tirar partido da realização de feiras do livro para promover acções de sensibilização dos encarregados de educação neste mesmo sentido. Procura-se, fundamentalmente:

· Consciencializar a família da necessidade de partilhar responsabilidades com a escola na formação ou na conquista de leitores.

· Sensibilizar os pais para a importância do livro e da leitura na educação, incentivando-os a adquirir livros para os filhos, a acompanhá-los na descoberta do prazer de ler e, se possível, a dialogar com eles sobre o conteúdo das obras.

· Informar os encarregados de educação sobre o tipo de livros mais adequado aos seus educandos, em função do estádio de desenvolvimento em que estes se encontram e do seu nível de competência de leitura. A informação passa ainda pela divulgação da variedade da oferta que hoje em dia se regista na área do livro infantil e juvenil: os «clássicos», o romance juvenil, o conto para crianças, o conto tradicional, a narrativa de mistério e indagação, a ficção científica, a poesia, as enciclopédias e dicionários, as obras instrutivas ou de divulgação, a banda desenhada, os livros ilustrados, etc.

Perguntar-se-á, então, que podem os pais fazer em prol da formação de leitores. Vários autores têm abordado esta questão. No seu livro Como um Romance (Porto, Asa, 1993), Daniel Pennac, por exemplo, descreve de forma particularmente lúcida esses momentos únicos que constituem, de certa maneira, a primeira iniciação da criança à leitura, a sua primeira descoberta dos mundos insuspeitados que as histórias encerram, no quadro de uma singular relação afectiva:

Neste princípio de insónia, repenso o ritual da leitura, todas as noites, à cabeceira da cama, quando ele era pequeno, a horas fixas e com gestos imutáveis: era de certo modo como uma oração. O súbito armistício depois da balbúrdia do dia, os reencontros livres de todas as contingências, o momento de silêncio concentrado antes das primeiras palavras da história, a nossa voz que finalmente soa como de facto é, a liturgia dos episódios... Sim, a história lida todas as noites constituía a mais bela função da oração, a mais desinteressada, menos especulativa, a que dizia respeito apenas aos homens: o perdão das ofensas. Não se confessava nenhuma falta, não havia qualquer preocupação em receber uma porção de eternidade, era um momento de comunhão entre nós, a absolvição do texto, um regresso ao único paraíso que tem valor: a intimidade. Sem que o soubéssemos, descobríamos uma das funções essenciais do conto, e mais generalizadamente da arte em geral, que é impor uma trégua no combate entre os homens. O amor ganhava um novo rosto. E era gratuito. Gratuito. Pelo menos era assim que ele o entendia. Um presente. Um momento fora de todos os momentos. Quaisquer que fossem as circunstâncias. A história nocturna, aligeirava-lhe o peso do dia. Largavam-se as amarras. Ia com o vento, levíssimo, o vento que era a nossa voz.

É consensual, também, o reconhecimento da importância do convívio com os livros desde os primeiros tempos de vida. A interiorização da ideia de que a leitura é uma actividade do quotidiano e o crescimento no seio de uma família que valoriza o livro são factores que contribuem, por certo, para uma maior apetência pelo acto de ler.

No jardim-de-infância e no 1.° ciclo da Escola Básica – em que as actividades em torno do livro e a hora do conto parecem começar a assumir um relevo maior – os educadores devem procurar, desde o início, dialogar com os pais sobre esta matéria. No artigo já citado, Maria Lúcia Lepecki lembra que o professor pode deparar [...] com a inércia do grupo familiar: o facto é que com muita frequência a família não colabora. Não porque resista e de caso pensado se negue, mas, muito simplesmente, porque não sabe o que fazer, como fazer e em que alturas precisas intervir (com que estratégia?) na aproximação entre a criança e o livro.

Torna-se, pois, necessário aconselhar os pais sobre a melhor forma de prosseguir um trabalho concertado de acompanhamento desse pequeno ser que começa a interessar-se pelos livros ilustrados e a dar os primeiros passos na leitura. A família deverá, por exemplo, tomar consciência de que não pode exigir à criança de 6 e 7 anos que leia sozinha, entregue a essa inexpugnável floresta de signos que é o texto (ainda que elementar), incapaz de vencer, por si só, os muitos obstáculos que o livro ainda lhe apresenta. O conto ao fim do dia, a exploração conjunta de palavras e frases (até a própria criança tomar a iniciativa de as ler ou de «corrigir» o adulto) continuam a revelar-se necessários.

Há algum tempo, em conversa informal, a escritora Luísa Dacosta recordava notícias sobre graves agressões perpetradas por crianças em vários locais do mundo. Comentava que, seguramente, essas crianças não haviam sido educadas no sentido do diálogo e de uma abertura ao outro e que, provavelmente, não teriam tido acesso a determinadas obras literárias (por exemplo aos contos de Andersen). Reportava-se, sobretudo, a histórias cujos protagonistas, pelos seus sentimentos e atitudes, dão ao leitor uma noção clara e pungente do que é a dor alheia.

A vibração com a alegria e o sofrimento das personagens permite à criança sair do seu casulo egocêntrico, sentir curiosidade em relação ao pensamento do outro, dialogar com ele. Acresce que a própria leitura da narrativa literária é um diálogo entre a voz que conta e o leitor, podendo, por sua vez, suscitar a conversa entre leitores. Ouçamos de novo Lúcia Lepecki: O primeiro traço de postura psicológica susceptível de formar um leitor é, [...] no meu entender, a disponibilidade de espírito. É preciso educar a abertura ao outro para se poder (e sobretudo para se gostar de) ler. Vem ainda a propósito lembrar as palavras de Paulette Lassalas, acerca do papel da educação pré-escolar: a escola [...] tenta enraizar o poder-ler futuro da criança num querer-ler que supõe um querer comunicar com o outro. [...] A criança fala – ouve; é a primeira condição dessa outra reciprocidade que é ler – escrever.

Parece-nos este um princípio fundamental na formação do leitor. Ele deverá nortear a acção tanto da Escola (nos vários níveis de ensino) como da Família, e necessita, por certo, de ser explicado, de forma clara, aos encarregados de educação.

São já várias as experiências de intercâmbio entre a Família e a Escola. Tornou-se comum ouvirmos relatos sobre pais e outros elementos da comunidade que vieram às aulas para falar da sua actividade profissional ou mesmo para contar histórias aos alunos. A Escola abre-se, de forma crescente, à participação dos pais nos seus projectos.

Guardamos na memória um encontro, em 1993, entre José Jorge Letria e os alunos da Escola EB 2/3 de Pêra Pinheiro. Amplamente participado pelos alunos – quer no diálogo não estereotipado com o escritor quer num espectáculo de excelente qualidade em torno da sua vida e obra –, o encontro teve assinalável acolhimento por parte dos encarregados de educação, que não só assistiram interessados ao espectáculo como marcaram significativa presença na sessão de apresentação pública do livro Histórias do Espelho da Lua (Porto, Asa, 1993), a qual teve lugar na escola.

A experiência tem mostrado que as actividades escolares de Biblioteca de Turma, Leitura Recreativa e Leitura Orientada levam, por vezes os jovens a pressionar os pais no sentido de adquirirem certas obras abordadas na aula. É uma atitude positiva, da qual a Escola e a Família devem tirar partido.

A referência à Biblioteca de Turma suscita-nos uma outra reflexão: a de que as actividades e projectos desenvolvidos no âmbito de áreas como a História, as Ciências da Natureza e a Geografia, entre outras, aconselham, cada vez mais, a organização de Bibliotecas de Turma específicas destas disciplinas, movimentadas em moldes idênticos aos da aula de Língua Portuguesa. Aí teriam o seu espaço próprio algumas biografias de personalidades da História e da Ciência, a par dos chamados livros documentais (enciclopédias juvenis e obras instrutivas ou de divulgação).

Os encarregados de educação precisam de ser motivados a visitar as feiras do livro que se realizam nas escolas – as quais se recomenda que ocorram pelo menos duas vezes em cada ano lectivo. As feiras constituem excelentes pretextos para acções de sensibilização dos pais para a importância do livro e da leitura na formação dos seus educandos. É fundamental que saibam que, através dos livros, podem estabelecer um diálogo gratificante com a criança e o jovem.

Recordemos as palavras de Mercedes Gómez del Manzano a este propósito:

Para que tal diálogo se estabeleça com êxito, precisamos de conhecer a literatura para crianças que existe, precisamos de quebrar com os moldes de uma literatura que nos agradou a nós, adultos, quando éramos crianças, mas que hoje tem pouco para oferecer aos nossos filhos. A literatura infantil que hoje se escreve tem em conta os interesses das crianças e dos pré-adolescentes, vai ao encontro das suas inquietações, é protagonizada por personagens que sentem e pensam como eles, vivem os mesmos problemas e apontam soluções.

Começar a formar leitores

Continua a reconhecer-se como insubstituível o papel dos educadores no desenvolvimento das competências de leitura e no incentivo ao gosto de ler, sobretudo nos casos em que as crianças foram, por esta ou aquela razão, subtraídas a um convívio regular e feliz com os livros, no meio familiar.

Neste particular aspecto, não devemos iludir-nos: a investigação tem confirmado, escreve Ramiro Marques, que as crianças que melhor lêem na escola primária são as que se habituaram a ouvir ler histórias desde bebés e possuem um ambiente familiar onde a leitura e a escrita são actividades diárias. Recorde-se, aliás, que a aprendizagem da leitura, pelas crianças pequenas, é uma actividade diária que decorre em casa, na pré-escola e na rua, e em todas as circunstâncias. Schickedanz, citado por Ramiro Marques, afirma: Os métodos que os pais usam para ensinar as crianças a ler diferem dos usados na escola primária. Os pais ajudam os filhos a aprender a ler todos os dias, quando os levam ao supermercado ou quando lhes apontam os sinais de trânsito, por exemplo. E isto é tanto mais importante, prossegue o autor de Ensinar a Ler, Aprender a Ler, quanto se sabe que as crianças com melhor desempenho na leitura e escrita são as que tiveram muitas experiências com a escrita durante os primeiros anos de vida. Para essas crianças, ler faz parte das suas vidas, muito tempo antes da escola primária.

Este quadro proporciona-nos algumas reflexões:

  • As experiências de pré-leitura, tanto no meio familiar, como no jardim-de-infância, são um factor importante no sucesso educativo das crianças.

  • Os contactos frequentes com o livro, em casa e nas actividades pré-escolares, constituem momentos privilegiados das experiências de pré-leitura.

  • Nesses momentos, o encontro da criança com o livro pode ser solitário ou contar com a mediação, mais ou menos activa, mas sempre atenta, do adulto.

  • A componente lúdica, antecipadora da leitura-prazer, não pode, em caso algum, estar ausente do relacionamento inicial com o livro. Aos olhos da criança, este começa por ser um brinquedo. Tal facto favorece a ligação afectiva aos livros e ao acto de ler. Pobre do álbum infantil que se não desgaste nas mãos dos pequenos leitores e venha, em vez disso, a morrer, corrompido pelo pó, no cimo da estante, ou fechado na arrecadação de materiais do jardim-de-infância, com o argumento de que é caro e os meninos o estragam!

A importância da biblioteca para a promoção de hábitos de leitura

Teresa Gonçalves
in
Educare, Educere.
Revista da Escola Superior de Educação de Castelo Branco

“Moinhos de Vento, Moinhos de Pensamento”, Ano IX, Nº14, Junho 2003

Excertos adaptados



“ Ler ou não ler” é, uma vez mais, a questão.

Nas sociedades contemporâneas, a leitura (em contexto escolar, profissional ou de lazer) assume um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento cultural, científico, político e, consequentemente, económico dos povos e dos indivíduos. Por isso, tanto se tem reflectido sobre a forma de incentivar e motivar as pessoas para a leitura, em especial as crianças e os jovens, que ainda não criaram e enraizaram esse hábito tão enriquecedor.

Interlocutor privilegiado, pelo tempo que partilha com os mais novos, a escola pode ajudar a criar e a sedimentar hábitos de leitura quer promovendo e explorando o livro, com temáticas adequadas e atractivas para as correspondentes faixas etárias, quer dinamizando actividades inovadoras e interessantes com livros na biblioteca escolar, quer propondo a navegação em sites diversificados que põem o aluno em contacto com a leitura de diferentes suportes, muitas vezes interactivos. Estas são, fundamentalmente, as questões sobre as quais nos debruçaremos no artigo que se segue.

As crianças e os jovens aprendem muito do que sabem acerca do mundo e da vida espontaneamente, em contextos muito diversificados que abrangem o grupo familiar, o círculo de amigos, as micro-sociedades ou grupos em que se inserem e os meios de comunicação social, desde a televisão até à Internet.

Mas é, sem dúvida, na escola e, frequentemente, através do livro, que aprendem de forma mais organizada a sistematizar as informações e os conhecimentos, a pensar, a olhar com espírito crítico a realidade circundante, a problematizar o mundo, a encontrar resposta para os problemas que enfrentam, a respeitar as diferenças étnicas, sociais e pessoais e, muitas vezes, a interiorizar os seus direitos e deveres, como pessoas e como cidadãos. Enfim, o contacto com o livro enriquece culturalmente o indivíduo e promove a sua autonomia. Para já não falar, especificamente, da importância do livro e da leitura para o melhoramento da competência linguística oral e para a aprendizagem do código escrito da sua própria língua.

De ano para ano vamos tendo cada vez a sensação mais nítida de que aumentam os problemas relacionados com a competência linguística oral e escrita dos jovens e dos portugueses em geral, problemas esses denunciados diariamente pela própria família, pelos meios de comunicação social e, claro, amargamente constatados por todos os professores. É visível e constrangedora a dificuldade de certos adolescentes em exporem claramente um raciocínio. No âmbito da escrita já não são só os problemas ortográficos, mas é também o domínio deficiente da pontuação, da acentuação gráfica, da própria construção sintáctica da frase, bem como o da construção de um simples texto.

Neste contexto, afigura-se-nos óbvia a importância do livro e da leitura como fonte de saber e de cultura e como meio eficaz de aperfeiçoamento linguístico. Todavia, o difícil é ser capaz de conduzir as crianças e os jovens à leitura, quando estão rodeados de tantas e tão diversificadas solicitações e quando, por vezes, até o próprio meio familiar parece avesso a esta actividade e a tudo o que com ela directamente se relaciona (nomeadamente, consagração efectiva de uma parcela do tempo livre à leitura, discussão de aspectos sobre os quais o livro que lemos nos fez reflectir, exteriorização do prazer de ler, visita regular à biblioteca e à livraria e aquisição habitual de livros).

Não pretendemos reflectir aqui sobre as razões sociológicas desta falta de tempo familiar para a leitura, senão mesmo falta de vontade, mas é certo que ela não contribui minimamente para a motivação intrínseca para ler que as crianças e os jovens deveriam ter.

Por outro lado, se a própria comunidade escolar (digo, comunidade escolar, e não só professores de Português) não conseguir mostrar aos alunos uma atitude muito positiva em relação ao prazer de ler, quer a finalidade seja informativa ou recreativa, e se não encarar a biblioteca como um espaço de cruzamentos curriculares, de modo a que a sua dinamização seja contínua e feita por todos, dificilmente conseguirá cativar os alunos para a leitura.

Finalmente, se o aumento do orçamento para o ensino não for uma prioridade dos governos, se a própria sociedade não facilitar a criação de estruturas de apoio à leitura, tais como livrarias perto da escola e bibliotecas escolares, municipais e públicas, com horários que correspondam às necessidades dos utentes, com livros diversificados, salas de leitura atraentes e confortáveis e oferta de actividades interessantes e originais ligadas ao livro, não haverá condições de promoção da leitura num país.

Porém, sem frequência de leitura não há capacidade de literacia, ou o seu desenvolvimento é muito incipiente. Para que aumentemos a nossa capacidade de lidar com informações escritas, capacidade esta directamente relacionada com o progresso e com o nível de desenvolvimento de um país, é necessário que possamos ler na escola, na rua e em casa, porque cada um destes espaços privilegia funções diferentes da leitura e da escrita; que possamos ler em todas as disciplinas, porque cada uma destas privilegia determinado tipo de textos, que impõem uma estratégia própria de leitura; e que possamos ler em suportes de leitura diversificados (livro, revista, jornal, agenda cultural, publicidade, folheto informativo, formulário, correio, calendário, horário, vídeo-clip, teletexto, suporte multimedia, etc.), porque cada um deles tem características próprias que precisamos de saber descodificar e uma estrutura peculiar que o configura como um todo coerente.

Logo, o professor não pode cruzar os braços, ainda que a tarefa de pôr os alunos a ler se afigure, à partida, muito complexa, por não se conhecerem ainda os gostos pessoais de cada um deles, por quase nunca haver tempo curricular suficiente para dedicar a esta actividade, por não se saber que livros escolher e por grande parte dos estudantes parecer até desdenhar a ideia de uma simples ida à biblioteca. A necessidade de pôr os alunos a ler também não deve ser preocupação exclusiva do professor de Português, tem que ser um projecto de toda a comunidade escolar. Acções pontuais podem ser muito meritórias, mas sem solução de continuidade podem não ser muito eficazes.

Assim, constatadas estas evidências, parece importante continuar a reflectir sobre o tipo de literatura que mais possibilidades terá de captar a atenção do público juvenil que frequenta o ensino básico, sobre actividades de dinamização de bibliotecas escolares e, também, sobre a importância da Internet, que leva igualmente o aluno a ler e/ou sugere actividades que se prendem com a leitura e com o estudo de múltiplas temáticas relacionadas com as várias disciplinas e com o estudo das línguas.

Literatura dirigida a um público de cariz juvenil

Embora sabendo que não existem receitas milagrosas eficazes em todas as circunstâncias, é relativamente consensual que determinados temas são mais adequados e mais motivadores para certas idades que outros. Por isso, distinguiremos dois tipos de público-alvo, o público infantil (que abarca a faixa etária dos 8 aos 12 anos) e o público juvenil, que inclui os jovens de faixa etária seguinte (dos 12 aos 16 anos). Adequados ao público infantil eis alguns temas como os que a seguir se enumeram:

· Contos:

- Contos e lendas. Contos tradicionais e fábulas.
- História e mitologia.

· Descoberta do mundo:

- Continentes e países. Serão sempre interessantes livros que mostrem e falem de povos diferentes do nosso, com hábitos e costumes diversos, com diferentes formas de se alimentarem, vestirem, viverem, etc.
- Meio-ambiente. Sobretudo livros que sensibilizam para a necessidade de preservação do ambiente, que alertem para o problema global da poluição do planeta e a excessiva exploração dos recursos naturais. Importância da separação e reciclagem do lixo.
- Floresta. A importância da floresta como recurso natural e como “pulmão” da humanidade.
- Mar. Riqueza e diversidade do mundo mineral, vegetal e animal.
- Natureza. Livros sobre o equilíbrio e a perfeição das maravilhas naturais que nos rodeiam. A importância da preservação da Natureza.
- Neve. A montanha, a neve, a vegetação, os animais e os desportos de Inverno.
- A aldeia. A vida rural em oposição à vida urbana.
- Viagens. Livros sobre paragens distantes e exóticas.
· Coisas da vida:

- Tolerância, solidariedade, generosidade. Em suma, literatura sobre valores universais.
- Adolescência. Problemas mais recorrentes nesta etapa.
- Amizade. Laços entre as pessoas. Interacção e colaboração.
- Pesadelos / medos. Desmistificação do medo e das suas causas.
- Coragem. Actos heróicos louváveis e bem sucedidos.
- Cozinha. Receitas de culinária simples e acessíveis.
- Escola. O primeiro dia de aulas, iniciativas interessantes na escola – jornal, teatro, clube de ecologia, por ex., visitas de estudo, etc.
- Educação cívica.
- Guerra / paz. O conflito e possibilidades da sua resolução.
- Casa. O lar como espaço familiar aconchegante e protector. Ou não.
- Natal / Páscoa. Celebrações e tradições.
- Praia. Desportos aquáticos e cuidados a ter com o mar e com o Sol.
- Os avós, os primos, a família.
- Tempo atmosférico e estações do ano.
- Férias.
- Vida quotidiana. Os transportes, as refeições, a ida ao médico, às compras, lazer, etc.

· Despertar para a vida:

- Actividades manuais.
- Cores.
- Adivinhas
- Jogos.
- Música, canções, etc.

· BD.

· Teatro.

· Poesia.

Para o público juvenil, que corresponde à faixa etária seguinte à do público infantil, incluindo os jovens dos 12 aos 16 anos, serão aconselhados os seguintes tipos de texto:

· Biografias e memórias
(de personalidades históricas, de pessoas exemplares e singulares)

· Saúde, mente e corpo
(alcool, tabagismo, nutrição, desordens alimentares, sexualidade, auto-estima, imagem corporal, etc.).

· História e ficção histórica.

· Literatura e ficção
(aventura, clássicos, amor, poesia, textos dramáticos, contos, novelas e romances).

· Religião e espiritualidade.

· Escola e Desporto.

· Séries e colecções
(tendo sempre em vista os valores e a formação do carácter).

· Temas sociais
(a morte, a vida, a família, a violência, etc.).

Actividades de dinamização de bibliotecas escolares

Serão funções ou finalidades da biblioteca escolar, entre outras, as seguintes:

· “apoiar a realização do projecto Educativo e do Plano de Actividades da Escola”;

· “dar resposta às solicitações impostas pelos programas”;

· “facultar documentos para as aulas”;

· “desenvolver actividades informativas / formativas”;

· “favorecer a construção da aprendizagem e a interacção / actualização constante de saberes”;

· “dotar os alunos de capacidades que lhes permitam recorrer à maior quantidade possível de informação e facilitar-lhes esse recurso”;

· “promover actividades de motivação e preparação pare a leitura”.

Para que a biblioteca escolar possa convenientemente cumprir todas estas finalidades é necessário que reúna um conjunto de condições. Primeiro, torna-se óbvia a necessidade de que a biblioteca disponha de um orçamento próprio, destinado a cobrir despesas de formação do pessoal que nela trabalha, de aquisição de material documental em suporte papel ou multimedia e de organização de iniciativas.

Segundo, é claro que a tarefa de organizar e dinamizar a biblioteca não pode ser apenas da responsabilidade de um docente ou vários a tempo parcial, sendo de todo recomendável recorrer-se a um docente a tempo integral e a funcionários com preparação / formação específica para desempenharem as funções consignadas à biblioteca.

Em terceiro lugar, é evidente que valorizar a função da biblioteca no processo de ensino / aprendizagem tem que ser um objectivo empenhadamente assumido por toda a comunidade escolar, em particular pelas Direcções das escolas, pelo Conselho Pedagógico, pelos Departamentos, pelos Professores de todas as disciplinas e até, como refere Lino Moreira da Silva, por “Núcleos de Apoio à Biblioteca” (Clube de Amigos da Biblioteca, Serviço de Perguntas – Respostas e Núcleo de Apoio ao Tratamento de Documentos).

Por último, não podemos deixar de referir, além da importância da cooperação intraescolar, a importância da colaboração interescolar e interbibliotecas, para que possa haver intercâmbio de experiências e para facilitar a dinamização de exposições temáticas, itinerantes, etc.

Passemos, então, agora, à enumeração de algumas iniciativas e actividades de dinamização da biblioteca escolar, que não devem ser esporádicas e pontuais, mas devem inserir-se num programa organizado (com especificação de objectivos, metodologia, calendarização, intervenientes e avaliação). Seguirei de muito perto e, fundamentalmente, as propostas de Lino Moreira da Silva, Maria Elisa Sousa e Beatriz Prado.

Iniciativas de dinamização da biblioteca escolar:

· Apoiar o Projecto Educativo e o Plano de Actividades da Escola, bem como as actividades da Área Escola. A biblioteca deve ser um interveniente activo e dinâmico nestes projectos, não só disponibilizando bibliografia geral e específica, como organizando actividades e iniciativas afins.
· Aproveitamento inovador dos expositores da biblioteca. Estes não têm que, obrigatoriamente, estar fixos. O bibliotecário pode, de tempos a tempos, mudar a sua localização e até colocá-los, em determinados momentos, em sítios estratégicos da escola. Nestes poderão aparecer as novidades, as actividades previstas, notícias de actividades culturais locais, informação sobre programas formativos nos meios de comunicação social, etc. Para uma maior articulação entre a sala de aula e a biblioteca, nas aulas de Estudo Acompanhado, por exemplo, os docentes responsáveis poderiam abordar os assuntos mencionados nos expositores. No caso de não ser possível mover os expositores ou de essa hipótese ser inviável, deve circular com uma certa periodicidade o boletim informativo da biblioteca. Este poderá ser lido por cada Director de turma na sala de aula e incluirá as novidades, as recomendações, as iniciativas previstas e outras informações que se considerarem pertinentes.

· Realização de exposições temáticas. Entre outros temas possíveis, poderíamos citar: leitura de contos, temas de ecologia, saúde, alimentação, poluição, tabagismo, energias alternativas, reflexões sobre os valores humanos, sobre a infância, etc. É sempre muito interessante organizar estas iniciativas em colaboração com as disciplinas que estão a abordar estes conteúdos temáticos, bem como convidar alguém que venha falar sobre o tema. Também pode ser muito produtiva a organização de debates sobre a mesma temática.

· Sessões de trabalho sobre a biblioteca. Em colaboração com os Directores de Turma ou com os docentes dos várias disciplinas (nomeadamente Estudo Acompanhado), o bibliotecário pode organizar sessões curtas sobre o funcionamento da biblioteca, com o objectivo de explicar a organização da biblioteca, a forma de catalogação do acervo, o modo como se consulta um ficheiro, a arrumação dos documentos nas estantes, as regras de funcionamento, etc. Esta iniciativa poderia ser complementada com um debate sobre temas afins, por exemplo: a importância da biblioteca escolar, o seu modo de funcionamento, o tipo de documentação mais pertinente, sistema de requisições e de empréstimo domiciliário, direitos e deveres do leitor, sugestões para melhorar o funcionamento da biblioteca, etc. Estes debates devem terminar com o preenchimento de um questionário curto e simples, o que permitirá uma recolha de dados para posterior tratamento.

· Sessão de trabalho sobre “O que fazer com um livro”. Podem organizar-se sessões de trabalho sobre o livro, isto é, como é constituído um livro; como se consulta; a importância do índice, do prefácio, da introdução, das conclusões parciais e das conclusões finais, da tomada de apontamentos e da reflexão sobre o que se recolheu como forma de estruturar a aprendizagem; como se faz uma citação e como se faz uma bibliografia.

· Sessões de trabalho diversas, nomeadamente, tipos de documentos existentes na biblioteca, como consultar obras de referência, como fazer uma pesquisa, como consultar um CD interactivo, como procurar um endereço electrónico, como navegar na Internet, etc.

· Celebração de dias nacionais / internacionais. Podem promover-se iniciativas relacionadas com estes dias, por exemplo, exposições sobre o dia do Livro, da Música, da Criança, da Árvore, e outros. Estas iniciativas deverão ser promovidas pela biblioteca em estreita colaboração com os docentes das várias disciplinas mais directamente ligadas a estas temáticas.

· Dinamização de clubes de leitura. Estes podem funcionar de diversas formas.

- Em primeiro lugar cativam-se os alunos para a constituição de um clube de leitura. Esta abordagem inicial pode ser feita pelo docente de Português (ou de Estudo Acompanhado) em cada uma dos suas turmas. Em data a acordar, os voluntários devem reunir-se na biblioteca com o professor bibliotecário a fim de se inscreverem (com direito a cartão de sócio) e de organizarem os seus próprios estatutos.

- Com o clube formado, e depois de programação da calendarização, pode propor-se a leitura de um mesmo livro (a biblioteca terá que possuir vários exemplares) a todos os membros do clube. Após isto, estes organizam-se em grupos / equipas e elaboram uma série de questões sobre o livro em causa. Proceder-se-á, por fim, ao concurso de perguntas-respostas. Ganhará a equipa que responder a um maior número de questões.

- Para a última etapa pode convidar-se o(a) autor(a) e/ou o(a) ilustrador(a) do livro que se leu e trabalhou e antes do concurso pode haver uma breve palestra, que permitirá um contacto directo entre ambas as partes. Para concluir pode-se produzir um artigo escrito para publicar no jornal escolar.

· Organização de dossiers temáticos. Na biblioteca estarão à disposição dos alunos dossiers temáticos, organizados pelos professores das disciplinas, que incluirão toda a documentação suplementar que os docentes e o bibliotecário consigam reunir. Trata-se de dossiers de consulta para aprofundamento do conteúdo ou para elaboração de trabalhos.

· Sessão sobre “Um livro que não esqueci”. Pode convidar-se um docente ou um aluno da escola ou de uma outra escola, um encarregado de educação, um familiar de um aluno, uma personalidade local, etc., para vir falar de um livro que particularmente o(a) marcou e para motivar os alunos para a sua leitura. Deve providenciar-se para que haja alguns exemplares disponíveis na biblioteca, expostos em local bem visível.

· Colaboração com o jornal escolar. A biblioteca pode e deve ter um espaço próprio neste meio de comunicação para divulgar novidades, iniciativas, ou sugerir novas pistas para cimentar e aprofundar o gosto pelos livros.

· Publicitação de frases sugestivas, relacionadas com o livro ou com a leitura. O bibliotecário e/ou o clube de leitura podem produzir periodicamente frases sugestivas que serão escritas em caracteres chamativos e afixadas em locais estratégicos da escola. Na própria biblioteca deve existir um cofre ou cesto mágicos, um espaço onde professores e alunos podem ir buscar (levando para casa e partilhando…) textinhos com contos, com lindos pensamentos, pequenos documentos que, de uma forma ou de outra, nos ajudem a construir um mundo melhor. Exemplos: “Que livro estás a ler?”; “Enquanto esperas pelo autocarro, experimenta ler um livro!”; “Ler ajuda-te a crescer.”; “Que assuntos te interessam mais? Sabes que há livros na biblioteca sobre isso?”; “Já experimentaste o prazer de ler?” ;“Vem à biblioteca comunicar em Inglês!”; “Consegues comunicar em Francês? Vem à biblioteca experimentar!”; “Viaja até ... Londres, Nova Iorque, Paris, etc.”; “Queres fazer um amigo francês, inglês, português? Vem até à biblioteca conhecê-lo!”; “Descobre os livros de António Mota!”; “Vem participar numa hora do conto!

· Outras actividades na biblioteca:

- Preparação de visitas de estudo.

- Realização de feiras do livro.

- Exposição de trabalhos realizados por alunos, que ficarão arquivados na Biblioteca. Cada turma poderá visitar a exposição com o seu Director de Turma.

- Organização de sessões de contos, declamação de poesia, acompanhadas por uma exposição sobre a biografia do autor e das suas restantes obras. Se os textos escolhidos não são só de um autor, pode-se fazer uma exposição de outros textos de outros autores que complementem a temática seleccionada.

- Iniciativas sobre “o livro temático”, da literatura portuguesa, francesa, inglesa, sobre o livro da semana, acompanhados de uma ficha de leitura e/ou de um comentário crítico.

- A oficina do meio ambiente / reciclagem de materiais. Exposição temática, seguida de fórum de discussão sobre o tema. A concluir o ciclo sobre o meio ambiente poderiam organizar-se actividades de reciclagem, em colaboração com as disciplinas de Ciências da Natureza e Educação Visual e Tecnológica.

- Promoção da Oficina do conto. Trata-se da transmissão oral de contos seleccionados. Pode ser uma iniciativa de cooperação interescolar, inclusive de diferentes ciclos de ensino, dado que podem e devem ser os alunos a fazer a apresentação das narrativas. Pode haver também intercâmbio entre um grupo de instituições.

- “Chá com livros”. Esta iniciativa poderá ser muito interessante se reunir professores de diferentes disciplinas e alunos. Trata-se de uma reunião informal, em que os participantes, enquanto tomam chá, falam de um livro que leram ou que estão a ler. Claro que pode ser um livro sobre qualquer temática e não tem que ser um texto literário.

- Organização periódica da “caixa biblioteca”. Trata-se de uma caixa com cerca de uma dúzia de livros de tipos e temas muito diferentes entre si, que circulará com alguma periodicidade dentro da sala de aula, levada por um docente. Durante algum tempo pode mostrar-se o conteúdo da caixa e o objectivo é motivar os alunos para a sua manipulação e posterior requisição.

- O clube de vídeo. Projecção semanal de um vídeo seleccionado. Em cada semana, expor todo o material disponível sobre o tema ou o filme. Para que seja eficaz, convém fazer uma planificação a médio prazo, por exemplo por período ou mensal.

- Tudo o que dissemos atrás é, obviamente, válido também para as bibliotecas do 1° CEB, quando elas existem; no entanto, temos consciência de que algumas iniciativas são mais viáveis noutros ciclos de ensino. Especificamente para o 1° CEB poderão ser muito interessantes as actividades de promoção da leitura que referiremos a seguir:

- Mostrar, deixar manipular e observar livros, sem constrangimentos de qualquer espécie, deixando que os alunos se guiem pelos seus próprios gostos e interesses.

- Criar na Biblioteca Escolar ou na sala de aula um espaço especial de leitura.

- Organizar o dia ou a hora do conto ou da poesia.

- Promover a leitura integral de um livro que privilegie sempre a formação do carácter.

- Dinamizar concursos de leitura de vários tipos de texto, por exemplo, trava-línguas, adivinhas, anedotas, poemas, textos narrativos, etc.

- Organizar oficinas de transformação de contos tradicionais, misturando personagens de vários contos, mudando o sexo dos personagens principais, alterando tempos e espaços, introduzindo um final diferente, etc.

- Convidar escritores e ilustradores de literatura para a infância.

- Visitar com os alunos bibliotecas públicas ou municipais.

Portais / sítios na Internet de interesse pedagógico

Actualmente, as previsões divergem em relação à evolução do suporte mais tradicional de leitura, o livro. Os partidários incondicionais das novas tecnologias da informação e comunicação defendem que o livro e todos os serviços em papel, como nós os conhecemos hoje, têm tendência a desaparecer de forma gradual. As previsões dos mais conservadores e nostálgicos apostam na continuidade do livro em suporte papel, porque crêem que, mesmo que a partir deste momento deixasse de ser produzido, teríamos sempre todo um legado do passado impossível de ignorar.

Porém, ainda que nos queiramos manter à margem desta questão, não podemos olvidar certos factos, nomeadamente a existência de outros suportes electrónicos fortemente concorrenciais, alguns já uma realidade e outros em estudo, como os livros digitais, o Softbook, o E‑book, o Rocket e Book, o papel electrónico ou papel digital e ainda a miniaturização dos computadores, que permite a criação do PC de bolso.

Concluímos, portanto, que a atitude mais sensata será não deixar de conferir importância ao livro impresso e aos documentos em suporte papel, porque têm todo um peso milenar de tradição, mas também não ignorar por completo os novos suportes de leitura, que estão progressivamente mais generalizados, mais acessíveis e que são cada vez mais procurados por quem tem necessidade de obter informação. Daí a importância que se concede hoje à utilização da Internet na biblioteca, escolar, municipal ou pública, por professores e alunos.

Assim, passaremos, primeiro, à enumeração de alguns motores de busca / portais gerais e, em seguida, faremos referência a alguns motores de busca / portais e sítios considerados de interesse para as disciplinas de Português, Francês e Inglês e ainda para o 1° CEB.

Portais Gerais

· http://www.busca.online.pt/
Para encontrar todos os motores de busca / portais disponíveis. Podemos aceder directamente a um consultório de língua portuguesa; para ir directamente para lá o endereço é: http://www.portugues.online.pt/
· Exemplos de motores de busca / portais:
- Aeiou, Altavista, Clix, Cusco, Eusei.com, Excite, Galileu, Gertrudes, Google, Hotbot, IOL, Iupi, Lusitano, Netc, Netlndex, Novidadesl, Portal Busca, Pt-link, Real Busca, Sapo, Terravista, Voilà, Yahoo.

· Em destaque:
- http://www.aeiou.pt/ ( Entrar no directório Arte e Cultura, sub-directório Literatura e, a seguir, Vidas e obras de…).
- http://www.google.com/
- http://www.voila.fr/
- http://www.sapo.pt/ (Pesquisar no directório Ensino e Investigação – “crianças”. Ver sítio “especiais” que aponta para sítios temáticos)
- www.clix.pt (Neste motor de busca vide o portal sobre Educação: http://directorio.clix.pt/directorio/EDUCACAO/index.php3)
- http://www.terravista.pt/ (www.terravista.pt/index.html Pesquisar no directório Educação).
- http://about.com/education/ (É um portal temático sobre educação contínua, primária, secundária e universitária.)
- www.educared.net (Trata-se de um portal para a educação, em espanhol. Seleccione “Recursos Didácticos” e TI Buscador Educativo”.)
- http://www.educare.pt/ (É o portal do Porto Editora.)
- http://www.educncional.com.br/ (Um interessantíssimo portal brasileiro sobre educação.)
- http://iep.uminho.pt/mjoao/links/Recursos.html (Esta página e a seguinte são muito importantes, pois disponibilizam ligações para sítios de interesse para professores, alunos e pais.)
- www.linguaestrangeira.pro.br/ (Portal sobre línguas estrangeiras.) http://www.netindex.pt/links/EDUCACAO/MATERIAL (Esta página disponibiliza ligações para sítios muito interessantes de material escolar.)

Língua Portuguesa

· http://www.iie.min-edu.pt/ (Este portal é do Instituto de Inovação Educacional e deveria ser visitado frequentemente pelos professores de todas as disciplinas e pelos alunos. Na página principal -home page- pesquisar Sites, Educação.)
· http://www.instituto-camoes.pt/ (Ver, sobretudo: Centro Virtual Camões (CVC), - pesquisar todos os directórios - Ensinar Português, Culturas de Língua Portuguesa, Biblioteca Breve e Exposições Virtuais.)
· www.app.pt (Portal da Associação de Professores de Português. E todo ele muito interessante. Permite o acesso ao sumário de todos os números da revista Palavras. Pesquisar: Sábados Culturais, Recursos Educativos e Ligações.)
· www.bn.pt (Portal da Biblioteca Nacional. Na home page, visitar o directório Apresentação e, depois, Exposições Virtuais e Sites Temáticos - Eça de Queirós.)
· www.ipn.pt/literatura/ (Esta é a maior base de dados sobre literatura portuguesa. A destacar: 1. No página principal há um directório para fazer downlond de ebooks grátis; 2. Há outro sobre um curso de literatura em CD-ROM para encomendar. Destina-se ao ensino básico e secundário; 3. Letras e Letras, novos sítios na INTERNET sobre livros ou literatura; 4. Outras Ligações. Trata-se de um sem número de endereços electrónicos sobre o temo a pesquisar; 5. Interessam ainda todos os directórios sobre Literatura, Medieval, Clássica, Barroca, Neoclássica, Romântica, Pós-Romântica, Correntes do séc.xx.)
· www.ciberduvidas.com (Destacam-se os directórios: Ligações, sítios de “Literatura Portuguesa” e “temas de cultura”, e Glossário.)
· www.gulbenkian.pt (Para ter conhecimento das iniciativas e das exposições ver directório Agenda.)
· www.ciberkiosk.pt/ ou www.ciberkiosk.pt/apresentaçao.html (Trata-se de um importante portal sobre estudos literários, crítica e recensões dos últimos títulos aparecidos no mercado livreiro.)
· www.todososlivros.pt/ (É um portal sobre crítica e novidades literárias.)
· web.rccn.net/camoes/ (É um portal só sobre Luís Voz de Camões. Nele pode ser consultada todo a sua obra.)
· www.terravista.pt/Enseada/5066 (Sítio português sobre poesia universal. Abrange os seguintes períodos: da Antiguidade ao Renascimento, do Renascimento ao Romantismo, do Romantismo no Séc. XX e Séc. XXI. Apenas encontramos textos poéticos traduzidos.)
· www.terravista.pt/mussulo/1917/ (Trata-se de um portal só sobre poesia.)
· www.elefante-editores.co.pt/ (Trata-se de um portal sobre poesia em língua portuguesa.)
· www.brasil.terravista.pt/claridade/3926 (Este sítio é um consultório de língua portuguesa.)
· www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html (Trata-se de um sítio brasileiro sobre poesia.)
· educom.sce.fct.unl.pt/proj/por-mares/ (Este é um portal educativo sobre os séculos XV e XVI, incidindo sobre os Descobrimentos. Inclui um directório sobre “Rotas Literárias”, outro sobre “Rotas Históricas” e outros sobre “Rotos Filosóficas”, “Artísticas”, “das Ciências”, etc.)
· www.linguaestrangeira.pro.br/sitedeportugues/index.htm (Trata-se de um importante portal brasileiro sobre língua portuguesa)

Língua Francesa

· www.terravista.pt/Enseada/2688/frances.htm (Este portal apresenta todos os endereços interessantes para o estudo da língua francesa).

Em destaque:
· CIicNet: www.swarthmore.edu/Humanities/clicnet (Ver o directório: Français langue étrangère et langue seconde - “sommaire”).
· CNDP – Centre National de Documentation Pédagogique : www.cndp.fr/default.htm (Aqui consultar: Le Réseau CNDP - International-, Pédagogie au quotidien - “Ecole”, “Commmunication - échanges”, “Avec les élèves”, “Découvrir et rencontrer des classes en ligne”, “Correspondre ou colaborer avec d'autres élèves “, “Ressources pour la classe” - e EduClic - sítios sobre vários temas, ver em especial Domaines, disciplines et filiaires - todos os níveis de ensino).
· www.fle.fr (Escolher a língua francesa. Abrir e ver. Listagem de instituições de ensino superior que oferecem formação a vários níveis em Francês - L.E. -, inclusive estágios pedagógicos. Na home page ver os directórios Ressources FLE e Cartable connecté. Neste último devem-se abrir todos os sítios porque todos são interessantes e trazem endereços muito úteis. Destaco: www.fle.fr/ressources/classe.html)
· Webencyclo.com: www.webencyclo.com/home/homeactu.aspl (É um portal muito importante, pois permite-nos ter acesso a uma enciclopédia actualizado e a dossiers temáticos da actualidade francesa e internacional. Se nos inscrevermos – gratuitamente – seremos informados por e-mail de todas as actualizações e das novidades).
· Educaweb. http://www.lire-francais.com/ (Neste portal encontramos exercícios de leitura, compreensão e gramática.)
· Lettres. Net: www.lettres.net/ (Neste portal ver com atenção os directórios La Porte des Lettres, Sites des Profs., Un Annuaire de Sites Educatifs, Lexique de Termes Littéraires e Des pistes de Lecture ). Este portal dá acesso a outros, nomeadamente a
· Avec yahoo! Suivez l'actualité théâtrale, du livre et de l'éducation: http://fr.fc.yahoo.com/e/education.html
· Premiers pas sur Internet: www.momes.net/ (Para pequeninos francófonos e para tirar ideias para o 1° CEB).
· Presse-École: www.presse-ecole.com/ (Portal muito interessante para quem quer criar um jornal escolar).
· http://www.bnf.fr/ (Este portal é da biblioteca François Mitterrand).
· Agrupamentos de instituições – Espace Universitaire Albert Camus: http://www.fle.fr/
· Recursos linguísticos:
- Dictionnaire de la Francophonie: www.francophonie.hachettelivre.fr./
- Dictionnaire de l'Académie française: www.epas.utoronto.ca:8080/wulfric/academie

Língua Inglesa

· www.yahoo.com/ (Abrir no directório “Education”.)
· www.yahoo.com/Arts/Humanities/Literature/Criticism_and_Theory/ (trata-se de um sítio sobre teoria literária.)
· http://www.education-world.com/ (Destaco todos os directórios da página principal.)
· www.rendin.org/ (Neste portal saliento dois directórios - home page - “Just for K-12 Readers” e “Support Materials for Class”.)
· www.thelivingletters.com/ (Portal para crianças até aos 12 anos. Tem jogos simples e textos simples.)
· http://www.surfnetkids.com/ (Trata-se do portal de Barbara Feldman. Ajuda a orientar a navegação de crianças na Internet.)
· http://www.ncbe.gwu.edu/ (Na página principal destaco os Directórios “Language & Education Links” e “In the Classroom”.)
· www.ilovelanguages.com/ (Neste portal destaco os directórios “How To Teach English With Fun and Games” - http://www.eslgames.com/edutainment/#redirect )
· www.terravista.pt/aguaalto/2779 (Neste portal encontramos regras gramaticais, lista de verbos, exercícios, utilidades e ligações.)
· http://grammarnet.superzip.net/ (Trata-se de um importante portal só sobre gramática. Tem múltiplos exemplos.)
· ccc.commnet.edu/grammar/ (Sítio sobre gramática inglesa.)
· polyglot.lss.wisc.edu/Iss/lang/teach.html (Trata-se de um sítio sobre o ensino de línguas estrangeiras.)
· http://www.theenglishoffice.com.br/
· www.eslcafe.com/ (É um sítio muito interessante para docentes e alunos, pois permite o acesso a material pedagógico.)
· www.aitech.ac.jp/-iteslj/quizzes/
· esl.nbout.com/
· www.aitech.ac.jp/-iteslj/ESL3.html (Este sítio disponibiliza endereços para estudantes, docentes e novidades.)
· onelook.com/ (É um sítio que disponibiliza dicionários.)
· http://www.englishtown.com/ (É um sítio de uma escola de Inglês online.)
· www.acronymfinder.com/ (Sítio sobre abreviaturas e siglas.)

1° Ciclo do Ensino Básico
· http://www.iie.min-edu.pt/
· http://www.app.pt/
· www.ciberduvidas.com/
· www.ipn.pt/literatura/infantil/links.htm (Trata-se de um importantíssimo portal de ligações para páginas sobre literatura infantil.)
· www.iie.min-edu.pt/ (Na página principal deste portal entrar no directório “Sites”. Aqui entrar sucessivamente em: “Para Alunos”, “Cidade da Malta” - http://www.cidndedamalta.pt/- e “Sítio dos Miúdos” - www.sitiodosmiudos.pt/ )
· www.infancia.net (Sítio importante para crianças do mundo latino. Serve para o professor tirar ideias de actividades a desenvolver com alunos desta faixa etária.)
· www.momes.net/education/index.html (Trata-se de um portal muito importante com actividades para crianças até aos 12 anos de idade. Na página principal destaco: “Jeux à Imprimer”, “Lecture”, “Lecture et Littérature »: todo este directório é muito importante, sobretudo, “Association Française pour la Lecture”, “L'Association” e “Revue: Les Actes de Lecture”.)